BALEADO, ESTUDANTE DE MEDICINA AINDA CORREU PELA RUA LUTANDO PARA SOBREVIVER; FAMÍLIA PEDE JUSTIÇA EM TAUBATÉ
A morte de Bruno Hashimura San Juliano, de 23 anos, continua cercada de dor, comoção e pedidos de justiça em Taubaté e Jacareí. Baleado durante uma discussão de trânsito na Avenida do Povo, na manhã de quarta-feira (30), o estudante de Medicina ainda encontrou forças para sair do carro e correr pela rua depois dos disparos, levando a mão ao peito e tentando sobreviver. A luta de Bruno nos últimos instantes de vida passou a ser uma das imagens mais marcantes do caso. Nesta quinta-feira (1º), enquanto familiares e amigos se despediam do jovem em Jacareí, parentes cobraram justiça e lamentaram a interrupção de uma trajetória marcada pelo sonho de se tornar médico.
Bruno cursava o quarto semestre de Medicina na Universidade de Taubaté e havia acabado de completar 23 anos. Casado e pai de um menino de 2 anos, ele vinha construindo uma trajetória acadêmica que começou fora do Brasil. Segundo a família, Bruno iniciou a graduação em Medicina na Argentina, depois estudou em uma instituição no Pará e, posteriormente, conseguiu se transferir para a Unitau, onde continuava a formação.
A vida do estudante mudou em poucos minutos na Avenida do Povo. Depois de um desentendimento no trânsito, Bruno foi atingido por disparos de arma de fogo. Mesmo ferido, conseguiu deixar o veículo e correr por alguns metros. A cena mostra o jovem tentando permanecer de pé e buscar ajuda, numa tentativa desesperada de continuar vivo. Ele recebeu atendimento do Samu e foi levado ao Hospital Regional de Taubaté, mas não resistiu aos ferimentos.
Para a família, a corrida de Bruno depois dos tiros tornou ainda mais dolorosa uma morte considerada repentina e difícil de compreender. Durante o velório realizado nesta quinta-feira, no Campo das Oliveiras, em Jacareí, parentes lembraram os planos do estudante e reforçaram a cobrança para que o caso seja completamente esclarecido.
O avô de Bruno, Ailton San Juliano, falou sobre o sonho interrompido do neto. “Era um menino de ouro. O sonho dele era ser médico e interromperam um sonho por besteira”, afirmou durante a despedida.
A tia do estudante, Ana Paula San Juliano, também demonstrou indignação e ressaltou que Bruno tinha uma vida inteira pela frente. Ela lembrou que o sobrinho era jovem, pai de uma criança pequena e estava dedicado ao curso de Medicina. A família agora cobra respostas sobre as circunstâncias dos disparos e responsabilização conforme o resultado das investigações.
O primo Felipe San Juliano também se emocionou ao falar sobre a perda. Ele destacou que Bruno estudava, era amado pela família e que nenhuma decisão futura poderá devolver o jovem aos parentes. As declarações reforçaram o sentimento presente durante o velório: além da tristeza pela morte, existe um forte pedido para que a investigação esclareça cada etapa do episódio.
Bruno era descrito por familiares e amigos como alegre, otimista e dedicado aos estudos. Pessoas próximas também lembraram sua paixão pelo futebol e a forma positiva como costumava encarar as situações. O estudante havia percorrido diferentes caminhos para manter o sonho de se formar médico e estava inserido na rotina universitária de Taubaté quando a trajetória foi interrompida.
O bombeiro militar Marcos Paulo Fujarra de Oliveira, de 28 anos, foi identificado pela Polícia Civil como autor dos disparos e preso em flagrante. Nesta quinta-feira (1º), ele recebeu liberdade provisória após passar por audiência de custódia. A decisão permite que responda ao caso fora da prisão enquanto a investigação prossegue, sob medidas cautelares determinadas pela Justiça.
