“VIVER É UM MILAGRE”: PADRE QUE CELEBRA MISSAS DA CAMA SUPERA INTERNAÇÕES E VAI AGRADECER EM APARECIDA
Depois de passar por sucessivas internações, enfrentar infecções graves e permanecer em coma induzido, o padre Márlon Múcio conseguiu realizar um desejo carregado de fé e gratidão. Mesmo convivendo com uma doença rara, progressiva e sem abandonar o respirador, ele saiu de casa nesta quinta-feira (24) para visitar o Santuário Nacional de Aparecida.
A viagem teve um significado especial. Além de levar pedidos de oração recebidos de pessoas que acompanham seu trabalho, Márlon foi aos pés de Nossa Senhora Aparecida agradecer pela própria vida.
“Eu fui levar para Aparecida pedidos de oração de muita gente. Mas, acima de tudo, eu fui agradecer, porque eu estou vivo. Eu sou um milagre vivo e eu viver é um verdadeiro milagre”, afirmou.
A visita aconteceu depois de um período marcado por hospitais, isolamento e incertezas. Segundo o sacerdote, foram dez internações em 2025 e outras quatro em 2026. Somente em março deste ano, ele permaneceu hospitalizado durante 22 dias e precisou ser colocado em coma induzido por causa das complicações de saúde.
Ao receber alta, Márlon nem sempre podia retomar imediatamente a convivência com outras pessoas. Por causa de bactérias multirresistentes e do risco de novas infecções, ele precisava permanecer em isolamento dentro de casa, sem receber visitas.
“Aí eu vinha para casa, sempre tinha que ficar em isolamento, me convalescendo, bactérias multirresistentes. Aí eu não podia sair de casa e não receber ninguém. Aí eu era internado de novo”, contou.
Nas redes sociais, o padre informou que passou por 21 atendimentos e períodos de internação hospitalar ao longo de 2025. Em oito dessas ocasiões, precisou ser levado para uma Unidade de Terapia Intensiva.
Mesmo diante das limitações impostas pela doença, Márlon não deixou de exercer o sacerdócio. Desde março de 2020, ele celebra as missas na própria cama. Atualmente, quase todas as celebrações diárias são realizadas dessa forma.
“Hoje, quase 100% das minhas missas diárias são na cama”, relatou.
As celebrações se tornaram um elo entre o padre e os fiéis que acompanham sua caminhada. Muitas pessoas pedem que as missas sejam transmitidas pela internet para que possam participar, rezar e acompanhar o testemunho de fé do sacerdote.
Em Aparecida, Márlon foi reconhecido por devotos que visitavam o maior santuário mariano do país. Fiéis aproximaram-se para agradecer pelas palavras, pelo exemplo de perseverança e pelas celebrações realizadas mesmo nos momentos de maior fragilidade.
Também houve pedidos para fotos e manifestações de carinho. Para quem acompanha a rotina do padre, vê-lo fora de casa e diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida representou uma vitória depois de tantos meses marcados por internações e isolamento.
Márlon convive com a Deficiência do Transportador de Riboflavina, conhecida pela sigla RTD. Trata-se de uma doença rara, neurodegenerativa e progressiva que compromete o sistema nervoso e provoca novas limitações conforme avança.
O diagnóstico foi confirmado quando ele tinha 45 anos, mas os primeiros sinais apareceram ainda na infância. Márlon perdeu a audição aos 7 anos, muito antes de descobrir a causa relacionada à condição rara.
Atualmente, o sacerdote depende continuamente de um respirador e toma aproximadamente 315 comprimidos por dia. A rotina envolve medicamentos, cuidados permanentes e acompanhamento médico constante.
“A doença é neurodegenerativa e progressiva. Então, a doença segue avançando. Ela vai apresentando sempre uma limitação ou outra, como agora. Eu tenho recorrentes infecções”, explicou.
A quantidade de internações e as infecções recorrentes reduziram ainda mais a possibilidade de o padre sair de casa. Por isso, a ida ao Santuário Nacional não foi apenas um passeio ou uma visita religiosa. Para Márlon, chegar a Aparecida significou celebrar a vida depois de atravessar momentos em que sua própria sobrevivência esteve ameaçada.
A cama, que poderia representar somente a limitação física, transformou-se em altar. É de lá que o sacerdote continua celebrando, rezando por outras pessoas e levando uma mensagem de esperança a quem também enfrenta doenças, perdas e períodos de internação.
A visita ao Santuário também permitiu que Márlon entregasse simbolicamente as intenções que recebe diariamente. Os pedidos de oração levados a Aparecida representavam histórias de pessoas que encontraram nas celebrações transmitidas da cama uma companhia em seus próprios momentos de sofrimento.
Para o padre, a gratidão não está relacionada à ausência da doença. A condição continua avançando, as limitações permanecem e o tratamento faz parte de todos os seus dias. Ainda assim, ele considera cada nova manhã uma oportunidade de seguir sua missão.
Depois de 14 internações contabilizadas entre 2025 e 2026, além de diferentes atendimentos hospitalares e passagens pela UTI, estar diante de Nossa Senhora Aparecida ganhou o sentido de testemunho.
Sem esconder a gravidade da doença e os momentos de angústia, Márlon mostrou que sua fé continua viva. A visita realizada nesta quinta-feira tornou-se uma celebração silenciosa da resistência e da esperança de quem aprendeu a transformar a própria cama em lugar de oração.
Ao voltar os olhos para o período enfrentado nos hospitais, o sacerdote resume sua caminhada com uma frase simples, mas carregada de significado: estar vivo já é o maior motivo para agradecer.


