MISTÉRIO NA BASÍLICA: TEMPESTADE E BLECAUTE MARCARAM ATAQUE À IMAGEM DE APARECIDA
Uma tempestade atingia Aparecida, fortes ventos cercavam a Basílica Velha e uma falha no fornecimento de energia deixou o templo parcialmente às escuras. Foi nesse cenário que, às 20h10 de 16 de maio de 1978, um jovem de 19 anos que havia saído de São José dos Campos se aproximou do altar, quebrou o vidro do nicho e retirou a imagem original de Nossa Senhora Aparecida.
Segundos depois, a pequena imagem de terracota, venerada por milhões de brasileiros, caiu no chão e se partiu em mais de 200 fragmentos. Algumas partes ficaram tão danificadas que foram reduzidas praticamente a pó.
O responsável pelo episódio era Rogério Marcos de Oliveira, morador de São José dos Campos. O ataque marcou a história do Santuário Nacional, provocou comoção em todo o país e se tornou o capítulo mais conhecido de uma trajetória pessoal marcada por transtorno mental, internações e uma morte trágica na Via Dutra.
Documentos históricos do Santuário confirmam que Rogério tinha 19 anos quando viajou até Aparecida naquela terça-feira. A imagem original ainda permanecia na Basílica Velha, templo que guardava a peça encontrada por pescadores no Rio Paraíba do Sul em 1717.
A imagem tem cerca de 36 centímetros de altura e foi produzida em barro cozido. Sua coloração escura, que se tornou uma das características mais conhecidas da representação da Padroeira do Brasil, foi adquirida ao longo do tempo.
Na noite do atentado, Rogério saiu de São José dos Campos com um dinheiro que havia recebido da irmã. O valor deveria ser usado para o pagamento de uma conta e para que ele providenciasse uma Carteira de Saúde, mas nenhuma das duas tarefas foi cumprida.
O jovem embarcou em um ônibus e seguiu para Aparecida. Relatos reunidos anos mais tarde pelo jornalista Sérgio Roberto de Paula indicam que Rogério enfrentava crises, ouvia vozes e acreditava receber ordens de uma figura que identificava como um anjo.
Essas informações foram registradas no livro “O Quebra-Santa”, resultado de uma apuração que se estendeu por mais de duas décadas. O jornalista afirmou ter conversado diversas vezes com Rogério a partir de 1994, inclusive durante períodos em que ele apresentava maior estabilidade clínica.
Os relatos sobre vozes, sonhos e visões são baseados principalmente nessas conversas posteriores. Por isso, devem ser compreendidos dentro do quadro de saúde mental atribuído a Rogério e não como acontecimentos sobrenaturais comprovados.
Rogério frequentava uma igreja presbiteriana e mantinha contato frequente com textos bíblicos. Segundo a reconstrução apresentada no livro, passagens relacionadas à proibição da fabricação e adoração de imagens religiosas teriam se misturado às alucinações enfrentadas pelo jovem.
Ao chegar a Aparecida, ele caminhou da rodoviária até a Basílica Velha. A cidade enfrentava ventania, trovões, relâmpagos e oscilações no fornecimento de energia elétrica.
Dentro do templo, Rogério teria permanecido observando o nicho. Conforme os relatos reunidos posteriormente, ele dizia ouvir diferentes vozes: uma mandava que deixasse a igreja, enquanto outra determinava que retirasse a imagem.
Em determinado momento, o jovem tentou procurar um padre para se confessar, mesmo não sendo católico. Como não conseguiu atendimento, retornou para perto do altar.
Por volta das 20h10, durante uma celebração, ocorreu o ataque. Rogério subiu até o nicho, atingiu o vidro de proteção e conseguiu retirar a imagem original.
O barulho provocado pelo vidro quebrado chamou a atenção dos fiéis, religiosos e seguranças. Um guarda do Santuário aproximou-se e tentou convencer o jovem a entregar a peça.
Durante a movimentação, Rogério deixou a imagem cair. A estatueta atingiu o chão e se despedaçou diante dos fiéis.
O Santuário Nacional registra que a imagem foi quebrada em mais de 200 partes. Outros relatos apresentam números diferentes, mas a versão institucional considera que mais de duas centenas de fragmentos foram recolhidas depois da queda.
Rogério conseguiu deixar a Basílica depois de resistir às pessoas que tentavam contê-lo. Ele foi alcançado e detido nas proximidades do Rio Paraíba do Sul, perto da região ligada ao encontro da imagem no século XVIII.
Com ferimentos nas mãos provocados pelo vidro, o jovem foi levado para receber atendimento médico. Posteriormente, acabou encaminhado para outro local diante do risco de ser atacado por pessoas revoltadas com o episódio.
