DA VISITA AO MOTIM: OS DETALHES DA REBELIÃO QUE DEIXOU DOIS PRESOS MORTOS EM POTIM
O que começou em um dia de visitas na Penitenciária I de Potim terminou em uma das crises mais graves registradas recentemente no sistema prisional da região. Entre sábado, 20, e domingo, 21, a unidade viveu cerca de 18 horas de tensão, com dois presos mortos, quatro feridos, 15 visitantes sem rota segura para deixar o presídio e nove detentos indiciados pela Polícia Civil.
A investigação aponta que a rebelião teve início após duas visitantes apresentarem imagens consideradas suspeitas no equipamento de inspeção corporal, conhecido como body scanner. Por esse motivo, a administração da penitenciária determinou que as mulheres fossem retidas para exames complementares antes da liberação de acesso ao setor prisional. O boletim de ocorrência não informa que algum objeto ilícito tenha sido encontrado com elas, citando apenas a necessidade de verificação adicional.
A decisão teria provocado a reação de presos ligados às visitantes. Segundo relatos reunidos pela Polícia Civil, os detentos passaram a contestar a medida, exigiram a entrada das mulheres e ameaçaram iniciar uma revolta caso a autorização não fosse concedida. A tensão aumentou rapidamente e, por volta das 11h30, o alarme da unidade foi acionado após ameaças, recusa às ordens dos policiais penais e adesão de outros presos ao motim.
A partir do meio-dia, a crise se agravou. Quatorze mulheres e uma criança ficaram sem uma rota segura para deixar a unidade, enquanto presos eram rendidos, amarrados e usados como forma de pressão contra a administração. De acordo com o boletim, os amotinados passaram a portar objetos perfurantes e cortantes de fabricação artesanal, incluindo barras de metal, pedaços de chapa, fragmentos de espelho, plástico rígido e outros materiais adaptados para causar ferimentos.
Por volta das 14h, cinco presos amarrados teriam sido levados até uma grade de contenção, em área visível aos negociadores. O grupo exibiu armas artesanais e intensificou as ameaças. Entre 15h e 16h, dois detentos foram mortos, conforme relatos de policiais penais e análise preliminar das imagens internas do presídio.
As vítimas fatais foram identificadas no boletim como Gustavo Santos Lima Lourenço, de 25 anos, e Carlos Matheus Alves da Silva, de 41 anos. Outros quatro presos sobreviveram às agressões e relataram ferimentos na cabeça, ombros, pernas, costas e outras partes do corpo, além de cortes, contusões e marcas associadas às amarrações.
O documento policial também descreve barricadas feitas com colchões, cobertores e grades presas umas às outras. Essas barreiras dificultaram o acesso das equipes de segurança e impediram o socorro imediato aos feridos, já que qualquer entrada sem acordo poderia ampliar o risco para visitantes, servidores e presos que estavam rendidos.
Durante a crise, as visitantes permaneceram em uma área separada, sem contato físico direto com os amotinados, mas sem condições seguras de deixar o presídio por causa das ameaças, dos bloqueios internos e do risco de confronto. A restrição começou perto do meio-dia de sábado e terminou por volta das 6h de domingo. Nenhuma delas ficou ferida fisicamente, mas a Polícia Civil considerou que houve privação de liberdade.
As negociações atravessaram a noite com atuação da Polícia Penal e do Gate. A presença das visitantes dentro da unidade reduziu as possibilidades de intervenção imediata, pois uma entrada forçada poderia provocar reação dos presos e colocar em risco familiares, agentes, servidores e detentos que não participavam da revolta.
A crise só foi encerrada no início da manhã de domingo, quando os principais envolvidos se entregaram. As visitantes deixaram a unidade sem ferimentos, os corpos foram removidos, os sobreviventes receberam atendimento e os presos apontados como participantes foram separados e transferidos para outras unidades.
A Polícia Civil indiciou nove presos. O indiciamento representa uma conclusão preliminar da investigação sobre a existência de indícios de autoria e materialidade, mas não equivale a condenação. Todos os investigados mantêm o direito de defesa, e o caso ainda será analisado pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário.
No boletim, a autoridade policial registra, em tese, crimes como dois homicídios qualificados consumados, quatro tentativas de homicídio qualificado, motim de presos e sequestro ou cárcere privado. As classificações ainda podem ser alteradas no decorrer da apuração, conforme análise do Ministério Público, resultado dos laudos periciais e decisão da Justiça.
Os interrogatórios não apontam confissão coletiva. Parte dos investigados permaneceu em silêncio, enquanto outros negaram participação nos homicídios ou disseram que tentaram conter a violência. Também houve relatos sobre problemas internos, superlotação, alimentação e tratamento dentro da unidade. Essas versões ainda deverão ser confrontadas com imagens, laudos, depoimentos e demais elementos reunidos pela investigação.
A Polícia Civil determinou a preservação e análise das imagens do sistema interno da penitenciária. Os registros poderão ajudar a identificar quem esteve em cada área, quem conduziu as vítimas, quem portou armas artesanais, quem participou diretamente das agressões e quem teria exercido eventual liderança durante o motim.
Também foram solicitados exames de corpo de delito nos sobreviventes, necropsias nas vítimas fatais, perícia no local, fotografias técnicas e análise de fragmentos metálicos apreendidos. Os laudos deverão apontar a causa das mortes, a quantidade e o tipo de ferimentos, os instrumentos usados e a compatibilidade entre os relatos e as lesões encontradas.
Após o fim da rebelião, o Grupo de Intervenção Rápida iniciou uma revista geral na unidade, com apoio da Polícia Militar na área externa. O objetivo foi localizar armas artesanais, objetos proibidos, pontos de barricada, danos estruturais e materiais relacionados à crise. A Secretaria da Administração Penitenciária informou que presos envolvidos foram transferidos para outras unidades.
A Penitenciária I de Potim operava acima da capacidade antes da crise. A unidade tem capacidade para 748 presos, mas abrigava 1.302 detentos. O setor de regime semiaberto também estava acima da capacidade, com 129 presos para 96 vagas. A superlotação não afasta a responsabilidade individual de quem participou dos ataques, mas amplia a pressão sobre celas, pátios, equipes de segurança, enfermaria, alimentação, deslocamentos e dias de visita.
A investigação ainda precisa esclarecer a participação exata de cada um dos nove indiciados, a origem dos objetos usados como armas artesanais, o resultado dos exames relacionados às visitantes retidas no início da ocorrência e as condições que impediram a saída segura das 14 mulheres e da criança antes do fim da negociação.
A Polícia Civil lavrou as prisões em flagrante e pediu à Justiça a conversão das detenções em prisões preventivas. Caberá ao Judiciário decidir sobre a manutenção das prisões, enquanto o Ministério Público avalia o inquérito, podendo pedir novas diligências, oferecer denúncia, alterar a classificação dos crimes ou solicitar o arquivamento de algum ponto.


