Sábado, Outubro 31, 2026
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PRESENTE DE GRATIDÃO VIROU RELÍQUIA: FAMÍLIA GUARDA HÁ 117 ANOS GRAVURA DE NOSSA SENHORA APARECIDA COM MARCAS DO SÉCULO XIX


Uma simples demonstração de gratidão, feita por uma mulher acolhida em uma fazenda do interior paulista, deu origem a uma história que atravessou gerações e permanece viva há 117 anos. Em São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, uma família preserva desde 1909 uma antiga gravura de Nossa Senhora Aparecida, cuja origem apresenta características históricas que remontam ao século XIX. A peça, atualmente sob os cuidados de Renata Obata, passou pelas mãos de seus bisavós, avós e pais, resistiu à passagem do tempo e até a danos provocados pela água. Além do significado religioso, a imagem reúne elementos que ajudam a compreender como a devoção à Padroeira do Brasil era representada e difundida antes do início do século XX.

A história da gravura começou em 1909, na região da Fazenda Laranjeiras, em São Luiz do Paraitinga. Segundo os relatos preservados pela família, uma senhora chamada Faustina passava pela região quando recebeu acolhimento da bisavó de Renata. A mulher recebeu alimentação e um lugar para passar a noite. Como forma de agradecimento pela hospitalidade, Faustina entregou ao bisavô de Renata uma gravura enrolada, semelhante a um pergaminho. O presente foi guardado pela família e, com o passar dos anos, tornou-se um dos objetos mais importantes de sua tradição religiosa. O nome de Faustina ainda pode ser encontrado no verso da peça, embora não existam informações sobre como ela havia adquirido a imagem antes de presenteá-la.

A gravura passou a integrar definitivamente a história familiar em 1923, quando Cipião, avô de Renata, se casou com Luísa. Na ocasião, o casal recebeu a imagem como presente de casamento, iniciando uma nova etapa de sua preservação. Durante aproximadamente cinco décadas, o quadro permaneceu na residência dos avós, onde ocupava um lugar importante nas manifestações de fé da família. Renata recorda que a avó costumava reunir os filhos diante da imagem para contar a história de Nossa Senhora Aparecida e realizar orações, mantendo uma tradição que seria transmitida às gerações seguintes.

Em 1973, a gravura passou por outro momento importante. O pai de Renata percebeu que a moldura estava danificada e decidiu providenciar sua recuperação. Depois de realizar o trabalho, tentou devolver o quadro ao pai, mas Cipião preferiu que o filho permanecesse com a imagem. A decisão representou uma nova transferência da relíquia dentro da família, repetindo o gesto de confiança e cuidado que acompanhava a peça desde sua chegada à propriedade rural. A partir daquele momento, o quadro passou a fazer parte da residência dos pais de Renata.

A possibilidade de que a imagem tivesse importância histórica começou a ganhar força em 1986. Naquele ano, a mãe de Renata encontrou uma reportagem publicada em um jornal do Santuário Nacional de Aparecida que apresentava uma gravura idêntica àquela preservada pela família. A publicação trazia informações relacionadas à antiguidade e à produção da imagem, despertando maior interesse pela origem da peça. A descoberta indicou que o quadro poderia representar não apenas uma herança religiosa, mas também um registro de um período importante da história da devoção à Padroeira do Brasil.

Em 2010, a preservação da gravura enfrentou um novo desafio. Durante uma reforma realizada na residência da família, o quadro acabou sendo atingido pela água, situação que exigiu cuidados para evitar maiores danos. Renata procurou uma maneira de proteger a imagem e providenciou uma nova moldura. Diante da dedicação demonstrada pela filha, sua mãe decidiu entregar-lhe definitivamente a peça, repetindo um gesto semelhante ao realizado por Cipião em 1973. Assim, a gravura passou para mais uma geração, mantendo a tradição de ser transmitida entre familiares responsáveis por sua conservação.

A importância histórica da imagem foi analisada pela historiadora e pesquisadora Tereza Pasin, especialista na história de Nossa Senhora Aparecida e autora de publicações lançadas pela editora do Santuário Nacional. Segundo a pesquisadora, a gravura apresenta elementos que ajudam a identificar a época das representações utilizadas em sua composição. Entre eles estão a imagem da Padroeira, a representação da Basílica Histórica de Aparecida e a inscrição “Verdadeiro Retrato de Nossa Senhora da Conceição Aparecida”, expressão encontrada em antigas reproduções religiosas.

