Domingo, Junho 28, 2026
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BACTÉRIA DO MAR DE UBATUBA VIRA “MINI USINA” E ABRE CAMINHO PARA ENERGIA LIMPA EM PESQUISA DA UNESP


Uma bactéria marinha encontrada em Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo, está no centro de uma inovação científica desenvolvida no ambiente acadêmico da Unesp que une geração de energia limpa, biotecnologia e benefícios ambientais. A pesquisa tem como destaque o trabalho da engenheira Giulia Castro, que desenvolveu uma célula biofotovoltaica a partir da cianobactéria Synechocystis pevalekii, microrganismo capaz de produzir eletricidade durante o processo natural da fotossíntese.

A proposta não surgiu como uma solução pronta para substituir as fontes tradicionais de energia, mas como um avanço experimental em uma área promissora da ciência. O sistema utiliza organismos vivos para gerar corrente elétrica em pequena escala, aproveitando uma dinâmica que já acontece naturalmente na natureza. Durante a fotossíntese, a cianobactéria absorve luz, captura dióxido de carbono, libera oxigênio e movimenta elétrons em seu metabolismo. Esses elétrons são captados por eletrodos de cobre e zinco, gerando eletricidade.

O protótipo alcançou cerca de 227 miliwatts por metro quadrado em testes laboratoriais. Embora esse desempenho ainda esteja distante da capacidade de fontes convencionais, como painéis solares ou redes elétricas tradicionais, o resultado chama atenção por mostrar que microrganismos marinhos podem ser utilizados como base para novas tecnologias sustentáveis. A inovação tem potencial para aplicações em dispositivos de baixo consumo, sensores ambientais, sistemas de monitoramento remoto e equipamentos instalados em locais onde a troca de baterias é difícil ou inviável.

A cianobactéria utilizada na pesquisa foi coletada no ambiente marinho de Ubatuba e integra uma coleção de microrganismos ligada ao Instituto Oceanográfico da USP. A partir desse material biológico, o projeto avançou dentro da Unesp, reunindo conhecimentos de áreas como biologia, engenharia e química. O desenvolvimento levou cerca de 18 meses e teve pedido de patente depositado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, o INPI.

Um dos pontos mais importantes da pesquisa é que a célula biofotovoltaica não apenas gera energia. Ao realizar fotossíntese, a cianobactéria também captura dióxido de carbono e libera oxigênio, em um ciclo semelhante ao das plantas. Esse aspecto coloca a inovação em sintonia com discussões atuais sobre redução de emissões, transição energética e busca por tecnologias de baixo impacto ambiental.

Nos testes com luz artificial e luz solar, o desempenho apresentou estabilidade, com variação mínima entre aproximadamente 215 e 227 miliwatts por metro quadrado. Esse comportamento é relevante porque indica que o sistema pode funcionar sob diferentes condições de iluminação, um requisito importante para futuras aplicações fora do laboratório.

A tecnologia ainda está em fase experimental e precisa avançar em eficiência, durabilidade, escala e viabilidade prática. Mesmo assim, o estudo abre caminho para novas soluções energéticas baseadas em organismos vivos encontrados no próprio ambiente brasileiro. Em vez de depender apenas de grandes estruturas ou equipamentos complexos, a pesquisa mostra que a biodiversidade pode oferecer respostas inovadoras para desafios ambientais e energéticos.

Entre as possíveis aplicações futuras estão sensores ambientais em áreas de preservação, dispositivos autônomos de baixo consumo, equipamentos científicos, sistemas de monitoramento em regiões remotas e tecnologias que precisem funcionar por longos períodos com menor dependência de baterias convencionais. Nesses casos, mesmo uma geração elétrica modesta pode ser suficiente para manter aparelhos em operação.

Outro diferencial está no uso de materiais de baixo custo, como cobre e zinco, empregados nos eletrodos do protótipo. Essa característica pode facilitar novos testes, adaptações e pesquisas futuras. Além disso, o cultivo controlado de cianobactérias pode abrir espaço para estudos relacionados à captura de carbono, créditos ambientais e formas alternativas de produção de energia limpa.

A pesquisa também reforça a importância da integração entre instituições, laboratórios e áreas do conhecimento. A bactéria veio do ambiente marinho de Ubatuba, passou por preservação científica em coleção da USP e foi utilizada em uma inovação desenvolvida na Unesp. O resultado mostra como a ciência brasileira pode transformar biodiversidade em tecnologia, unindo pesquisa acadêmica, sustentabilidade e criatividade.

O trabalho destacado por Giulia Castro representa um passo importante dentro de uma linha de investigação que ainda deve evoluir nos próximos anos. A célula biofotovoltaica não promete abastecer casas ou cidades no curto prazo, mas aponta para um futuro em que organismos microscópicos poderão ajudar a alimentar sensores, sistemas de monitoramento e pequenos dispositivos, ao mesmo tempo em que contribuem para a captura de CO₂ e a liberação de oxigênio.

Em tempos de crise climática e busca por alternativas sustentáveis, uma bactéria quase invisível encontrada no mar de Ubatuba se transforma em símbolo de uma ciência que olha para a natureza não apenas como recurso, mas como parceira na construção de novas soluções. A pequena “mini usina” criada em laboratório ainda tem um longo caminho pela frente, mas já mostra que grandes inovações podem nascer de organismos microscópicos.

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