Quarta-feira, Novembro 4, 2026
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ALERTA NO SUL DE MINAS: 180 BARBEIROS ANALISADOS PELA UNIFAL ESTAVAM INFECTADOS COM PARASITA DA DOENÇA DE CHAGAS


Um levantamento realizado pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal) revelou a presença do protozoário causador da doença de Chagas em 180 barbeiros examinados no Sul de Minas Gerais. Desde 2023, o laboratório da instituição recebeu 490 insetos encaminhados por municípios da região, dos quais aproximadamente 36,7% apresentaram resultado positivo para o Trypanosoma cruzi. Os números chamam a atenção para a circulação do parasita e reforçam a importância do monitoramento realizado pelas equipes municipais de saúde. Apesar da quantidade de insetos infectados, os resultados não significam que o mesmo número de pessoas tenha contraído a doença.

O trabalho é desenvolvido por pesquisadores da Unifal e atende municípios vinculados às regionais de saúde de Varginha, Alfenas e Passos. Uma das principais vantagens do serviço é a rapidez na identificação dos insetos e na análise da presença do parasita. Atualmente, os resultados são liberados em até dois dias, permitindo que as prefeituras adotem medidas de prevenção e controle em um prazo menor. Antes da implantação do serviço regional, em 2023, as análises eram concentradas na Fundação Ezequiel Dias, em Belo Horizonte, e os resultados levavam, em média, uma semana para serem disponibilizados.

Quando um inseto chega ao laboratório, os pesquisadores realizam inicialmente uma identificação taxonômica para verificar se o exemplar pertence ao grupo dos barbeiros, conhecidos cientificamente como triatomíneos. Confirmada a identificação, os profissionais examinam o conteúdo intestinal do inseto para procurar o protozoário responsável pela doença. Segundo o professor de parasitologia Fabio Antônio Colombo, o procedimento envolve uma leve compressão do abdômen, a coleta de material em uma lâmina e a análise microscópica, permitindo identificar a presença do parasita.

Dos 490 barbeiros examinados desde o início do serviço, 180 apresentaram resultado positivo, uma proporção superior a um terço das amostras. Entretanto, os especialistas ressaltam que o resultado representa os insetos encaminhados para análise, não sendo possível concluir que o mesmo percentual esteja presente em toda a população de barbeiros do Sul de Minas. O dado também não representa a quantidade de pessoas infectadas, já que a transmissão depende de condições específicas de exposição ao protozoário.

A professora de parasitologia Angélica Rosa Faria explica que a identificação de um barbeiro infectado permite às equipes de saúde avaliar a necessidade de ações preventivas na residência onde o inseto foi encontrado. Entre as medidas estão a aplicação de inseticidas em situações indicadas pela vigilância, a busca por outros exemplares no imóvel e a avaliação dos moradores para verificar a possibilidade de exposição ao parasita. A rapidez dos exames contribui para que essas providências sejam tomadas antes que novos riscos sejam identificados.

Em Varginha, a Vigilância Ambiental utiliza os resultados laboratoriais para orientar inspeções nas residências. Segundo o supervisor de campo Paulo Henrique da Silva, quando um barbeiro é encontrado, as equipes realizam uma vistoria inicial no imóvel e ampliam a verificação para propriedades situadas em um raio aproximado de 100 metros. Caso sejam identificados insetos ou vestígios de sua presença, os profissionais podem realizar borrifação com inseticida. Quando o exame confirma a presença do protozoário, outros setores da Secretaria Municipal de Saúde passam a avaliar a necessidade de acompanhamento dos moradores.

A presença de barbeiros infectados na região também foi identificada em pesquisas anteriores. Um estudo com dados coletados entre 2020 e 2022, envolvendo municípios atendidos pela Regional de Saúde de Alfenas, encontrou resultados positivos para o parasita em parte dos insetos analisados. O levantamento reforça a importância da vigilância entomológica, embora seus resultados não possam ser diretamente comparados com os números atuais devido às diferenças entre os períodos, métodos e amostras examinadas.

A doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e pode ser transmitida quando fezes infectadas de barbeiros entram em contato com ferimentos na pele ou mucosas. Durante a alimentação, o inseto pode eliminar fezes próximas ao local da picada, e o ato de coçar a região pode facilitar a entrada do parasita no organismo. A transmissão também pode ocorrer pela ingestão de alimentos contaminados, durante a gestação, da mãe para o bebê, e, em circunstâncias específicas, por transfusões de sangue ou transplantes de órgãos contaminados.

Os sintomas da fase aguda podem incluir febre prolongada, mal-estar, dores pelo corpo e inchaço, especialmente no rosto ou próximo ao local por onde o parasita entrou. Em algumas pessoas, a infecção inicial pode apresentar poucos sintomas ou passar despercebida. Já na fase crônica, a doença pode permanecer sem manifestações durante anos, mas alguns pacientes desenvolvem complicações cardíacas e digestivas, incluindo alterações no ritmo do coração, comprometimento do esôfago e problemas intestinais.

A médica cardiologista Juliana Marilia Pereira de Oliveira destaca a importância do diagnóstico precoce, especialmente porque o tratamento com medicamentos antiparasitários apresenta maior eficácia nas fases iniciais. O benznidazol é uma das principais opções utilizadas contra a infecção. Nos casos crônicos, a indicação do tratamento depende da avaliação individual, considerando a idade, as condições clínicas e a presença de possíveis complicações. Por isso, a identificação de um barbeiro infectado deve ser acompanhada de orientação adequada pelas equipes de saúde.

Apesar da quantidade de insetos com resultado positivo, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais informou que apenas um caso humano da doença de Chagas havia sido notificado em 2026 no Sul de Minas, no município de Pouso Alegre. Não foram divulgadas informações que relacionem esse registro aos insetos analisados pelo laboratório da Unifal. A diferença entre os números reforça que a presença do protozoário nos vetores não significa necessariamente que tenha ocorrido transmissão para seres humanos.

A orientação para quem encontrar um inseto com características de barbeiro dentro de casa é evitar esmagá-lo ou tocá-lo diretamente com as mãos. Quando for possível recolhê-lo com segurança, recomenda-se utilizar proteção, colocá-lo em um recipiente fechado e procurar a Vigilância em Saúde do município para identificação. Também é importante observar possíveis locais onde esses insetos possam se esconder, como frestas de paredes, telhados e estruturas próximas às residências, seguindo as orientações dos agentes de vigilância.

O laboratório da Unifal não recebe diretamente insetos levados pela população. As amostras devem ser encaminhadas pelos serviços municipais de saúde, que fazem a ligação com a estrutura regional responsável pelas análises. Segundo a professora Angélica Rosa Faria, municípios interessados no serviço podem procurar a Superintendência Regional de Saúde para receber orientações sobre o encaminhamento dos exemplares.

Com a identificação de 180 barbeiros infectados entre os 490 examinados, o trabalho desenvolvido em Alfenas fornece informações para que as prefeituras direcionem inspeções, ações de controle e acompanhamento de possíveis exposições. O serviço permanece como uma ferramenta de vigilância da doença de Chagas nas regiões de Varginha, Alfenas e Passos.

Foto: Reprodução/EPTV

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