A notícia atravessou o país. Em um período no qual a devoção a Nossa Senhora Aparecida já mobilizava multidões, a informação de que a imagem original havia sido destruída provocou choque entre os fiéis.
Os fragmentos foram cuidadosamente recolhidos, organizados e encaminhados sob sigilo ao Museu de Arte de São Paulo. A difícil missão de reconstruir a peça ficou sob responsabilidade da artista plástica Maria Helena Chartuni, então chefe do Departamento de Restauração do Masp.
Ao receber o material, Maria Helena encontrou principalmente a cabeça da imagem em estado muito delicado. Além da dificuldade técnica de unir dezenas de fragmentos, ela precisava preservar uma peça de terracota com enorme importância histórica e religiosa.
A restauradora trabalhou durante 33 dias. O serviço exigiu paciência para identificar, organizar e unir os pedaços, além de reconstruir partes que haviam se transformado em pó.
Maria Helena afirmou posteriormente que aquele foi o maior desafio profissional de sua vida. Segundo ela, o contato com a imagem também provocou uma transformação pessoal e espiritual.
A experiência deu origem ao livro “A História de Dois Restauros”, no qual a artista relata a recuperação física da imagem e o processo que descreveu como uma restauração de sua própria fé.
Depois da conclusão do trabalho, a imagem retornou a Aparecida em 19 de agosto de 1978. Ela foi transportada em um carro aberto do Corpo de Bombeiros e recebida por uma multidão que ocupou o entorno do Santuário e trechos próximos à Via Dutra.
O atentado provocou mudanças profundas na segurança e na conservação da peça. Desde então, os cuidados foram reforçados e a imagem passou a permanecer protegida por uma estrutura preparada para evitar novos ataques.
Enquanto a imagem foi restaurada e devolvida aos fiéis, Rogério seguiu uma trajetória marcada por crises e internações. De acordo com o livro escrito por Sérgio Roberto de Paula, ele recebeu diagnóstico de esquizofrenia e passou por diferentes instituições psiquiátricas.
Em períodos de estabilidade, Rogério teria demonstrado compreender a dimensão do que aconteceu naquela noite. Segundo o jornalista, ele viveu momentos de lucidez nos quais refletiu sobre o ataque e sobre a repercussão que o episódio provocou em sua vida.
É importante não relacionar o transtorno mental à violência de forma generalizada. Pessoas diagnosticadas com esquizofrenia não são necessariamente violentas, e o episódio deve ser analisado dentro das circunstâncias individuais e clínicas relatadas sobre Rogério.
O inquérito aberto depois do ataque não resultou em condenação criminal. Conforme os relatos históricos, o jovem foi submetido a cuidados médicos e psiquiátricos.
A história teve um novo desfecho trágico em 25 de maio de 2011, 33 anos depois do atentado. Rogério morreu atropelado na Via Dutra, no km 148, em São José dos Campos.
Segundo a reconstrução publicada em “O Quebra-Santa”, ele teria atravessado a rodovia com os olhos fechados, comportamento descrito como uma espécie de “roleta-russa”. Essa circunstância aparece na obra do jornalista, mas não foi localizada em um documento oficial disponível publicamente.
Rogério foi sepultado no jazigo da família no Cemitério Padre Rodolfo Komorek, em São José dos Campos. O episódio de 1978 continuou associado ao nome dele mesmo depois da morte.
O fato de Rogério ter morrido na Via Dutra, estrada utilizada diariamente por milhares de romeiros em direção a Aparecida, alimentou interpretações religiosas e histórias sobre uma possível “maldição”. Não existe, porém, qualquer base factual para estabelecer uma relação sobrenatural entre o atentado, os problemas enfrentados por ele e sua morte.
O que os registros mostram é a trajetória de um jovem que enfrentava um grave transtorno mental, protagonizou um episódio de enorme repercussão religiosa e passou o restante da vida convivendo com as consequências pessoais e públicas daquele ato.
A imagem, por sua vez, tornou-se também símbolo de resistência. Depois de ser encontrada quebrada ainda no século XVIII, passar por reparos anteriores e ser despedaçada em 1978, ela foi reconstruída e permanece exposta no Santuário Nacional.
A história reúne fé, arte, saúde mental, tragédia e restauração. Quase cinco décadas depois, a noite de 16 de maio de 1978 continua lembrada como um dos momentos mais dolorosos da devoção a Nossa Senhora Aparecida e como o acontecimento que ligou para sempre o nome de Rogério Marcos de Oliveira à imagem da Padroeira do Brasil.


