UMA VIAGEM MARCADA PELA FÉ TERMINOU EM LUTO PARA SEIS FAMÍLIAS
Uma viagem organizada para levar romeiros de Minas Gerais ao Santuário Nacional de Aparecida terminou em uma tragédia que abalou o Vale do Paraíba e o Sul de Minas. Seis pessoas morreram e outras 42 ficaram feridas depois que um ônibus saiu da pista e caiu em uma ribanceira de aproximadamente 15 metros na Rodovia Doutor Avelino Júnior (SP-52), em Cruzeiro.
A Polícia Civil confirmou nesta segunda-feira (21) que todas as pessoas que morreram foram identificadas. São elas: Alice Fátima Alves da Silva, de 14 anos; Sebastião Petronilho, de 74; Jairo Antônio de Paula, de 47; Augusto Antônio de Lima, de 63; Evandro Carlos Garcia, de 46; e Ilza Nazaré Pereira Paulo, coordenadora da romaria que saiu do distrito do Rosário, em Itumirim.
Os passageiros embarcaram levando pedidos, agradecimentos e a expectativa de chegar a um dos maiores centros de peregrinação religiosa do país. O destino era Aparecida, mas a viagem foi interrompida de maneira trágica ainda no trecho de serra entre Minas Gerais e São Paulo.
O acidente aconteceu por volta das 5h30 de domingo (20), no km 232 da SP-52. Segundo o Corpo de Bombeiros, o ônibus saiu da pista em uma curva, desceu pela ribanceira e parou em meio à vegetação. O impacto destruiu parte da estrutura do veículo e deixou passageiros presos nas ferragens.
Cinco pessoas morreram no local. Uma sexta vítima chegou a ser retirada com vida e levada para atendimento médico, mas não resistiu aos ferimentos. Os demais passageiros foram encaminhados para unidades de saúde de Cruzeiro, Lorena e Guaratinguetá.
Entre os mortos está Alice Fátima Alves da Silva, de apenas 14 anos. A adolescente era a pessoa mais jovem no grupo e foi uma das últimas vítimas identificadas. A divulgação de sua fotografia provocou forte comoção e deu um rosto ainda mais doloroso à dimensão da tragédia.
Alice tinha uma vida inteira pela frente. Ela saiu de Minas Gerais para participar de uma viagem marcada pela devoção, mas não conseguiu chegar ao destino. Familiares, amigos e moradores da região publicaram mensagens de despedida e pediram que a adolescente seja lembrada com carinho.
Também morreu Ilza Nazaré Pereira Paulo, responsável pela coordenação da romaria que havia partido do distrito do Rosário, em Itumirim. A idade dela ainda não havia sido divulgada oficialmente até a última atualização.
Ilza ajudava a reunir os participantes, organizar a viagem e manter viva uma tradição religiosa da comunidade. Para os romeiros, ela era mais do que a coordenadora do passeio: era uma das pessoas responsáveis por transformar o desejo de visitar Aparecida em uma jornada coletiva de fé.
Sebastião Petronilho, de 74 anos; Jairo Antônio de Paula, de 47; Augusto Antônio de Lima, de 63; e Evandro Carlos Garcia, de 46, completam a relação de pessoas que morreram. Cada nome representa uma história interrompida, uma família enlutada e uma cadeira vazia no retorno para casa.
Os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico Legal para identificação e exames. A expectativa é que sejam liberados nesta segunda-feira para o transporte até Minas Gerais, onde familiares organizam os velórios e sepultamentos.
A operação de resgate mobilizou equipes de várias cidades. Corpo de Bombeiros, Samu, Polícia Militar Rodoviária, Defesa Civil e profissionais municipais de saúde participaram do atendimento. Helicópteros também foram colocados à disposição para o transporte dos feridos.
O local apresentava dificuldades para o trabalho das equipes devido à profundidade da ribanceira e à posição em que o ônibus ficou. Os socorristas precisaram descer pela vegetação e utilizar equipamentos específicos para retirar passageiros presos no interior do veículo.
Durante horas, familiares buscaram informações por telefone, nas redes sociais e nas unidades hospitalares. A incerteza sobre quem havia sobrevivido e quem estava entre os mortos aumentou a angústia de parentes que aguardavam notícias em Minas Gerais.
Entre os destroços permaneceram malas, roupas, objetos pessoais e artigos religiosos levados pelos passageiros. Cada item encontrado ajudava a revelar o propósito daquela viagem: uma romaria preparada para ser um momento de oração, agradecimento e encontro com Nossa Senhora Aparecida.
O motorista foi identificado como Lammounier Domingos Botelho Naves. Ele também seria proprietário da empresa responsável pelo ônibus. Após o acidente, o condutor foi socorrido e levado para atendimento médico em Lorena.
O teste do etilômetro realizado no motorista apresentou resultado negativo para o consumo de álcool. Após receber atendimento, ele foi preso em flagrante por homicídio culposo na direção de veículo automotor, com agravante relacionado ao exercício profissional do transporte de passageiros.
Lammounier foi encaminhado para a cadeia de Cruzeiro e deve passar por audiência de custódia nesta segunda-feira. A Justiça decidirá se ele continuará preso durante o andamento da investigação ou se poderá responder em liberdade.
De acordo com o delegado Rubens Melo, a decisão pela prisão levou em consideração as condições dos pneus do ônibus, possíveis irregularidades no tacógrafo e a suspeita de que o veículo pudesse estar em velocidade acima da adequada para o trecho.
Esses elementos ainda serão submetidos à perícia e não representam uma conclusão definitiva sobre a causa da tragédia. A investigação deverá analisar as condições mecânicas do ônibus, o sistema de freios, os pneus, o tacógrafo e as características da rodovia.
A defesa do motorista apresentou outra versão. Segundo o advogado, uma falha mecânica teria impedido o condutor de frear, fazendo com que ele perdesse o controle do veículo.
Ainda conforme a defesa, os radares existentes antes do ponto do acidente teriam sido verificados e não registraram excesso de velocidade. A alegação deverá ser confrontada com os laudos periciais, os dados do tacógrafo e os demais elementos reunidos pela polícia.
As autoridades também identificaram problemas relacionados à regularidade do transporte. Segundo as informações divulgadas após o acidente, o ônibus não possuía cadastro válido na Agência Nacional de Transportes Terrestres para realizar a viagem interestadual.
A Polícia Civil deverá ouvir o motorista, sobreviventes e testemunhas. Os depoimentos poderão ajudar a esclarecer como o ônibus se comportou momentos antes de sair da pista e se houve algum sinal de problema mecânico durante a descida da serra.
Enquanto a investigação procura respostas, seis famílias enfrentam a despedida. A viagem que deveria terminar diante do Santuário Nacional de Aparecida acabou interrompida em uma ribanceira, deixando marcas que permanecerão para sempre entre os sobreviventes e nas comunidades de origem dos romeiros.
Alice, Sebastião, Jairo, Augusto, Evandro e Ilza embarcaram unidos pela mesma fé. Não chegaram ao destino planejado, mas suas histórias passaram a mobilizar homenagens, orações e manifestações de solidariedade em toda a região.
Para os parentes, além da saudade, permanece a necessidade de compreender o que aconteceu. A resposta dependerá dos exames periciais e do avanço da investigação. Até lá, familiares e amigos se preparam para dar o último adeus às seis pessoas que partiram em uma viagem de fé e não conseguiram voltar para casa.

Jairo, Alice, Sebastião e Augusto morreram no acidente.

