Segunda-feira, Setembro 21, 2026
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PNEU CARECA, ÔNIBUS DE 1995 E VIAGEM SEM AUTORIZAÇÃO: TRAGÉDIA COM ROMEIROS REVELA SÉRIE DE PROBLEMAS


Um pneu careca, possíveis irregularidades no tacógrafo e a falta de autorização válida para realizar o transporte interestadual estão entre os problemas encontrados após o acidente com um ônibus de romeiros que deixou seis pessoas mortas e outras 42 feridas na Rodovia Doutor Avelino Júnior (SP-52), em Cruzeiro.

O veículo, fabricado em 1995, transportava um grupo que havia saído do distrito do Rosário, em Itumirim, no Sul de Minas, com destino ao Santuário Nacional de Aparecida. O ônibus caiu em uma ribanceira de aproximadamente 15 metros na manhã de domingo (20), depois de sair da pista em um trecho de curva.

As condições do veículo passaram a ocupar o centro da investigação. A Polícia Civil identificou pelo menos um pneu careca e determinou a realização de uma perícia para verificar o sistema de freios, os componentes mecânicos e outros elementos que possam ter contribuído para a perda de controle.

O ônibus tinha cerca de 31 anos de fabricação. A idade do veículo, isoladamente, não comprova falta de segurança, desde que as manutenções e inspeções obrigatórias estejam regulares. No entanto, as condições dos pneus e dos demais componentes serão analisadas pelos peritos.

Marcas de frenagem também foram encontradas na pista. Elas deverão ser examinadas para ajudar a reconstruir os últimos segundos antes da queda e indicar se o motorista tentou reduzir a velocidade ou parar o ônibus antes de deixar a rodovia.

Os investigadores deverão avaliar o tamanho das marcas, o ponto em que começaram e a posição em relação à curva. Esses vestígios, combinados com o estado do veículo e as informações do tacógrafo, poderão ajudar a determinar a velocidade do ônibus no momento do acidente.

Segundo a Polícia Civil, existem suspeitas de que o veículo pudesse estar em velocidade acima da considerada adequada para as características daquele trecho. Ainda não há, porém, uma conclusão pericial que confirme excesso de velocidade.

A defesa do motorista contesta essa possibilidade. O advogado afirma que radares instalados antes do local do acidente foram consultados e não registraram o ônibus trafegando acima do limite permitido.

Passar pelos radares dentro da velocidade máxima, entretanto, não encerra a análise. A investigação tenta esclarecer se a velocidade mantida na curva era compatível com as condições da pista, do veículo e do trecho de serra.

Outro ponto importante envolve o tacógrafo, equipamento responsável por registrar informações como velocidade, distância percorrida e períodos de condução. Possíveis irregularidades identificadas no aparelho também deverão ser avaliadas tecnicamente.

Os registros poderão revelar como o ônibus era conduzido antes da queda. Caso os dados estejam disponíveis e preservados, será possível verificar alterações de velocidade e comparar as informações com as marcas encontradas na pista.

A hipótese de falha nos freios também permanece em investigação. A perícia deverá examinar o sistema para determinar se havia algum defeito anterior ao acidente ou se determinados componentes foram danificados durante a queda.

A defesa de Lamonier Domingos Boteiro Naves, de 38 anos, afirma que o acidente foi provocado por uma falha mecânica. Segundo o advogado, uma marcha teria apresentado problema e o motorista não conseguiu frear o ônibus.

Essa versão ainda depende de comprovação técnica. Os peritos deverão analisar se houve falha no sistema de transmissão, nos freios ou em outro componente capaz de provocar a perda de controle.

Além dos possíveis problemas mecânicos, a viagem apresentava uma pendência relacionada à documentação. Segundo a apuração policial, o ônibus não possuía autorização válida da Agência Nacional de Transportes Terrestres para realizar o transporte interestadual entre Minas Gerais e São Paulo.

O grupo deixou o distrito do Rosário por volta das 22h de sábado (19). O destino final era Aparecida, em uma viagem de aproximadamente 200 quilômetros organizada para levar os romeiros ao Santuário Nacional.

A defesa afirma que o veículo estava regular, tinha permissão para transportar passageiros e atendia às normas da ANTT. A divergência deverá ser esclarecida por meio dos documentos da empresa, dos registros da agência e das autorizações exigidas para o trajeto.

