ADEUS SEM UM ÚLTIMO ABRAÇO: FAMÍLIA SE DESPEDE DE BRUNO, MORTO NA GUERRA DA UCRÂNIA
Não haverá caixão, sepultamento ou um último abraço. Restarão uma fotografia, as lembranças e a presença de familiares e amigos reunidos para dizer adeus. A família de Bruno Leandro Arantes Dias, de 35 anos, realizará neste domingo, 27 de setembro de 2026, em Jacareí, uma cerimônia em memória do brasileiro que, segundo os parentes, morreu durante um combate na Ucrânia.
A homenagem será realizada das 8h às 10h, na Sala Valência do Campo das Oliveiras, localizada na Avenida Siqueira Campos, 263, no Centro. Será uma despedida marcada pela ausência mais dolorosa: o corpo de Bruno permanecerá no território onde ele teria morrido.
De acordo com o comunicado divulgado pela família, a morte ocorreu em 22 de setembro de 2026. Desde então, os parentes tentam enfrentar um luto cercado por distância, incertezas e obstáculos que impedem a realização de um velório da maneira como gostariam.
Bruno era morador da Vila Zezé, em Jacareí, e havia viajado para a Ucrânia por decisão própria para integrar forças estrangeiras que atuam ao lado dos ucranianos na guerra contra a Rússia. A escolha não contava com o apoio da família, mas foi respeitada como uma decisão tomada por ele.
Antes da confirmação transmitida aos parentes, Bruno foi considerado desaparecido. Durante dias, a família ficou dividida entre a dor provocada pelas primeiras informações e a esperança de que ele pudesse estar vivo, ferido ou impossibilitado de se comunicar.
A tia de Bruno, Alexsandra Arantes Piva, chegou a publicar um apelo nas redes sociais. A família pedia uma notícia concreta, algo que permitisse compreender o que realmente havia acontecido do outro lado do mundo.
Naquele momento, os parentes já enfrentavam o luto, mas ainda mantinham um fio de esperança. Sem imagens, identificação formal ou o corpo, aceitar a morte se tornava ainda mais difícil.
Novos contatos com pessoas ligadas ao grupo em que Bruno atuava teriam confirmado que ele morreu durante o combate. Segundo o relato da irmã, um companheiro que estava na missão e conseguiu sobreviver também comunicou à família o que teria acontecido.
O corpo de Bruno estaria em uma área onde os confrontos continuam. A família foi informada de que uma operação de retirada não poderia ser realizada imediatamente porque colocaria outros militares em risco.
“Não tem corpo. Conforme o comandante falou para a gente e esse parceiro dele que estava lá na guerra e sobreviveu falou, onde o corpo se encontra é numa área de guerra, numa área de batalha”, contou a irmã.
A explicação recebida pelos parentes é que seria necessário enviar outros soldados para tentar chegar ao local. Diante da presença de forças inimigas e da continuidade dos combates, essa mobilização poderia resultar em novas mortes.
“Não faz sentido colocar mais cinco, seis soldados para ir lá buscar um corpo e colocar a vida de mais cinco, seis soldados em risco. Lá onde o corpo do Bruno e dos meninos se encontram ainda é um campo de batalha”, relatou.
Também não existe previsão para a recuperação dos corpos. A retirada somente poderá ocorrer, segundo as informações repassadas à família, quando a área deixar de representar risco para as equipes.
“Eles só vão lá buscar o corpo quando realmente a área onde eles morreram não tiver mais gente inimiga. Não tem previsão, não tem data para eles tirarem o corpo de lá”, explicou a irmã.
A distância entre Jacareí e o campo de batalha transformou a despedida em um dos momentos mais difíceis enfrentados pela família. Sem poder tocar o rosto de Bruno pela última vez, os parentes decidiram reunir as pessoas que fizeram parte de sua história.
A cerimônia deste domingo não terá a presença física do jacareiense, mas será conduzida como um espaço para orações, homenagens e lembranças. A família espera encontrar algum conforto na união das pessoas que conheceram Bruno e dividiram momentos com ele.
Caso o corpo seja recuperado futuramente, existe a possibilidade de que seja cremado e que apenas as cinzas sejam encaminhadas ao Brasil. Segundo a irmã, essa condição já estaria prevista no contrato relacionado à participação de Bruno no conflito.
“Já estava escrito no contrato que, se o corpo fosse resgatado, eles mandavam as cinzas. Então, de qualquer forma, não tem corpo”, afirmou.
A família também enfrenta dificuldades relacionadas à documentação. Por enquanto, os parentes possuem uma declaração que menciona o desaparecimento e a morte, mas a emissão da certidão de óbito definitiva dependeria da recuperação e da identificação do corpo.
“Eles dão para a gente uma declaração de desaparecimento. Na declaração eles falam que a pessoa faleceu, mas é uma declaração de desaparecimento porque eles não têm o corpo”, explicou a irmã.
Outro problema aumentou a angústia dos parentes. Um dos documentos encaminhados à família apresentou erro no nome de Bruno, o que impediu o avanço de procedimentos junto ao Ministério das Relações Exteriores.
“Mandaram a documentação do Bruno, mas mandaram o nome do Bruno errado. O nome dele é Bruno Leandro. Por isso a gente não entrou em contato com o Itamaraty ainda, porque a documentação está errada”, relatou.
Enquanto aguarda a correção e novas informações, a família tenta atravessar um luto sem os rituais tradicionais que ajudam a tornar a perda compreensível. Não existe uma sepultura onde flores possam ser deixadas nem uma previsão de quando os restos mortais poderão retornar.
Há apenas a confirmação recebida de pessoas ligadas ao conflito, o silêncio provocado pela guerra e as memórias construídas durante os 35 anos vividos por Bruno.
Uma homenagem publicada por um amigo afirma que Bruno teria morrido depois de voltar para ajudar um companheiro durante o combate. Segundo esse relato, ele poderia ter buscado proteção, mas decidiu retornar para não abandonar quem estava ao seu lado.
Para aqueles que conviveram com o jacareiense, a lembrança não deverá ficar restrita à forma como ele morreu. Permanecerão as conversas, os momentos compartilhados, a personalidade e os vínculos construídos antes de sua partida para a Ucrânia.
A cerimônia será a forma encontrada pela família para transformar a ausência em memória. Mesmo sem o corpo, parentes e amigos poderão se abraçar, rezar e prestar a última homenagem possível neste momento.
No comunicado sobre a despedida, a família resumiu a dor de não poder receber Bruno de volta e, ao mesmo tempo, o desejo de preservar tudo o que ele representou:
“Embora não possamos nos despedir como gostaríamos, estaremos juntos para honrar sua memória e guardar para sempre tudo o que ele significou para nós.”
Neste domingo, a Sala Valência deverá receber uma despedida diferente. No lugar do caixão, haverá recordações. No lugar do último olhar, fotografias. E, diante da impossibilidade de trazer Bruno para casa, a família se reunirá para garantir que sua memória permaneça viva.


