Quarta-feira, Novembro 4, 2026
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“QUASE ME JOGOU NO LIXO”: MENINO AUTISTA DE 6 ANOS DENUNCIA ATITUDE DE PROFESSOR EM TAUBATÉ; CÂMERAS REGISTRARAM A CENA


Uma denúncia envolvendo um professor de Artes da rede municipal de Taubaté, no Vale do Paraíba, ganhou repercussão após a mãe de uma criança autista de apenas seis anos relatar que o filho foi levantado de cabeça para baixo e levado em direção a uma lixeira durante uma aula. O episódio aconteceu na EMEF Monsenhor Evaristo Campista César, no dia 29 de julho, e foi identificado posteriormente nas imagens das câmeras de monitoramento da escola. A mãe, Bianca, afirma que o menino, Lorenzo, passou a apresentar medo de frequentar as aulas, crises de ansiedade e sofrimento emocional. A Prefeitura confirmou que o professor reconheceu a atitude como inadequada, embora tenha afirmado que se tratava de uma brincadeira.

Segundo Bianca, os problemas envolvendo o docente começaram ainda nos primeiros meses do ano letivo. Ela relata que o professor fazia comentários sobre o comportamento de Lorenzo, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 1 de suporte, e utilizava a irmã mais velha do menino, de nove anos, para transmitir reclamações à família. Em uma das situações, o profissional teria orientado a menina a dizer à mãe que precisava educar o irmão. A mulher também afirma ter tomado conhecimento de comentários que considerou ofensivos, incluindo referências a porcos e chiqueiros, além de uma ocasião em que o filho teria sido chamado de delinquente.

O episódio mais grave relatado pela família aconteceu durante uma aula de Artes. De acordo com a mãe, Lorenzo voltou da escola mais quieto e, posteriormente, contou que o professor havia levantado seu corpo, colocando-o de cabeça para baixo e movimentando-o em direção a uma lixeira, como se estivesse fazendo um aviãozinho. Em um áudio apresentado pela família, o menino descreveu a situação e afirmou que quase foi colocado dentro do lixo. Ele também relatou que quase escorregou e caiu durante a movimentação.

A criança teria contado à avó que não queria que a mãe soubesse do ocorrido, pois temia que o professor ficasse ainda mais bravo. Segundo Bianca, o filho também relatou que a atitude teria sido apresentada como uma espécie de lição para os alunos que fizessem bagunça. Essa interpretação, entretanto, é contestada pela versão apresentada pelo docente, que afirmou ter realizado uma brincadeira com os estudantes.

Depois de ouvir o relato do filho, Bianca procurou a direção da escola e solicitou a verificação das câmeras de monitoramento. Um registro escolar de 6 de agosto informa que a unidade inicialmente não conseguiu localizar a ocorrência no horário indicado. Posteriormente, em uma devolutiva registrada no dia 11 de agosto, a equipe informou que havia encontrado as imagens da interação entre o professor e a criança. O documento descreveu que o docente pegou o aluno e realizou um movimento semelhante a um aviãozinho em direção ao lixo.

Apesar de reconhecer a existência da interação, a avaliação inicial da escola foi de que não houve ofensa à integridade física ou moral do estudante. Segundo os documentos apresentados, a equipe considerou que o movimento ocorreu de maneira espontânea, durante uma brincadeira. O registro também menciona que outros alunos teriam pedido para participar de uma atividade semelhante, mas o professor recusou. Bianca discorda dessa interpretação e sustenta que o episódio provocou medo e constrangimento no filho.

A mãe registrou um boletim de ocorrência em 14 de agosto, relatando o episódio e outras situações que, segundo ela, já haviam ocorrido envolvendo o professor. O documento policial menciona, em caráter preliminar, possíveis enquadramentos relacionados a maus-tratos, discriminação contra pessoa com deficiência e submissão de criança a vexame ou constrangimento. Essas classificações não representam conclusão sobre a responsabilidade criminal do docente, e não há confirmação de indiciamento ou condenação.

Na mesma data, uma reunião foi realizada na escola com a participação de representantes da unidade, da Supervisão de Ensino, da mãe e de um vereador. As imagens foram assistidas durante o encontro. Conforme o registro administrativo, os representantes presentes avaliaram que a gravação não demonstrava violência ou conduta incompatível com a função. Bianca solicitou uma retratação pessoal do professor, mas foi informada de que não havia elementos para impor essa medida por meio do procedimento funcional. A demanda administrativa foi considerada encerrada, ressalvada a possibilidade de apuração de novos fatos.

As consequências relatadas pela mãe, entretanto, continuaram. Bianca afirma que Lorenzo passou a chorar ao pensar em encontrar o professor, apresentar resistência para entrar na escola e sofrer episódios de palpitação, suor frio e dores no peito. Segundo ela, o menino também começou a roer os dedos até provocar ferimentos. A família procurou atendimento médico, e a mãe relata ter recebido orientação para afastá-lo temporariamente das atividades escolares. Os sintomas e sua relação com o episódio são apresentados no relato familiar, sem divulgação de conclusão clínica independente sobre a causa.

A situação também provocou mudanças na rotina escolar de Lorenzo. A Prefeitura informou que foi acordado com a mãe que o professor não manteria mais contato com a criança. Desde então, segundo a Secretaria Municipal de Educação, o aluno passou a realizar as atividades de Artes em um ambiente separado, acompanhado por um auxiliar. Bianca, porém, questiona a medida e afirma que retirar o filho da sala enquanto os colegas permanecem juntos acaba prejudicando sua participação nas atividades escolares. Para ela, a criança não deveria ser afastada do convívio com a turma em razão do episódio denunciado.

Em outro relato, a mãe afirma que Lorenzo voltou a demonstrar medo em 21 de outubro, quando foi levado à escola pela avó. Na ocasião, o auxiliar que costumava recebê-lo estaria de licença, e o menino teria se assustado ao encontrar o professor nas proximidades do parquinho. Segundo Bianca, a criança se agarrou à avó e pediu que não fosse deixada sozinha, demonstrando receio de ser novamente colocada em direção ao lixo.

A família também relata dificuldades para conseguir acompanhamento especializado pela rede pública. Bianca afirma que o atendimento psicológico do filho foi interrompido e que ele não passa por consulta com neurologista há mais de um ano. Ela diz ter procurado representantes do poder público para apresentar documentos e solicitar providências, mas considera que as medidas adotadas até agora não foram suficientes para garantir tranquilidade à criança.

Em manifestação sobre o caso, a Secretaria Municipal de Educação informou que a direção escolar e a equipe supervisora analisaram as imagens e ouviram o professor. Segundo a Prefeitura, o docente reconheceu que sua conduta foi inadequada, embora tenha sustentado que a intenção era brincar com os alunos. A administração também afirmou que ele pediu desculpas e que o episódio foi comunicado aos setores responsáveis.

A Prefeitura acrescentou que o professor é servidor efetivo, possui anos de atuação na rede municipal e não apresenta registros anteriores que desabonem sua conduta profissional. A Secretaria informou ainda que, a partir do ano letivo de 2027, o docente não será mais responsável pelas aulas de Artes da turma de Lorenzo.

Bianca afirma que não pretende retirar o filho da escola. A mãe cobra condições para que Lorenzo continue frequentando as aulas com segurança, acompanhamento adequado e participação nas atividades com os demais estudantes, sem precisar conviver com situações que, segundo ela, provocam medo e sofrimento. Até as informações disponíveis, não havia confirmação de afastamento do professor de suas funções ou de conclusão de investigação criminal relacionada ao episódio.

Foto: Reprodução

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