A concessão de liberdade provisória não representa absolvição e também não significa que a Justiça tenha definido a dinâmica dos fatos. O inquérito continua em andamento e deverá reunir perícias, depoimentos, exames, análise dos veículos e outros elementos antes de uma conclusão sobre responsabilidade criminal.
A defesa do bombeiro sustenta que Marcos acreditou estar diante de uma tentativa de assalto. Segundo essa versão, ele estava acompanhado da esposa e do filho e teria percebido uma atitude considerada ameaçadora durante o trajeto. O advogado afirma que Bruno teria exibido um objeto que parecia uma arma e que, posteriormente, já na Avenida do Povo, o militar desceu do carro, se identificou e tentou realizar uma abordagem.
A defesa afirma ainda que Bruno teria ameaçado Marcos com um objeto posteriormente identificado como um canivete e que os disparos ocorreram diante de uma ameaça. A tese apresentada é de legítima defesa.
Uma testemunha ouvida pela Polícia Civil, porém, apresentou uma versão diferente. Segundo esse relato, o bombeiro teria descido do veículo, começado a gritar com Bruno e atingido o vidro do carro com cotoveladas até quebrá-lo. A testemunha afirmou que o estudante permaneceu dentro do automóvel, com os vidros fechados, e não teria realizado movimento para fora do carro antes dos tiros.
Essas versões conflitantes estão entre os principais pontos que deverão ser esclarecidos durante a investigação. A perícia deverá analisar o vidro quebrado, a posição dos veículos, a distância entre os envolvidos, a trajetória dos projéteis e a quantidade exata de disparos efetuados.
Segundo as informações policiais iniciais, entre quatro e cinco tiros teriam sido disparados. A perícia deverá apontar quantos atingiram Bruno e em quais regiões do corpo. Nenhuma arma de fogo foi encontrada com o estudante ou dentro de seu veículo. Um canivete foi localizado no automóvel e deverá ser analisado para determinar se foi efetivamente utilizado durante o episódio e de que maneira.
Enquanto a investigação tenta reconstruir os segundos anteriores aos tiros, uma das sequências posteriores já está estabelecida: Bruno saiu do veículo depois de ser atingido e correu pela rua. Mesmo ferido, tentou se afastar e sobreviver. Pouco depois, precisou ser socorrido.
A cena passou a representar para amigos e familiares a última luta de Bruno. Um jovem que estudava para cuidar de vidas acabou precisando lutar pela própria, em plena rua, depois de ser baleado.
Na noite de quarta-feira, estudantes de Medicina, professores, familiares e amigos já haviam se reunido na Avenida do Povo para uma vigília. Velas, flores e cartazes foram colocados no local, e o pedido por justiça esteve presente durante o ato. Antes da homenagem, integrantes do grupo participaram de uma missa na Igreja Santa Terezinha.
A Unitau suspendeu as aulas do curso de Medicina nesta quinta-feira para permitir que alunos e professores acompanhassem a despedida. A universidade também disponibilizou atendimento psicológico à comunidade acadêmica diante do impacto provocado pela morte do estudante.
O corpo de Bruno foi velado no Campo das Oliveiras, no Centro de Jacareí. O sepultamento estava previsto para o Memorial do Vale, no Jardim Califórnia. O momento reuniu familiares, amigos e colegas que acompanharam o esforço do estudante para concluir a formação médica e construir uma vida ao lado da esposa e do filho pequeno.
Para a família, agora existe uma ausência impossível de reparar. O curso ficou sem um aluno, a esposa perdeu o companheiro e uma criança de 2 anos perdeu o pai. Os parentes insistem que a investigação avance e que todos os elementos sejam esclarecidos para que a Justiça possa definir as responsabilidades pelo ocorrido.
A Polícia Civil segue apurando a dinâmica completa da discussão e dos disparos. Enquanto os laudos e depoimentos são analisados, a família mantém o mesmo pedido feito durante a despedida: justiça por Bruno e esclarecimento sobre os acontecimentos que interromperam seu sonho de se tornar médico.


