R$ 205 MILHÕES NA MIRA DA JUSTIÇA: MP DENUNCIA EMPRESÁRIO E MAIS 12 POR SUPOSTO ESQUEMA DE AGIOTAGEM NO VALE
Uma investigação que começou há cerca de cinco anos e já passou por prisões, buscas, bloqueios milionários e condenações ganhou um novo capítulo no Vale do Paraíba. O Ministério Público de São Paulo denunciou à Justiça 13 pessoas investigadas na segunda fase da Operação Armagedom, que apura um suposto esquema envolvendo organização criminosa, agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro. Entre os denunciados está o empresário Kleber Nunes Faria de Sousa, conhecido como “Klebinho”, apontado pela acusação como uma das lideranças do grupo.
Os números apresentados na investigação chamam a atenção. Relatórios financeiros citados na denúncia apontam movimentações superiores a R$ 205 milhões entre os investigados. Desse total, aproximadamente R$ 108 milhões, segundo o Ministério Público, não teriam origem declarada ou seriam incompatíveis com as rendas formais analisadas. Na segunda fase da operação, a Justiça já havia autorizado medidas patrimoniais que podem alcançar R$ 205,7 milhões.
A denúncia foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, e atribui aos 13 denunciados, de acordo com a participação descrita pelo Ministério Público, crimes relacionados à organização criminosa, lavagem ou ocultação de patrimônio, usura e extorsão. A apresentação da denúncia não representa condenação. Caberá agora à Justiça analisar a acusação e decidir sobre o prosseguimento do processo.
Um dos pontos destacados pela acusação é que a estrutura investigada teria continuado funcionando mesmo depois da primeira fase da Operação Armagedom, realizada em novembro de 2024. Segundo o MP, após prisões e condenações daquele período, integrantes teriam reorganizado as funções e mantido as atividades investigadas.
Kleber, que já estava em prisão domiciliar, é apontado na nova denúncia como responsável por continuar coordenando as atividades. Durante o período de monitoramento, a investigação contabilizou mais de 1,2 mil acessos de pessoas e veículos à residência do empresário. Para a acusação, a movimentação seria um dos elementos que indicariam que o imóvel continuava sendo utilizado na dinâmica investigada.
Outro homem apontado como liderança do grupo estaria recolhido na Penitenciária de Registro e, ainda conforme a denúncia, teria mantido participação por intermédio de outras pessoas. Familiares e outros integrantes também são citados pelo Ministério Público em atividades envolvendo administração de empresas e patrimônio, movimentação financeira e cobranças.
A suposta engrenagem financeira descrita pelo MP teria nos empréstimos a principal porta de entrada. Segundo a acusação, eram cobrados juros que variavam entre 5% e 15% ao mês. Em determinados casos, os documentos formais apresentariam percentuais menores do que aqueles que teriam sido efetivamente exigidos dos devedores.
Ainda conforme o Ministério Público, pessoas que não conseguiam pagar as dívidas teriam sido pressionadas a entregar veículos e imóveis. A acusação sustenta também que contas bancárias de terceiros e empresas seriam utilizadas para movimentar recursos e dificultar a identificação da origem e do verdadeiro proprietário do patrimônio.
O conjunto de bens investigados é amplo. Durante as apurações foram identificados imóveis residenciais e comerciais, veículos de alto padrão, empresas e outros ativos. Levantamentos divulgados durante a segunda fase da Operação Armagedom apontaram ainda rendimentos superiores a R$ 48 mil por mês provenientes de aluguéis.
Até cavalos entraram no radar da investigação. Entre os patrimônios alcançados pelas medidas judiciais estão pelo menos 37 animais da raça Mangalarga Marchador vinculados ao principal investigado. O bloqueio determinado pela Justiça também alcança contas, imóveis, veículos, empresas e outros bens, podendo chegar ao limite de R$ 205,7 milhões. O bloqueio é uma medida cautelar e não significa perda definitiva do patrimônio.
A segunda fase da Operação Armagedom foi deflagrada no dia 6 de agosto e mobilizou o Gaeco, o Núcleo Especial de Combate à Criminalidade Organizada e à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil, o Neccold, além do 3º Batalhão de Ações Especiais de Polícia, o Baep. Foram expedidos 24 mandados de busca e apreensão pela Justiça de São José dos Campos, além de medidas relacionadas a dados eletrônicos, contas e patrimônio dos investigados.
As apurações que deram origem à Operação Armagedom remontam a 2021. A primeira grande ofensiva ocorreu em novembro de 2024 e terminou com prisões e, posteriormente, condenações de integrantes investigados naquela etapa. O avanço das análises sobre movimentações financeiras e patrimônio levou os investigadores a sustentarem que a estrutura teria permanecido ativa, dando origem à nova fase deflagrada em 2026.
Além das responsabilizações criminais, o Ministério Público solicitou o perdimento dos bens que considera provenientes das supostas atividades criminosas e pediu que a Justiça estabeleça um valor mínimo para reparação dos danos relacionados aos crimes descritos na denúncia. A eventual perda definitiva dos bens dependerá de decisão judicial.
Kleber Nunes foi preso preventivamente durante a segunda fase da operação. Na ocasião, ele negou as acusações e declarou ser inocente. Nesta quinta-feira, dia 17 de setembro, ao ser procurada pelo g1 após a apresentação da denúncia, a defesa informou que irá se manifestar somente nos autos.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público inaugura agora uma nova etapa judicial da Operação Armagedom. Até eventual decisão definitiva, os denunciados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.

Foto: Reprodução/Rede Vanguarda

