APÓS MORTE DE LÍVIA, IRMÃ QUESTIONA DISCURSO DE DEPUTADA SOBRE FEMINICÍDIO
A morte de Lívia Berthoud, de 23 anos, voltou ao centro do debate sobre violência contra a mulher após Laura Berthoud, irmã da jovem, publicar uma série de manifestações críticas nas redes sociais contra posicionamentos da deputada estadual eleita Eduarda Campopiano sobre feminicídio e misoginia.
Lívia foi morta a tiros em agosto, em Pindamonhangaba, e o caso é investigado como feminicídio. Antes do crime, ela havia registrado ocorrência de violência doméstica contra o ex-namorado Carlos Eduardo Barbosa Vieira Leite, de 25 anos, e obtido uma medida protetiva de urgência que determinava distância mínima de 100 metros.
As manifestações de Laura surgiram após a repercussão de declarações de Campopiano, que já afirmou não considerar o feminicídio uma categoria criminal específica e também se posicionou contra a criminalização da misoginia. A deputada eleita se apresenta publicamente como crítica do feminismo e foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo nas eleições de 2026, com mais de 1,9 milhão de votos.
Laura afirmou que recordar a irmã e se posicionar diante da violência contra as mulheres também possuem dimensão política. Em uma das publicações, escreveu que não seria possível demonstrar solidariedade à história de Lívia e, ao mesmo tempo, apoiar discursos que, na avaliação dela, negam ou minimizam a violência de gênero.
“Lembrar também é um ato político. Se posicionar também é. Não adianta se sensibilizar com a história da Lívia e, ao mesmo tempo, escolher apoiar quem nega a existência do feminicídio ou contribui para disseminar discursos de ódio contra as mulheres”, escreveu.
Em outra manifestação, Laura criticou o uso da morte da irmã apenas como homenagem, sem que haja, segundo ela, compromisso com políticas de prevenção e proteção às mulheres.
“Não podemos transformar a dor em homenagem enquanto, nas urnas, legitimamos discursos que invisibilizam a violência que mata mulheres. Por Lívia, por todas nós e por justiça”, afirmou.
O feminicídio é previsto na legislação brasileira e se refere ao assassinato de mulher por razões relacionadas à condição do sexo feminino, especialmente em contextos de violência doméstica e familiar ou de menosprezo e discriminação contra mulheres.
Para a irmã de Lívia, o caso representa justamente a necessidade de discutir mecanismos de proteção. Antes de morrer, a estudante de Direito já havia recorrido ao sistema de Justiça e conseguido uma medida protetiva contra o ex-namorado.
Na manhã de 10 de agosto, Lívia saiu de casa para ir à academia e foi abordada nas proximidades de sua residência, no Jardim Campo Alegre, em Pindamonhangaba. Imagens de câmeras de segurança registraram parte da perseguição. A jovem aparece correndo pela rua e tentando pedir ajuda antes de ser alcançada e baleada.
O ex-namorado foi localizado posteriormente pela Polícia Militar em um apartamento no bairro Bela Vista. Segundo o boletim de ocorrência, ele também estava ferido após supostamente ter efetuado um disparo contra si próprio. No local, os policiais apreenderam um revólver calibre .38.
Carlos Eduardo teve a prisão em flagrante convertida em preventiva pela Justiça e posteriormente foi transferido para uma unidade hospitalar do sistema penitenciário. O processo segue em andamento, e ainda não há condenação definitiva.
Nas redes sociais, Laura também compartilhou textos de outras mulheres e profissionais da área do Direito que relacionam o caso de Lívia ao debate sobre violência psicológica, misoginia, medidas protetivas e feminicídio.
“Falar sobre violência contra a mulher não é ‘politizar uma tragédia’. Não é exagero. Não é caça às bruxas. É falar sobre prevenção. Sobre proteção. Sobre responsabilização”, escreveu Laura em outra publicação.
A irmã de Lívia também chamou atenção para o fato de que comportamentos violentos nem sempre são facilmente percebidos por pessoas próximas ao agressor.
“Nem sempre o homem que representa perigo para uma mulher parece perigoso para o mundo”, publicou.
A família de Lívia afirma que continuará acompanhando o processo e cobrando Justiça. Para Laura, manter a memória da irmã também significa defender políticas públicas de prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos autores de violência contra a mulher.
Até a última atualização, Eduarda Campopiano não havia divulgado manifestação específica em resposta às críticas feitas por Laura Berthoud.

Eduarda (à esq.) foi eleita com votação recorde em SP; Lívia Berthoud (à dir.) tinha 23 anos e era estudante de Direito; ex foi preso pelo crime

