Sexta-feira, Outubro 30, 2026
Cidades

IDOSOS COM FERIDAS ABERTAS, CAMAS MOLHADAS DE URINA E DENÚNCIAS DE ABANDONO: POLÍCIA INVESTIGA ASILO COM 39 MORADORES EM POÇOS DE CALDAS


Imagens de idosos com feridas abertas, camas molhadas, quartos com fezes e urina no chão e relatos de moradores que chegavam a pedir pela própria morte diante da falta de cuidados. Esse é o cenário descrito em denúncias que levaram a Polícia Civil a investigar possíveis casos de maus-tratos e negligência na Vila Vicentina Elvira Dias, instituição que abriga 39 idosos em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. A situação ganhou repercussão nesta sexta-feira (30), após a divulgação de fotografias, vídeos e depoimentos que apontam possíveis irregularidades na higiene, alimentação, administração de medicamentos e atendimento de saúde dos residentes. Documentos oficiais também revelam que a Prefeitura já havia realizado uma vistoria e estabelecido providências para a instituição em setembro, enquanto vereadores solicitavam esclarecimentos sobre as condições de atendimento desde abril. A entidade afirma que está passando por uma reorganização administrativa e que apura as denúncias.

A Vila Vicentina Elvira Dias é administrada pela Sociedade São Vicente de Paulo e mantém parceria com a Prefeitura de Poços de Caldas para o acolhimento de pessoas idosas. Atualmente, 39 moradores vivem na instituição, que passou a ser alvo de denúncias encaminhadas ao Conselho Municipal do Idoso, à Secretaria Municipal de Assistência Social e à Polícia Civil. Os relatos apresentados às autoridades descrevem situações que, caso sejam comprovadas, podem representar graves violações aos direitos dos residentes, especialmente daqueles que dependem de ajuda permanente para realizar atividades básicas, como tomar banho, alimentar-se, receber medicamentos e cuidar da própria higiene.

Entre os materiais divulgados estão imagens que mostram idosos com feridas abertas, roupas de cama molhadas e quartos em condições consideradas precárias. Algumas fotografias apresentam o que seriam fezes e poças de urina no chão, enquanto outros registros mostram situações relacionadas à alimentação oferecida aos moradores. Segundo os denunciantes, parte das imagens foi produzida há alguns meses, enquanto outras são recentes. A Polícia Civil deverá considerar esses registros na investigação, incluindo a identificação das circunstâncias em que foram produzidos e das condições de atendimento aos residentes.

Uma das testemunhas apresentou um relato sobre a situação encontrada dentro da instituição. Segundo ela, havia idosos que choravam e demonstravam sofrimento diante da demora ou da ausência de cuidados. A denunciante afirmou ter presenciado situações em que moradores precisavam de curativos, mas não recebiam o atendimento esperado. Também relatou casos de pessoas acamadas que necessitavam de auxílio para se alimentar e que, conforme sua versão, não recebiam a assistência adequada durante as refeições.

A testemunha descreveu ainda a situação de uma idosa que teria permanecido mais de um mês sem tomar banho. Segundo seu relato, embora a moradora apresentasse resistência à higiene pessoal, não estariam sendo adotadas estratégias adequadas para garantir os cuidados necessários. A denunciante também mencionou quartos com fraldas descartadas, restos de alimentação e odores intensos. Essas situações são apresentadas como denúncias e ainda dependem da avaliação das autoridades responsáveis pela investigação.

Outro depoimento de destaque foi apresentado pela psicóloga Kelly Carvalho, que afirmou ter começado a trabalhar na Vila Vicentina em junho deste ano. Segundo a profissional, poucos dias depois de iniciar suas atividades, identificou situações que considerou preocupantes e elaborou um relatório para comunicar os problemas à coordenação. Entre as irregularidades apontadas estavam dificuldades no atendimento de urgência, consultas médicas perdidas sem justificativas consideradas adequadas e condições precárias de higiene dos ambientes e dos próprios idosos.

Kelly também relatou problemas relacionados à higiene bucal e ao acompanhamento de moradores que necessitavam de cuidados contínuos. Segundo ela, algumas demandas de saúde não recebiam os encaminhamentos necessários, enquanto pessoas acolhidas na instituição apresentavam dificuldades para conseguir atendimento. A psicóloga afirmou que decidiu levar as denúncias a outros órgãos depois de considerar insuficientes as providências adotadas diante dos problemas que havia identificado.

As suspeitas também envolvem a administração de medicamentos, um dos pontos mais sensíveis no cuidado de pessoas idosas. Conforme o relato da psicóloga, havia situações em que medicamentos eram administrados em quantidades diferentes das prescritas ou não estavam disponíveis. Segundo ela, alguns moradores tinham consciência dos remédios utilizados e percebiam possíveis irregularidades no tratamento. A investigação deverá esclarecer se ocorreram falhas na administração dos medicamentos, quais residentes podem ter sido afetados e se houve consequências para a saúde dessas pessoas.

A repercussão das denúncias trouxe à tona documentos que demonstram que os problemas relacionados à instituição já haviam motivado questionamentos oficiais antes da reportagem desta sexta-feira. Em 28 de abril de 2026, o vereador Tiago Barbosa Mafra apresentou o Requerimento nº 1695/2026 na Câmara Municipal de Poços de Caldas, solicitando esclarecimentos sobre denúncias de maus-tratos, possíveis irregularidades assistenciais e a fiscalização da Vila Vicentina Elvira Dias. A apresentação do requerimento comprova a existência de questionamentos naquele período, mas não significa que todas as situações denunciadas tenham sido confirmadas.

