DUAS CRIANÇAS, A MESMA DOR: CASO PÉROLA REACENDE LEMBRANÇA DA MORTE DE JOÃO PEDRO EM CRUZEIRO
A prisão da mãe e do padrasto de Pérola Inocência, de apenas 2 anos, fez Cruzeiro reviver a lembrança de outro crime que marcou profundamente a cidade. Em janeiro de 2019, João Pedro Albano Ribeiro, de 3 anos, foi morto dentro da casa onde vivia. A mãe e o padrasto do menino foram posteriormente condenados a penas que, somadas, ultrapassaram 95 anos de prisão.
Sete anos separam as duas mortes, mas as histórias apresentam semelhanças que provocam inquietação. João Pedro e Pérola eram crianças pequenas, dependentes dos adultos responsáveis por protegê-las. Nos dois casos, os ferimentos foram registrados dentro de um contexto familiar e as versões apresentadas inicialmente passaram a ser questionadas após a análise de médicos, peritos e investigadores.
Apesar das semelhanças, existe uma diferença fundamental. No caso João Pedro, a investigação foi concluída, houve denúncia do Ministério Público, julgamento e condenação pelo Tribunal do Júri. Já no caso Pérola, a mãe e o padrasto foram presos por determinação da Justiça, mas continuam na condição de investigados e ainda não foram condenados.
João Pedro Albano Ribeiro tinha 3 anos quando foi morto, em 18 de janeiro de 2019. O crime aconteceu na casa onde ele vivia com a mãe, Taís Aparecida Albano, e o padrasto, Mauro Gleydson Lima Aguiar, no bairro Vila Brasil, em Cruzeiro.
Segundo as conclusões da investigação e a acusação apresentada à Justiça, a violência começou porque o menino não parava de chorar. A mãe teria utilizado um chinelo para bater na criança.
Na sequência, o padrasto teria pegado um cabo de vassoura e atingido João Pedro em diferentes partes do corpo. O laudo do Instituto Médico Legal revelou que o menino apresentava traumatismo craniano, fraturas e ferimentos no rosto, nos braços e nas pernas.
Depois de perceberem que João Pedro estava morto, a mãe e o padrasto enrolaram o corpo em uma manta e caminharam até uma área de mata próxima à Rodovia Doutor Avelino Júnior, a SP-52.
O corpo foi colocado em uma cova rasa. Segundo o registro policial, o buraco foi aberto com a parte metálica de uma enxada.
Para esconder o crime, a mãe informou à família que João Pedro havia desaparecido após sair para ir ao banheiro, localizado na parte externa da residência. O pai biológico do menino, Juan Ribeiro, acreditou na versão e iniciou uma mobilização pelas redes sociais para encontrar o filho.
A procura envolveu familiares e moradores de Cruzeiro. Enquanto a cidade compartilhava a imagem de João Pedro e pedia informações, o menino já estava morto e enterrado.
A Polícia Civil passou a desconfiar da versão apresentada porque a mãe e o padrasto não haviam procurado formalmente as autoridades para registrar o suposto desaparecimento.
Os dois foram levados para prestar depoimento e apresentaram versões contraditórias. Inicialmente, a mãe afirmou que o menino estava com diarreia e vômitos e teria morrido depois de passar mal. O padrasto, por sua vez, atribuiu as agressões à mãe.
Posteriormente, o casal revelou o local onde o corpo havia sido enterrado. João Pedro foi encontrado no dia 20 de janeiro de 2019 e sepultado na manhã seguinte, no Cemitério Municipal de Cruzeiro.
A morte provocou revolta e comoção. Mais de dois anos depois, em 24 de novembro de 2021, a mãe e o padrasto foram julgados pelo Tribunal do Júri.
Taís Aparecida Albano foi condenada a 42 anos de prisão. Mauro Gleydson Lima Aguiar recebeu pena de 53 anos e quatro meses. Somadas, as condenações chegaram a 95 anos e quatro meses.
Os dois foram responsabilizados por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver. A Justiça reconheceu qualificadoras relacionadas ao motivo fútil, ao emprego de meio cruel e ao fato de a vítima ser uma criança menor de 14 anos.
Em dezembro de 2025, Cruzeiro passou a acompanhar outro caso envolvendo uma criança de pouca idade e suspeitas de violência dentro de casa.
Pérola Inocência, de 2 anos, morava no bairro Parque Primavera. Na noite de 9 de dezembro, ela foi levada para atendimento médico apresentando ferimentos e hematomas espalhados pelo corpo.
Diante da gravidade do quadro, a menina foi transferida para o Hospital Regional de São José dos Campos. Pérola apresentava uma lesão grave na parte posterior da cabeça, diversos hematomas e marcas descritas no início da apuração como compatíveis com contenção física.
A quantidade e as características das lesões chamaram a atenção dos profissionais de saúde. A Polícia Militar foi acionada e a ocorrência passou a ser investigada.
