CERCO AOS MILHÕES: OPERAÇÃO STROZZINO MIRA LAVAGEM, AGIOTAGEM E ELO COM O PCC EM SÃO JOSÉ
O caminho do dinheiro entrou na mira das forças de segurança na manhã desta terça-feira, 18 de agosto, em São José dos Campos. Uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil cumpre cinco mandados de busca e apreensão contra investigados por suspeitas de organização criminosa, lavagem de dinheiro e agiotagem. A ofensiva foi batizada de Operação Strozzino e inclui uma ordem judicial capaz de tornar indisponíveis aproximadamente R$ 5 milhões em bens dos investigados.
A ação reúne integrantes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o GAECO, policiais civis do Núcleo Especializado de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro, o NECCOLD, e equipes do 3º Batalhão de Ações Especiais de Polícia, o BAEP. Os mandados foram expedidos pela Justiça de São José dos Campos e são cumpridos em imóveis ligados aos investigados, incluindo residências e dois endereços comerciais.
O nome escolhido para a operação combina diretamente com uma das linhas centrais da investigação. “Strozzino” é uma palavra italiana utilizada para designar um agiota ou usurário, pessoa que empresta dinheiro cobrando juros abusivos. A Polícia Civil e o Ministério Público investigam justamente a permanência de integrantes do grupo no mercado ilícito por meio da prática de usura.
Mas a investigação vai além dos empréstimos clandestinos. Segundo as informações divulgadas sobre a Operação Strozzino, os investigadores suspeitam que integrantes da organização tenham utilizado atividades aparentemente regulares para movimentar, esconder ou dar aparência lícita a recursos provenientes de atividades criminosas.
Entre os setores que entraram na apuração estão a comercialização de veículos e imóveis. A suspeita é de que negócios formalmente legais possam ter sido utilizados para ocultar a verdadeira origem, propriedade ou destinação de parte do patrimônio investigado.
Outra linha aponta para possível utilização de empresas de fachada e bens ou negócios registrados em nome de terceiros, popularmente conhecidos como “laranjas”. Essas estruturas passam agora pelo escrutínio dos investigadores na tentativa de reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro.
O elo com o crime organizado também aparece como um dos pontos mais relevantes da investigação. Segundo informações atribuídas ao Ministério Público, o homem apontado como líder da organização investigada possui relação com integrantes do Primeiro Comando da Capital, o PCC. Essa relação faz parte da apuração e não significa que todos os alvos da operação sejam integrantes da facção.
O principal investigado não é desconhecido das autoridades. Segundo a apuração divulgada nesta terça-feira, ele já havia sido alvo da Operação Gênesis, realizada em setembro de 2021. Agora, a investigação busca aprofundar principalmente o funcionamento financeiro e patrimonial do grupo.
A ordem de indisponibilidade patrimonial é um dos pontos de maior impacto da Operação Strozzino. A Justiça autorizou medidas que podem atingir cerca de R$ 5 milhões, com o objetivo de impedir que patrimônio relacionado aos investigados seja vendido, transferido ou movimentado enquanto a apuração estiver em andamento.
O bloqueio, no entanto, é uma medida cautelar. Isso significa que o valor de R$ 5 milhões representa o limite da indisponibilidade determinada pela Justiça e não necessariamente dinheiro em espécie encontrado durante a operação. Também não representa condenação antecipada dos investigados, que terão direito de apresentar defesa e comprovar eventual origem lícita dos bens.
A Operação Strozzino reforça uma estratégia que vem sendo adotada em diferentes investigações contra organizações criminosas no Vale do Paraíba: atingir não apenas a execução direta dos crimes, mas principalmente a estrutura financeira utilizada para conservar e movimentar os lucros obtidos ilegalmente.
Esse modelo de investigação já apareceu recentemente em outras operações conduzidas pelo GAECO e pelo NECCOLD em São José dos Campos. Em 29 de julho, por exemplo, a Operação Conúbio mirou suspeitos de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico e determinou bloqueio de veículos, imóveis e valores de até R$ 2,5 milhões. Naquele caso, a investigação envolvia patrimônio relacionado a um condenado da antiga Operação Boate Azul.
Poucos dias depois, em 6 de agosto, outra ofensiva realizada na região cumpriu 24 mandados de busca e apreensão contra uma organização investigada por agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro. Naquela investigação, um homem apontado como líder do grupo teve a prisão preventiva decretada depois que as autoridades afirmaram que ele continuava comandando atividades criminosas mesmo após conseguir o benefício da prisão domiciliar.
A operação desta terça-feira, entretanto, possui investigação própria e recebeu o nome de Strozzino. Os cinco mandados buscam provas capazes de aprofundar as suspeitas envolvendo agiotagem, movimentações patrimoniais e possível lavagem de recursos por meio de atividades comerciais.
Documentos, aparelhos eletrônicos, registros empresariais, contratos e outros materiais eventualmente encontrados durante as diligências poderão ser analisados pelos investigadores para reconstruir movimentações financeiras, identificar responsáveis e verificar a existência de novos participantes.
Até o início da manhã desta terça-feira, ainda não havia sido divulgado um balanço definitivo das buscas. Também não tinham sido oficialmente informadas prisões, valores efetivamente bloqueados, dinheiro apreendido ou a relação completa de materiais recolhidos nos endereços.
A identidade dos investigados também não havia sido tornada pública. As informações disponíveis apontam que um dos principais alvos possui ligação investigada com integrantes do PCC e que o grupo seria suspeito de continuar obtendo recursos por meio de agiotagem ao mesmo tempo em que utilizaria negócios lícitos para movimentar patrimônio.
Com os cinco mandados nas ruas e até R$ 5 milhões sob possibilidade de bloqueio, a Operação Strozzino abre uma nova frente de investigação sobre o dinheiro do crime organizado em São José dos Campos. O material recolhido nesta terça-feira deverá agora ser analisado pelo GAECO e pelo NECCOLD e poderá resultar em novos pedidos judiciais conforme o avanço das apurações.

Foto: Rauston Naves/TV TH+ SBT Vale