Um dos detalhes mais relevantes está na representação da própria imagem de Nossa Senhora Aparecida. De acordo com Tereza Pasin, a gravura provavelmente foi baseada em uma fotografia realizada em 24 de dezembro de 1869 pelos fotógrafos franceses Louis Robin e Valentin Favreau. Naquela ocasião, os profissionais receberam autorização para fotografar a imagem original da santa, produzindo o que é considerado o primeiro registro fotográfico conhecido da Padroeira do Brasil. A fotografia tornou-se uma referência importante para a reprodução de imagens religiosas e pode ter servido como modelo para a gravura preservada pela família de Renata.

Outro elemento que contribui para a análise histórica é a representação da Basílica Histórica de Aparecida. A imagem apresenta características do antigo largo da igreja anteriores às modificações realizadas em 1904, ano da coroação de Nossa Senhora Aparecida. Naquele período, a praça possuía um chafariz, posteriormente substituído por um monumento dedicado à Imaculada Conceição. A presença dessa configuração antiga na gravura ajuda a situar historicamente a imagem utilizada na composição, embora não determine, por si só, a data exata em que o exemplar da família foi produzido.

A identificação da gráfica francesa L. Turgis & Fils, localizada em Paris, também representa um indício importante sobre a origem da peça. A empresa atuava na produção de gravuras e imagens religiosas durante o século XIX, período em que esse tipo de material circulava entre diferentes países. A Biblioteca Nacional da França mantém em seu acervo um catálogo da editora publicado em 1893, confirmando sua atividade naquele período. A presença da identificação da gráfica na gravura da família Obata estabelece uma ligação com essa tradição de impressão religiosa, mas ainda não permite afirmar com precisão o ano de fabricação do exemplar.

Registros históricos de outras gravuras de Nossa Senhora Aparecida também ajudam a compreender o contexto em que essas peças circularam. Há exemplares semelhantes atribuídos ao período próximo de 1900, incluindo representações da Padroeira acompanhadas de elementos arquitetônicos e religiosos associados à antiga Aparecida. Essas referências demonstram que a produção e a circulação de imagens impressas faziam parte da divulgação da devoção à santa antes da construção do atual Santuário Nacional. Entretanto, a semelhança entre diferentes gravuras não comprova que tenham sido produzidas na mesma data ou a partir de uma única matriz de impressão.

Para Renata Obata, o significado do quadro ultrapassa qualquer possibilidade de reconhecimento histórico ou valor comercial. A peça está diretamente ligada às lembranças de seus familiares e aos momentos de oração vividos dentro de casa. Em entrevista ao g1, ela recordou as ocasiões em que via a mãe rezando diante da imagem e o pai fazendo o sinal da cruz ao passar pelo corredor onde o quadro estava colocado. São recordações que ajudam a explicar por que a gravura continuou sendo preservada mesmo após tantas mudanças de residência, gerações e responsáveis por sua conservação.

A história da imagem também mantém viva a lembrança de Faustina, a mulher que, em 1909, recebeu alimentação e abrigo de uma família que vivia na região da Fazenda Laranjeiras. O presente entregue como agradecimento permaneceu na casa dos descendentes e atravessou acontecimentos familiares importantes, como o casamento de Cipião e Luísa, a recuperação da moldura em 1973, a descoberta de referências históricas em 1986 e os cuidados realizados após o contato com a água em 2010.

Atualmente, a gravura permanece sob a responsabilidade de Renata, que representa mais uma geração dedicada à preservação do presente recebido por seus antepassados. Embora não exista uma datação técnica definitiva sobre sua fabricação, os elementos identificados pela historiadora Tereza Pasin apontam para referências iconográficas anteriores ao início do século XX. A peça conserva a inscrição histórica relacionada a Nossa Senhora Aparecida, a identificação da gráfica francesa e o nome de Faustina no verso, reunindo registros de sua origem religiosa e de sua trajetória familiar.

Relíquia centenária de Nossa Senhora Aparecida é preservada há 117 anos por família no interior de SP — Foto: Arquivo pessoal

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