A explicação apresentada inicialmente era de que Pérola teria sofrido uma queda enquanto estava sob os cuidados do padrasto, Nicolas Bruno Lucas Gonçalves. O acidente teria ocorrido no banheiro da residência.
Antes da confirmação da morte da menina, Nicolas publicou um vídeo nas redes sociais e negou ter agredido a criança. Ele afirmou que Pérola teria subido em um banco e caído no box do banheiro.
O padrasto também declarou que foi responsável por socorrê-la e que mantinha com a menina uma relação próxima, sendo reconhecido por ela como uma figura paterna.
A avaliação médica, entretanto, indicou que os ferimentos observados não seriam compatíveis com uma única queda acidental. A divergência entre a explicação apresentada e o estado clínico da criança levou ao aprofundamento das investigações.
Pérola permaneceu internada em estado gravíssimo por três dias. Em 12 de dezembro de 2025, o boletim de ocorrência foi atualizado com a confirmação da morte encefálica.
A menina não resistiu e foi sepultada no Cemitério Municipal de Piquete. A despedida reuniu familiares e provocou forte comoção em Cruzeiro, Piquete e outras cidades da região.
A investigação ficou sob responsabilidade da Delegacia de Defesa da Mulher de Cruzeiro. Durante aproximadamente nove meses, a equipe reuniu depoimentos, documentos médicos, laudos periciais e informações sobre os últimos momentos da criança antes da internação.
Os investigadores buscaram esclarecer quando os ferimentos aconteceram, quem estava com Pérola naquele período e se existiam sinais de episódios anteriores de violência.
O conteúdo integral dos laudos ainda não foi divulgado. Os elementos reunidos pela DDM, porém, foram encaminhados à Justiça e resultaram na expedição de mandados de prisão contra a mãe e o padrasto.
As prisões foram cumpridas na sexta-feira, 25 de setembro de 2026. A mãe de Pérola foi localizada em Cruzeiro.
Nicolas foi capturado por policiais rodoviários depois que o veículo em que estava foi localizado na Rodovia Paulo Virgínio, a SP-171. Após acompanhamento, a abordagem ocorreu na Rodovia Presidente Dutra, na altura do km 162,5, em Guaratinguetá.
Nenhum objeto ilícito foi encontrado no automóvel. A consulta aos sistemas policiais, no entanto, confirmou a existência de um mandado expedido pela Justiça.
O padrasto foi encaminhado ao Plantão Policial de Guaratinguetá e permaneceu à disposição do Poder Judiciário.
Até a última atualização, as autoridades não haviam informado se as prisões decretadas eram temporárias ou preventivas. Também não foram divulgados os enquadramentos criminais atribuídos individualmente à mãe e ao padrasto.
As mortes de João Pedro e Pérola apresentam pontos que se aproximam. As duas vítimas tinham menos de 4 anos, estavam sob os cuidados da mãe e do padrasto e sofreram ferimentos graves dentro de um ambiente que deveria representar proteção.
Nos dois casos, as explicações iniciais passaram a ser confrontadas por evidências médicas e pelo trabalho da Polícia Civil.
João Pedro foi apresentado inicialmente como uma criança desaparecida. Pérola teria sofrido uma queda no banheiro. Em ambos os episódios, a investigação avançou depois que as versões passaram a ser questionadas.
As diferenças, no entanto, precisam ser preservadas. João Pedro foi encontrado enterrado em uma área de mata, e a mãe e o padrasto confessaram que haviam escondido o corpo. Posteriormente, foram denunciados, julgados e condenados.
Pérola chegou a uma unidade de saúde com vida, permaneceu internada durante três dias e teve a morte encefálica confirmada. Sua mãe e seu padrasto foram presos durante uma investigação ainda em andamento.
As prisões no caso Pérola não representam condenação. A responsabilidade de cada investigado dependerá da conclusão da apuração, de eventual denúncia do Ministério Público e da análise das provas pela Justiça.
As defesas poderão apresentar suas versões, contestar os elementos reunidos e acompanhar todos os atos do processo.
Até a última atualização, não havia manifestação recente dos advogados dos investigados sobre os mandados cumpridos. O espaço permanece aberto para posicionamento das defesas da mãe e do padrasto.
João Pedro tinha 3 anos. Pérola tinha 2. Duas infâncias interrompidas e dois casos que deixaram marcas profundas em Cruzeiro.
Em 2019, moradores se mobilizaram procurando um menino que já estava morto. Em 2025, profissionais de saúde identificaram ferimentos que colocaram em dúvida a explicação de uma queda.
O caso João Pedro terminou com condenações superiores a 95 anos. O caso Pérola começa agora a entrar em uma nova etapa, marcada pelas prisões e pela expectativa de que as investigações esclareçam definitivamente o que aconteceu.