O motorista também seria proprietário da empresa de turismo responsável pelo ônibus. Ele ficou ferido no acidente, foi socorrido e encaminhado para atendimento médico em Lorena.

Após receber atendimento, Lamonier foi submetido ao teste do etilômetro. O resultado não indicou consumo de álcool. Mesmo assim, ele foi preso em flagrante depois que a autoridade policial avaliou os elementos encontrados inicialmente.

O motorista foi autuado por homicídio culposo e lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, com agravante por exercer atividade profissional de transporte de passageiros.

A classificação culposa indica que, neste momento, não há acusação de que o condutor tivesse intenção de provocar as mortes. A investigação busca determinar se houve imprudência, negligência, imperícia ou falha mecânica.

Lamonier foi encaminhado para a cadeia de Cruzeiro. A audiência de custódia deverá analisar apenas a legalidade e a necessidade da prisão, sem decidir definitivamente sobre a responsabilidade pelo acidente.

A queda aconteceu por volta das 5h30, no km 232 da SP-52, próximo à divisa entre São Paulo e Minas Gerais. O ônibus saiu da pista em uma curva, desceu pela ribanceira e parou em meio à vegetação.

Cinco pessoas morreram no local. Uma sexta vítima foi socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. Outras 42 pessoas foram encaminhadas para unidades de saúde de Cruzeiro, Lorena e Guaratinguetá.

Morreram Alice Fátima Alves da Silva, de 14 anos; Sebastião Petronilho, de 74; Jairo Antônio de Paula, de 47; Augusto Antônio de Lima, de 63; Evandro Carlos Garcia, de 46; e Ilza Nazaré Pereira Paulo, de 64 anos.

Ilza era uma das responsáveis pela organização da romaria. O grupo havia deixado o distrito do Rosário poucas horas antes do acidente, levando passageiros unidos pela fé e pelo desejo de visitar o Santuário Nacional.

A adolescente Alice, de apenas 14 anos, era a pessoa mais jovem entre os mortos. Sua identificação e a divulgação de sua fotografia ampliaram a comoção entre familiares, amigos e moradores das cidades de origem dos passageiros.

O resgate mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, Samu, Polícia Militar Rodoviária, Defesa Civil e profissionais de saúde de diferentes municípios. Helicópteros também foram colocados à disposição para atender as vítimas.

O ônibus ficou destruído em uma área de difícil acesso. Socorristas precisaram descer pela vegetação e utilizar equipamentos específicos para retirar passageiros que haviam ficado presos no interior do veículo.

Enquanto os sobreviventes eram encaminhados aos hospitais, familiares buscavam informações nas unidades de saúde. A identificação dos mortos e o levantamento dos feridos se estenderam por várias horas.

Agora, além do trabalho de atendimento às famílias, a investigação tenta estabelecer se a tragédia poderia ter sido evitada. As respostas dependerão principalmente dos laudos sobre pneus, freios, transmissão, tacógrafo e condições gerais do ônibus.

A Polícia Civil também deverá ouvir o motorista, os sobreviventes e outras testemunhas. Os relatos poderão indicar se houve barulhos, dificuldade para reduzir a velocidade ou qualquer sinal de problema mecânico antes da saída de pista.

Por enquanto, alguns pontos estão confirmados: havia um pneu careca, o ônibus era de 1995, marcas de frenagem foram encontradas e a polícia aponta falta de autorização válida para a viagem interestadual.

Outras questões continuam sem resposta. Ainda não foi comprovado se houve falha nos freios, se o veículo estava em velocidade inadequada ou qual fator efetivamente provocou a perda de controle.

A defesa insiste que o acidente teve origem em um defeito mecânico e afirma que o ônibus estava regular. A polícia, por sua vez, aguarda os resultados periciais para confrontar essa versão com os vestígios encontrados.

Enquanto técnicos e investigadores procuram explicar o que aconteceu, seis famílias enfrentam o luto. Uma romaria preparada para terminar diante do Santuário Nacional de Aparecida acabou interrompida em uma ribanceira, deixando mortes, feridos e perguntas que ainda aguardam respostas.

Lamonier Domingos Boteiro Naves, de 38 anos: Foto: Reprodução/TV Vanguarda

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