GOLPE DA TORTA: DUPLA É PRESA APÓS PEDIR COXINHAS, PUDIM E ENVIAR COMPROVANTE DE PIX AGENDADO EM SJC
Tortas, coxinhas, pudim e refrigerantes faziam parte dos pedidos. O pagamento, porém, segundo a investigação, não chegava à conta da comerciante. Dois jovens de 19 anos foram presos em flagrante em São José dos Campos, suspeitos de participar de uma sequência de golpes contra uma torteria utilizando comprovantes de Pix agendado. A prisão aconteceu na terça feira (11), depois que a própria dona do estabelecimento percebeu uma nova tentativa e acionou a Polícia Civil.
O caso ganhou contornos de uma verdadeira armadilha montada contra os suspeitos. A comerciante já havia sofrido prejuízos anteriormente e percebeu que o novo pedido apresentava características semelhantes aos anteriores. Em vez de simplesmente cancelar a entrega, ela procurou o setor de investigação do 1º Distrito Policial de São José dos Campos. Os policiais orientaram que a encomenda seguisse normalmente e passaram a acompanhar a movimentação.
Segundo a investigação, a forma de atuação consistia em realizar pedidos de valores relativamente baixos para não despertar desconfiança. Depois, era enviado um comprovante indicando um Pix agendado. A mercadoria era entregue antes que o comerciante percebesse que o dinheiro efetivamente não havia entrado na conta. Posteriormente, o pagamento agendado poderia ser cancelado.
A proprietária da torteria, Valéria Macedo, relatou que os pedidos eram feitos em pequenas quantidades e que essa estratégia dificultava a percepção inicial da fraude. Segundo ela, os produtos também eram direcionados para entrega em um endereço próximo ao local onde os suspeitos estariam, e não exatamente na residência deles. A comerciante contou que descobriu posteriormente que ninguém morava no imóvel indicado para algumas das entregas.
A Polícia Civil já investigava um boletim de ocorrência registrado em junho envolvendo golpes contra o mesmo estabelecimento. De acordo com o delegado Reinaldo Checa, os episódios vinham ocorrendo de forma reiterada e, quando a comerciante identificou uma nova tentativa, entrou em contato diretamente com os investigadores.
Com a denúncia, investigadores do 1º DP montaram uma campana para acompanhar a entrega. Uma viatura descaracterizada foi utilizada durante a ação. A encomenda contendo tortas, pudim, coxinhas e refrigerantes seguiu para o ponto combinado, enquanto os policiais observavam a movimentação.
No momento em que os produtos foram recebidos, uma jovem foi abordada pelos policiais. Outro suspeito, que estava nas proximidades e entrou em uma residência, também acabou localizado e detido. Um aparelho celular foi apreendido durante a ocorrência e deverá integrar a investigação. As informações complementares apontam que o flagrante aconteceu na região do Parque Industrial, enquanto a torteria vítima dos golpes fica no bairro Rio Comprido.
Segundo a Polícia Civil, os dois jovens inicialmente teriam apresentado versões diferentes e atribuído responsabilidades um ao outro. Posteriormente, conforme as informações divulgadas sobre a ocorrência, ambos admitiram participação nos fatos e alegaram dificuldades financeiras, além de demonstrarem arrependimento.
A investigação aponta ainda que a jovem seria responsável por realizar pedidos utilizando nomes falsos. O rapaz, segundo a polícia, teria conhecimento da origem fraudulenta das encomendas e consumiria os produtos obtidos por meio dos golpes. Os dois foram autuados em flagrante por tentativa de estelionato e permaneceram presos à disposição da Justiça.
A prisão não encerra a investigação. A Polícia Civil procura esclarecer se a dupla esteve envolvida em outros golpes semelhantes, tanto contra a mesma torteria quanto contra outros estabelecimentos comerciais de São José dos Campos. As diligências deverão analisar dados do celular apreendido e informações relacionadas aos pedidos realizados anteriormente.
O método utilizado na fraude explora justamente uma característica do Pix que pode confundir quem recebe apenas uma imagem do comprovante. O Banco Central alerta que o Pix agendado gera comprovante, mas o dinheiro somente é transferido na data programada. Por isso, um documento indicando agendamento não representa confirmação de que o valor já entrou na conta do destinatário.
No caso investigado em São José dos Campos, a comerciante passou a reforçar a conferência antes de liberar novas encomendas. Apesar do prejuízo sofrido, ela afirmou que continuará aceitando Pix, por considerar a modalidade prática e bastante utilizada pelos clientes, mas agora verificará diretamente se o dinheiro realmente foi creditado antes da entrega.
A orientação coincide com o alerta do Banco Central. Para quem vende produtos ou presta serviços, a simples apresentação de uma imagem ou comprovante não deve substituir a consulta ao extrato ou ao histórico da própria conta bancária. No Pix agendado, a operação pode aparecer como programada sem que tenha ocorrido a transferência naquele momento.
A estratégia de pedir pequenas quantidades de alimentos também passou a ser um dos pontos que mais chamaram atenção no caso. Em vez de uma compra de alto valor que pudesse despertar suspeita imediata, os investigados, segundo a apuração, faziam pedidos menores e repetidos. Dessa maneira, tortas, coxinhas, pudins e refrigerantes teriam sido retirados em diferentes oportunidades sem que o pagamento fosse efetivamente concluído.
Desta vez, porém, o novo pedido terminou de forma diferente. A comerciante percebeu a irregularidade no comprovante, confirmou que o valor não havia sido creditado, chamou a Polícia Civil e manteve a entrega como parte da estratégia para permitir o flagrante.
A campana terminou com os dois jovens de 19 anos detidos e levados para a delegacia. Agora, além da tentativa registrada nesta semana, os investigadores trabalham para verificar quantas vezes o mesmo método pode ter sido utilizado e se existem outras vítimas da dupla em São José dos Campos.


