DE VOLTA PARA CASA NO DIA DO ANIVERSÁRIO: FAMÍLIA FEZ VAQUINHA E EMPRÉSTIMOS PARA TRAZER MARY HELLEN DA TAILÂNDIA
Depois de mais de quatro anos longe de casa, de uma prisão por tráfico internacional de drogas, sucessivos perdões reais, perdas familiares e meses de incerteza sobre quando conseguiria retornar ao Brasil, Mary Hellen Coelho Silva viveu um momento marcante no dia 5 de setembro de 2026: voltou ao país justamente na data em que completou 26 anos. Para que esse retorno fosse possível, familiares de Pouso Alegre, no Sul de Minas, precisaram se mobilizar, organizar uma vaquinha e até fazer empréstimos para reunir aproximadamente R$ 6 mil e pagar a passagem aérea.
Mary Hellen havia sido presa em fevereiro de 2022, no aeroporto de Bangkok, na Tailândia, depois que autoridades encontraram cocaína escondida em compartimentos de malas. Na época, ela tinha 21 anos. O caso ganhou grande repercussão no Brasil por causa da rigidez das leis tailandesas relacionadas ao tráfico de drogas e pelo risco de penas extremamente severas para esse tipo de crime.
Em maio de 2022, Mary Hellen foi condenada pela Justiça tailandesa a 9 anos e 6 meses de prisão. Ao longo dos anos seguintes, porém, ela foi beneficiada por sucessivos perdões reais coletivos concedidos pelas autoridades do país. Segundo a defesa, o comportamento apresentado por ela durante o período de encarceramento foi fundamental para que conseguisse se enquadrar nos critérios adotados para a concessão dos benefícios.
A advogada Kaelly Cavoli Moreira afirmou que Mary Hellen manteve comportamento considerado excelente dentro da unidade prisional, participando das atividades oferecidas e cumprindo as regras impostas. A defesa também tentou outras alternativas ao longo do período, incluindo um pedido de perdão real individual.
Mesmo depois de deixar a prisão, no entanto, o retorno ao Brasil ainda estava longe de ser automático. Mary Hellen precisou passar por um centro de detenção ligado à imigração e permaneceu aguardando a definição dos procedimentos necessários para conseguir embarcar. Nesse período, a família enfrentou uma nova dificuldade: conseguir dinheiro suficiente para comprar a passagem.
Segundo a defesa, havia exigências específicas relacionadas à companhia aérea e à data em que a brasileira poderia viajar. A situação aumentou a pressão sobre os familiares, que já aguardavam havia anos pelo retorno de Mary Hellen e precisavam resolver rapidamente a questão financeira.
A família chegou a tentar uma alternativa para que o custo da viagem fosse assumido pelo poder público. Segundo a advogada, houve tentativa de buscar orientação e viabilizar uma possível gratuidade por meio da Defensoria Pública da União, mas o procedimento não avançou a tempo.
Sem uma solução concreta e diante da necessidade de comprar a passagem, os familiares decidiram se mobilizar por conta própria. Foi organizada uma vaquinha, parentes contribuíram com o que podiam e alguns chegaram a recorrer a empréstimos. Ao final, foram reunidos cerca de R$ 6 mil para garantir o retorno de Mary Hellen ao Brasil.
O esforço familiar acabou dando resultado. A passagem foi comprada e enviada para atender às exigências necessárias para o embarque. Depois disso, restou aos parentes acompanhar à distância os últimos procedimentos e esperar pela confirmação de que Mary Hellen realmente conseguiria deixar a Tailândia.
A chegada ao Brasil aconteceu em uma data especialmente simbólica. Mary Hellen desembarcou no dia 5 de setembro, justamente quando completava 26 anos. Depois de mais de quatro anos fora do país, o aniversário foi marcado pelo reencontro com a família e pelo início de uma nova etapa.
Segundo as informações divulgadas pela defesa, Mary Hellen chegou ao país sozinha e sem pertences. A cena representou o encerramento de um período que começou ainda em fevereiro de 2022 e que foi marcado por prisão, condenação, dificuldades de comunicação e perdas pessoais.
Durante o período em que esteve presa, Mary Hellen perdeu a mãe, Thelma Coelho, que morreu em abril de 2024, em Pouso Alegre, enquanto enfrentava um câncer. A brasileira também perdeu o avô durante o encarceramento. Em razão da distância e das regras do sistema prisional tailandês, ela não pôde participar das despedidas.
Antes da viagem que terminou em sua prisão, Mary Hellen morava com a mãe e os irmãos em Pouso Alegre. Ela trabalhava com carteira assinada em uma churrascaria e também complementava a renda com outras atividades. Pouco antes da viagem ao exterior, havia deixado o emprego.
A prisão ocorreu em 14 de fevereiro de 2022, no aeroporto de Bangkok, quando Mary Hellen e outro brasileiro foram detidos. Segundo as informações divulgadas na época, os dois transportavam aproximadamente 9 quilos de cocaína escondidos em compartimentos de três malas. Um terceiro brasileiro foi preso horas depois com outra quantidade da droga.
A sentença foi determinada pela Justiça tailandesa poucos meses depois. Mary Hellen recebeu pena de 9 anos e 6 meses de prisão. O caso chamou atenção no Brasil pela possibilidade de penas muito mais severas previstas pela legislação da Tailândia em determinadas situações envolvendo tráfico de drogas.
Ao longo do encarceramento, Mary Hellen também passou a estudar idiomas. Segundo a defesa, ela aprendeu inglês e tailandês, conhecimento que agora pode contribuir para sua reorganização profissional no Brasil.
Depois do retorno, Mary Hellen começou a reconstruir a rotina. Segundo a advogada, ela já está trabalhando e ainda passa por um processo de adaptação depois de ficar aproximadamente quatro anos e meio fora do país. A expectativa é de que também possa retomar os estudos e utilizar o conhecimento adquirido nos dois idiomas como um diferencial profissional.
O Ministério das Relações Exteriores informou que acompanhou o caso por meio da Embaixada do Brasil em Bangkok desde 2022. De acordo com o Itamaraty, a assistência prestada incluiu visitas consulares, pequenos auxílios materiais quando necessários e contato com autoridades prisionais tailandesas.
A atuação consular, no entanto, possui limites estabelecidos pela legislação internacional e pelas normas do país onde o brasileiro está detido. O Ministério também informou que não divulga detalhes pessoais de cidadãos atendidos pelos serviços consulares.
Depois de anos de espera, a volta de Mary Hellen terminou acontecendo em uma data que dificilmente será esquecida pela família. O dia em que completou 26 anos também marcou o fim de mais de quatro anos de distância e o começo de uma nova etapa em Pouso Alegre.
A brasileira foi procurada para falar sobre o retorno e sobre o período em que esteve presa, mas preferiu não conceder entrevista neste momento. Segundo a defesa, a prioridade agora é a reorganização da vida pessoal, profissional e familiar.


