Quarta-feira, Novembro 4, 2026
Cidades

“A POLÍCIA INVADIU SEM ANUNCIAR”, DIZ ESPOSA DE LUAN; PM ABRE INQUÉRITO PARA INVESTIGAR MORTE DO JOVEM EM CARAGUATATUBA


A morte de Luan Vitor Silva Santos, de 21 anos, durante uma intervenção da Polícia Militar em Caraguatatuba, ganhou novos desdobramentos após sua companheira apresentar um relato que contraria a versão registrada pelos policiais. Janaína afirma que os agentes entraram na residência sem anunciar a presença da equipe e efetuaram disparos quando o jovem saía de um quarto e se deparou com os militares na sala. O caso aconteceu na segunda-feira (2 de novembro), no bairro Jardim Olaria, e passou a ser investigado também por meio de um Inquérito Policial Militar (IPM), instaurado para apurar as circunstâncias da atuação dos agentes.

Em um vídeo gravado após a ocorrência, Janaína contou que a confusão começou quando seu ex-companheiro, identificado como Warllan, apareceu em frente à residência e passou a gritar, exigindo que Luan saísse. Segundo ela, o portão da casa era coberto, impedindo que os moradores identificassem quem estava do lado de fora. Para evitar que a discussão se agravasse, a mulher decidiu abrir o portão e tentar conversar com o ex-companheiro, enquanto Luan permaneceu dentro do imóvel.

Foi nesse momento, segundo Janaína, que os policiais entraram na residência. A companheira afirma que os militares já estavam posicionados junto ao muro e avançaram imediatamente assim que o portão foi aberto, sem comunicar sua presença ou dar qualquer aviso. Ela declarou que Luan estava saindo do quarto quando encontrou os agentes na sala, onde ocorreram os disparos. O depoimento apresenta uma dinâmica diferente daquela descrita pelos policiais no boletim de ocorrência e deverá ser confrontado com os demais elementos da investigação.

A mãe do jovem, Lidiana, também contesta a versão apresentada pela Polícia Militar. Ela afirma que os agentes chegaram atirando e sustenta que o filho não estava armado no momento da intervenção. A mãe reconheceu, entretanto, que Luan havia efetuado um disparo para o alto aproximadamente meia hora antes, alegando que a intenção era intimidar Warllan, que, segundo ela, estaria ameaçando a família. Lidiana insiste que o filho não efetuou disparos contra os militares e questiona a necessidade do uso da força que resultou em sua morte.

De acordo com o registro policial, a equipe foi acionada após Warllan relatar um desentendimento com Luan, acompanhado de ameaças e de um disparo de arma de fogo. Os policiais afirmaram que, ao chegarem ao endereço, visualizaram o jovem entrando rapidamente na residência. Na sequência, Luan teria retirado de uma mochila uma arma de fabricação artesanal e desobedecido às ordens para largar o armamento. Segundo os militares, essa situação motivou os disparos efetuados pela equipe.

O boletim registra que dois policiais utilizaram suas armas durante a intervenção. Um deles efetuou três disparos de fuzil calibre 5,56 milímetros, enquanto o outro realizou dois disparos de pistola calibre .40, totalizando cinco tiros. O número de disparos efetuados pelos agentes não permite, por si só, determinar quantos projéteis atingiram Luan. A declaração de óbito aponta hemorragia interna aguda, trauma torácico e ferimentos por arma de fogo como causas da morte.

Outra divergência envolve os materiais apreendidos na residência. Segundo o registro policial, foram encontrados uma arma artesanal calibre .380, munições, aproximadamente 919 gramas de material com características de maconha e um caderno com anotações. Lidiana afirma desconhecer a existência das drogas e acusa os policiais de terem colocado entorpecentes no imóvel. A família também apresentou imagens da movimentação dos agentes envolvendo uma mochila, mas o vídeo, isoladamente, não comprova a acusação. A origem dos materiais apreendidos e as circunstâncias em que foram localizados dependem de esclarecimento pela investigação.

A mãe também relatou momentos de desespero ao chegar à casa e tentar saber o que havia acontecido com o filho. Segundo ela, os policiais impediram sua entrada no imóvel. Durante a confusão, Lidiana danificou uma viatura e acabou algemada e conduzida por suspeita de dano qualificado ao patrimônio público. Foi estipulada fiança equivalente a um salário mínimo. Ela questiona a conduta dos agentes e afirma que tentava se aproximar de Luan para verificar sua situação.

Diante das divergências apresentadas pela família, a Polícia Militar confirmou a instauração de um Inquérito Policial Militar para investigar a atuação dos agentes. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que as armas envolvidas na ocorrência foram apreendidas e que foram requisitados exames ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal. A abertura do procedimento busca esclarecer as circunstâncias da intervenção e não representa, por si só, uma conclusão sobre eventual irregularidade ou responsabilidade dos policiais.

Entre as medidas determinadas pela autoridade policial estão exames balísticos, análise da arma artesanal apreendida, exame necroscópico e preservação de possíveis gravações de câmeras corporais, viaturas e imóveis próximos. Uma cápsula deflagrada encontrada no quintal da residência também deverá ser examinada para esclarecer sua origem e verificar se está relacionada ao disparo mencionado pela família ou a outro momento da ocorrência.

As imagens poderão ser fundamentais para esclarecer se os policiais anunciaram sua presença, em que circunstâncias entraram no imóvel e o que aconteceu nos instantes anteriores aos disparos. Também permanece pendente a confirmação sobre a posição de Luan, a existência de uma arma em suas mãos e a possibilidade de ter ocorrido algum disparo contra a equipe durante a intervenção.

Aos 21 anos, Luan deixou um filho de dois anos. Sua morte provocou questionamentos da mãe e da companheira, que cobram esclarecimentos sobre a abordagem policial. Enquanto a família sustenta que o jovem não ofereceu resistência armada no momento em que foi baleado, os militares afirmam que ele retirou uma arma de uma mochila e ignorou as ordens recebidas. Até o momento, não há conclusão pericial divulgada que estabeleça definitivamente a dinâmica da ocorrência.

Imagem reprodução

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