Sexta-feira, Setembro 25, 2026
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SEM OS BRAÇOS, JOVEM APRENDE A DIRIGIR COM OS PÉS, CONQUISTA CNH E CHORA DE EMOÇÃO


Quando recebeu o papel com a palavra “aprovado”, Reiner Jesus Martins não conseguiu segurar as lágrimas. Aos 20 anos, o estudante de Agronomia realizou um sonho que, durante muito tempo, pareceu distante: conquistou a Carteira Nacional de Habilitação depois de aprender a dirigir utilizando os pés.

Reiner nasceu sem os dois braços e desenvolveu, desde a infância, maneiras próprias de escrever, comer, escovar os dentes, vestir-se e realizar diferentes tarefas do cotidiano. Agora, ele também pode dirigir legalmente e avança mais um passo na construção de sua independência.

Morador de Lavras, no Sul de Minas, o jovem precisou viajar até Pará de Minas para encontrar uma autoescola com um veículo adaptado às condições estabelecidas pelo Departamento Estadual de Trânsito.

O processo para conseguir a habilitação começou em 2025. Por ser uma pessoa com deficiência, Reiner passou pela avaliação de uma junta médica, responsável por definir quais adaptações seriam necessárias para que ele pudesse conduzir um automóvel com segurança.

A maior dificuldade surgiu depois da avaliação: encontrar um veículo compatível com as exigências do laudo. Após procurar uma autoescola preparada para atendê-lo, Reiner encontrou em Pará de Minas a estrutura necessária para realizar as aulas e o exame prático.

Antes de entrar no carro pela primeira vez, o estudante tinha medo de não conseguir executar os movimentos necessários. A insegurança, porém, começou a desaparecer assim que a primeira aula teve início.

“Na hora que eu comecei, que foi a primeira aula, eu já fiquei numa alegria imensa de estar nesse processo”, contou.

As adaptações permitiram que Reiner utilizasse os pés para controlar o veículo. A cada aula, ele ganhou confiança, aprimorou os movimentos e percebeu que o sonho de conquistar a habilitação estava cada vez mais próximo.

A aprovação veio no dia 5 de agosto. Depois de concluir o exame, Reiner recebeu o resultado que esperava e se emocionou diante de mais uma conquista alcançada por meio da persistência.

“Logo depois que acabou o exame, que eu recebi o papelzinho escrito ‘aprovado’, eu até chorei de emoção”, lembrou.

A história de autonomia de Reiner começou muito antes da CNH. Natural de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ele nasceu após a mãe descobrir ainda durante a gravidez que o filho não teria os dois braços.

Desde os primeiros meses de vida, Reiner passou por terapias e acompanhamentos voltados ao desenvolvimento da independência. Ele recebeu atendimento em instituições como a Associação de Assistência à Criança Deficiente e em unidades da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.

Também participou de sessões de terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia. O objetivo não era estabelecer uma única maneira de executar as tarefas, mas ajudá-lo a descobrir os movimentos mais adequados para sua realidade.

“A terapia é muito baseada na questão de te dar a forma para você encontrar a maneira de fazer as coisas”, explicou.

Dentro de casa, o incentivo da mãe teve papel fundamental. Reiner aprendeu a usar principalmente os pés para desempenhar atividades que outras pessoas fazem com as mãos. Em determinadas situações, também utiliza a boca, o queixo e o tronco.

“Hoje, para mim, meus pés são como as mãos”, resumiu.

A ligação com veículos adaptados também começou durante a infância. Um dos padrinhos construiu uma bicicleta especialmente para o menino. O modelo não tinha guidão convencional e permitia que Reiner conduzisse a bicicleta utilizando o tronco. O veículo continua guardado pela família como lembrança de uma das primeiras experiências de liberdade.

Ao longo da infância e da adolescência, a família procurou garantir que Reiner participasse das atividades escolares e tivesse convivência com outras crianças. O caminho, entretanto, também foi marcado pelo preconceito e pelo desconhecimento de pessoas que não sabiam como se relacionar com alguém com deficiência.