Posteriormente, em 9 de setembro, o vereador Kleber Gonçalves da Silva apresentou o Requerimento nº 3351/2026, relacionado a uma manifestação encaminhada pela Ouvidoria do Povo sobre suposta conduta inadequada na instituição. O pedido de informações foi respondido pela Secretaria Municipal de Governo em outubro, demonstrando que a situação já havia chegado formalmente ao Legislativo e à administração municipal.

Um dos documentos mais importantes encontrados durante a apuração é o Ofício nº 1476/2026, da Secretaria Municipal de Assistência Social, datado de 28 de setembro e assinado pela secretária Marcela Brito de Carvalho Messias. O documento informa que a Prefeitura realizou uma vistoria presencial na instituição, com participação de profissionais das áreas de Serviço Social, Psicologia e Enfermagem, além de representantes da proteção social especial. A Secretaria também registrou que o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) e a Polícia Civil haviam realizado vistorias, enquanto uma fiscalização da Vigilância Sanitária estava prevista.

No mesmo documento, a administração municipal informou que seriam exigidas providências para adequar as condições de atendimento. A instituição deveria apresentar um plano de contingência e adequação no prazo de sete dias corridos após a notificação e comprovar a implementação das medidas no período de 30 dias. Entre os pontos relacionados às exigências estavam atendimento médico, controle de medicamentos, alimentação, higiene, limpeza dos ambientes, registros dos residentes e prevenção de maus-tratos.

A existência dessas determinações mostra que a Prefeitura já acompanhava a situação antes da divulgação das imagens que ganharam repercussão nesta sexta-feira. Entretanto, até as informações disponíveis, não havia confirmação pública de que o plano de adequação tenha sido efetivamente apresentado, de que todas as medidas exigidas tenham sido concluídas ou de que os prazos tenham sido descumpridos. Esses detalhes dependerão da análise dos documentos administrativos e das informações que venham a ser divulgadas pelos órgãos responsáveis.

A secretária municipal de Assistência Social, Marcela Carvalho, confirmou à EPTV o recebimento das denúncias e a realização de vistorias na instituição. Segundo ela, será elaborado um relatório com as informações apuradas, que deverá ser encaminhado ao Ministério Público. A administração municipal também avalia as providências que poderão ser adotadas de acordo com os resultados da fiscalização, incluindo a exigência de compromissos formais para corrigir eventuais irregularidades ou até mesmo o encerramento da parceria mantida com a entidade.

A secretária destacou que o acompanhamento dos moradores permanece como prioridade da administração municipal. Segundo as informações divulgadas, o setor de alta complexidade da Assistência Social realiza monitoramento das instituições conveniadas, incluindo visitas presenciais para verificar as condições de atendimento. A continuidade da parceria com a Vila Vicentina dependerá da avaliação das autoridades e do cumprimento das exigências legais e administrativas aplicáveis.

A Polícia Civil também investiga as denúncias de possíveis maus-tratos e negligência. Entre os pontos que deverão ser esclarecidos estão as condições de saúde dos residentes, a regularidade dos cuidados prestados, os procedimentos de administração de medicamentos e a eventual responsabilidade de pessoas encarregadas da assistência. Até a última atualização, não havia informação sobre prisões, indiciamentos ou conclusão do inquérito. Também não foi apresentada comprovação de que mortes mencionadas por testemunhas tenham sido provocadas por negligência dentro da instituição.

Procurada para se manifestar, a Vila Vicentina Elvira Dias informou que atravessa um período de transição e reorganização de sua gestão. Em nota, a entidade afirmou que recebe as denúncias com seriedade e que está realizando levantamentos para esclarecer as situações relatadas, com apoio da Sociedade São Vicente de Paulo. A instituição declarou ainda que foram feitas orientações relacionadas à segurança dos moradores, aos cuidados assistenciais, à alimentação, à higiene e à organização dos procedimentos internos.

A entidade também informou que planeja ações de treinamento e qualificação dos profissionais e que está colaborando com os órgãos públicos responsáveis pela fiscalização. A manifestação representa a posição oficial da instituição diante das denúncias, enquanto a comprovação das irregularidades e a eventual responsabilização dependerão do resultado das investigações e dos procedimentos administrativos.

A situação da Vila Vicentina Elvira Dias envolve a aplicação das garantias previstas no Estatuto da Pessoa Idosa, que assegura proteção contra negligência, discriminação, violência, crueldade e opressão. Instituições de longa permanência devem manter condições adequadas de alimentação, higiene, segurança, saúde e assistência, respeitando as necessidades individuais dos residentes. A legislação também estabelece responsabilidades para os encarregados do atendimento e prevê a atuação dos órgãos de fiscalização quando surgem suspeitas de violação de direitos.

Com 39 idosos acolhidos, a Vila Vicentina Elvira Dias permanece sob acompanhamento das autoridades municipais e investigação da Polícia Civil. As denúncias sobre as condições de higiene, alimentação, medicamentos e atendimento de saúde serão analisadas juntamente com os relatórios das vistorias e os documentos reunidos pelos órgãos responsáveis. Até a última atualização, não havia confirmação de interdição da instituição ou rompimento do convênio com a Prefeitura de Poços de Caldas.

Foto: Reprodução EPTV

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