Segunda-feira, Agosto 10, 2026
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DO VALE PARA O MUNDO: TAUBATÉ VAI PRODUZIR “CARRO VOADOR” COM CAPACIDADE DE ATÉ 480 UNIDADES POR ANO


Taubaté está prestes a ocupar uma posição de destaque em uma das maiores transformações previstas para o transporte aéreo nas próximas décadas. A cidade do Vale do Paraíba será responsável pela produção do eVTOL da Eve Air Mobility, empresa controlada pela Embraer, aeronave elétrica de pouso e decolagem vertical popularmente chamada de “carro voador”. Quando estiver com toda a estrutura industrial implantada, a fábrica terá capacidade para produzir até 480 aeronaves por ano.

A informação ganhou novos detalhes durante a apresentação dos resultados da Embraer. Segundo o presidente da companhia, Francisco Gomes Neto, a atual meta é que os primeiros eVTOLs entrem em operação comercial até o final de 2028, colocando o projeto cada vez mais perto de deixar os testes para entrar definitivamente no mercado de transporte de passageiros.

O plano coloca o Vale do Paraíba no centro de uma tecnologia que pretende mudar a maneira como deslocamentos de curta distância são realizados nas grandes cidades. A primeira unidade industrial dedicada ao eVTOL da Eve ficará dentro da área já pertencente à Embraer em Taubaté, que será ampliada para receber a nova operação.

Mas as 480 aeronaves anuais não deverão sair da linha de produção imediatamente. A estratégia industrial foi desenvolvida de forma modular. Serão quatro módulos com capacidade aproximada de 120 eVTOLs por ano cada um. Conforme a demanda aumentar, novos módulos poderão ser ativados até que a unidade alcance sua capacidade máxima.

Na prática, isso significa que a fábrica poderá começar em uma escala menor e crescer junto com o mercado. A própria Eve afirma que esse modelo permite ampliar a produção de maneira gradual, evitando instalar toda a capacidade industrial antes que exista demanda suficiente para as aeronaves.

O interesse comercial já é expressivo. Francisco Gomes Neto afirmou que a Eve possui cerca de 3 mil cartas de intenção de compra, além de pedidos que já avançaram para a condição firme. É importante diferenciar as duas modalidades: cartas de intenção indicam interesse comercial, mas não possuem necessariamente o mesmo compromisso contratual de uma encomenda firme.

Brasil e Estados Unidos aparecem na frente da corrida para receber os primeiros serviços. Segundo o presidente da Embraer, existe a possibilidade de a operação comercial começar nos dois países em períodos próximos ou praticamente de forma simultânea. No Brasil, a proximidade da estrutura industrial e de engenharia favorece o desenvolvimento do projeto, enquanto o mercado norte-americano apresenta oportunidades em diferentes centros urbanos.

A aeronave, atualmente denominada Eve 100, foi projetada inicialmente para transportar quatro passageiros e um piloto. Sua autonomia prevista na entrada em serviço é de até 100 quilômetros, característica direcionada principalmente a deslocamentos urbanos e regionais de curta distância.

O projeto utiliza oito rotores dedicados à sustentação durante decolagem, voo pairado e pouso, além de asas fixas e um sistema separado de propulsão para o deslocamento horizontal. Essa arquitetura permite que a aeronave decole verticalmente, como um helicóptero, e depois utilize as asas durante o voo de cruzeiro.

E o projeto já saiu do papel. No início deste mês, a Eve anunciou um novo avanço nos testes: o protótipo de engenharia realizou seu primeiro voo de transição parcial, momento em que o sistema propulsor traseiro foi acionado durante o voo. O teste durou 3 minutos e 9 segundos, alcançou velocidade estabilizada de 27 nós e altura máxima de 90 pés. Para a empresa, essa etapa é fundamental porque representa o início da passagem do voo predominantemente vertical para o voo sustentado pelas asas.

A campanha de testes vem avançando desde o primeiro voo do protótipo em escala real. Em março deste ano, a Eve informou que a aeronave já havia completado 35 voos e acumulado aproximadamente uma hora e meia no ar. Naquele momento, os testes iniciais indicavam desempenho de propulsão e baterias acima das expectativas preliminares da companhia, enquanto os níveis de ruído permaneciam dentro das projeções.

Paralelamente aos testes, ocorre uma etapa decisiva: a certificação. A Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, conduz o processo brasileiro e abriu consulta sobre critérios atualizados de aeronavegabilidade para o Eve 100. A Eve também iniciou o processo de validação junto à agência europeia EASA e já vinha trabalhando com a FAA, dos Estados Unidos, em uma estratégia de certificação internacional.

Isso significa que a chegada do chamado “carro voador” ao mercado ainda depende da conclusão dos testes, das certificações aeronáuticas, da preparação dos operadores e da implantação da infraestrutura necessária, como pontos adequados para pousos, decolagens e recarga elétrica.

A preparação da fábrica de Taubaté também recebeu financiamento de grande porte. A Eve obteve uma linha equivalente a R$ 500 milhões do BNDES destinada à implantação da estrutura industrial. Segundo a empresa, a unidade foi concebida para utilizar energia limpa e renovável e será a primeira fábrica de eVTOL da companhia.

Outro desafio será justamente entregar aeronaves produzidas no Vale do Paraíba para mercados distantes. Como o Eve 100 foi desenvolvido para trajetos de aproximadamente 100 quilômetros, ele não poderá simplesmente sair voando de Taubaté até destinos internacionais. Francisco Gomes Neto explicou que a estratégia deverá incluir transporte e remontagem das aeronaves próximo aos mercados onde elas serão utilizadas.

A Embraer ainda não definiu onde futuras fábricas poderão ser instaladas. A companhia pretende primeiro acompanhar o crescimento do mercado e a demanda pelos eVTOLs. Dependendo da expansão internacional das operações, outras unidades industriais poderão ser avaliadas no futuro.

Por enquanto, o ponto de partida industrial está definido: Taubaté. Se o cronograma avançar conforme o planejado, uma tecnologia que durante muitos anos pareceu pertencer apenas a filmes futuristas começará a ganhar forma em escala industrial dentro do Vale do Paraíba, com capacidade máxima projetada para quase 500 aeronaves elétricas por ano e a expectativa de iniciar uma nova etapa da mobilidade aérea urbana a partir de 2028.

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