Quando era criança, Reiner chegou a ser chamado de “sem braço”. Em uma dessas situações, um menino fez a pergunta pela janela de um ônibus. Incentivado pela mãe a responder, ele transformou o momento desconfortável em uma apresentação.

“Eu falei assim: ‘Olha, tudo bem, eu sou sem braço, sim, mas meu nome é Reiner. E o seu? Você quer ser meu amigo?’”, recordou.

As experiências ajudaram o jovem a enfrentar olhares, perguntas e atitudes preconceituosas. Ainda hoje, ele afirma conviver com situações de capacitismo, principalmente quando algumas pessoas duvidam de sua capacidade de estudar, morar sozinho ou realizar tarefas sem ajuda.

“Eu provo para mim mesmo que eu consigo e, depois, eu vou e provo para as outras pessoas”, afirmou.

Reiner também fala com sinceridade sobre os momentos difíceis. Ele reconhece que existem situações em que gostaria de ter os braços e viver algumas experiências sem precisar buscar adaptações. A forma encontrada para lidar com esses sentimentos foi valorizar suas capacidades, a vida que construiu e o apoio recebido da família.

Atualmente, o jovem mora em Lavras e cursa o segundo período de Agronomia na Universidade Federal de Lavras. O interesse pela área surgiu ainda na infância, acompanhando o pai no trabalho com a produção de leite em uma propriedade rural da família, em São Tiago.

Durante o ensino médio, Reiner fez o curso técnico em Agropecuária no campus de Florestal da Universidade Federal de Viçosa. Mais tarde, ingressou na UFLA, começou Engenharia Agrícola e decidiu mudar para Agronomia.

A escolha também está ligada ao desejo de dar continuidade ao trabalho construído pelo pai no campo.

“Querendo ou não, um dia o meu pai vai faltar. Eu, como filho, não vou jogar o trabalho dele fora, todo o esforço que ele está tendo. É uma coisa que ele sempre gostou de fazer desde novinho e é isso que ele me ensina também”, disse.

Na universidade, Reiner necessita de poucas adaptações. Uma das principais é o uso de cadeiras específicas, que permitem que ele se posicione para escrever durante as aulas sem depender constantemente de outra pessoa.

Nas atividades práticas de campo, algumas tarefas exigem equipamentos ou esforços que não podem ser realizados da mesma forma. Nessas situações, ele acompanha os procedimentos, observa os colegas, faz perguntas e procura compreender todas as etapas para aplicar o conhecimento de outras maneiras.

Além da rotina universitária, Reiner compartilha vídeos nas redes sociais mostrando como estuda, mora sozinho e realiza atividades usando os pés. A iniciativa começou após o incentivo de amigos.

As publicações já alcançaram milhões de visualizações e renderam mensagens de pessoas que dizem ter encontrado motivação em sua história. Para Reiner, porém, a deficiência não deve ser usada para reduzi-lo a alguém incapaz nem para despertar pena.

“Eu continuo sendo o Reiner de sempre, esse menino alto astral que tem as responsabilidades, que quer vencer na vida, estudar, trabalhar, viver uma vida normal”, afirmou.

O estudante defende uma sociedade mais acessível e profissionais mais preparados para atender pessoas com deficiência. Para ele, o processo de habilitação ainda precisa oferecer informações mais claras, atendimento adequado e maior quantidade de veículos adaptados.

A distância entre Lavras e Pará de Minas evidencia essa dificuldade. Para realizar um direito e conquistar mais autonomia, Reiner precisou procurar em outra cidade a estrutura que não encontrou perto de onde mora.

Apesar dos obstáculos, ele transformou o medo da primeira aula na emoção da aprovação. A CNH não representa apenas a autorização para dirigir, mas a possibilidade de estudar, trabalhar, visitar a família e seguir os próprios caminhos com maior independência.

“Se está na vida, não é para ter pena, não. É para viver realmente, com muita alegria, muita disposição, coragem e vontade”, concluiu Reiner.

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