Sexta-feira, Junho 19, 2026
Cidades

CHACINA NO MST EM TREMEMBÉ TERÁ JÚRI DE CINCO DIAS PARA JULGAR QUATRO ACUSADOS POR MORTES NO ASSENTAMENTO OLGA BENÁRIO


Quase dois anos após o ataque armado que deixou dois mortos e seis feridos no Assentamento Olga Benário, em Tremembé, quatro acusados sentarão no banco dos réus em um julgamento previsto para durar cinco dias no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. O caso, que teve repercussão nacional e mobilizou movimentos sociais, autoridades e familiares das vítimas, será levado ao Tribunal do Júri entre os dias 28, 29 e 30 de setembro e 1º e 2 de outubro de 2026.

Serão julgados Antônio Martins dos Santos Filho, conhecido como Nero do Piseiro, Ítalo Rodrigues da Silva, Geonatas Martins Bispo e Gilson da Silva Santos. Eles respondem por dois homicídios qualificados consumados e seis tentativas de homicídio qualificado. A sessão foi marcada pela 5ª Vara do Júri da Capital e deverá ter duração prolongada em razão do número de réus, testemunhas, provas e da complexidade do processo.

O crime aconteceu na noite de 10 de janeiro de 2025, no Assentamento Olga Benário, área ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, localizada na Estrada Kanegae, em Tremembé. Segundo as investigações, homens armados chegaram ao local em veículos e motocicletas e efetuaram diversos disparos contra moradores do assentamento, provocando pânico, correria e uma tragédia que marcou a região.

As vítimas fatais foram Valdir do Nascimento de Jesus, de 52 anos, conhecido como Valdirzão, liderança do MST no Vale do Paraíba, e Gleison Barbosa de Carvalho, de 28 anos, conhecido como Guegué, filho de um assentado. Outras seis pessoas ficaram feridas no ataque, entre homens e mulheres, algumas em estado grave. As vítimas foram socorridas para o Hospital Regional de Taubaté e outras unidades de saúde da região.

Logo após a chacina, a Polícia Civil montou uma força-tarefa para apurar o caso. Antônio Martins dos Santos Filho foi preso um dia depois do ataque e, segundo a investigação, teria confessado participação na ação. As apurações apontaram que ele teria atuado como organizador do grupo responsável pela invasão ao assentamento. Ao longo do inquérito, outros suspeitos foram identificados, e o caso avançou até a definição do julgamento popular.

Durante as investigações, a Polícia Civil também localizou em Taubaté um veículo que teria sido utilizado pelos criminosos. O carro foi encontrado abandonado em um terreno baldio no bairro Parque Aeroporto e passou por perícia. A apuração buscou reunir elementos sobre a dinâmica do ataque, a participação de cada acusado, a rota usada pelos envolvidos e os possíveis motivos que levaram à violência no assentamento.

Uma das linhas investigativas apontou conflitos relacionados à terra, ocupação irregular de lote e possível comercialização indevida de áreas dentro do assentamento. Esses pontos deverão ser analisados no julgamento, junto com depoimentos, provas técnicas e demais elementos reunidos ao longo do processo. A Polícia Federal também passou a acompanhar o caso em investigação paralela, diante da repercussão e da gravidade do ataque.

A chacina provocou forte reação política e social em todo o país. Dois dias após o crime, o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, estiveram em Tremembé para acompanhar o velório das vítimas e prestar solidariedade às famílias. Na ocasião, autoridades defenderam a identificação não apenas dos executores, mas também de possíveis mandantes.

O MST também realizou atos em homenagem às vítimas e cobrou responsabilização de todos os envolvidos. Uma semana após o ataque, centenas de pessoas participaram de uma cerimônia no Centro de Eventos de Tremembé, com presença de lideranças do movimento, representantes do governo federal, parlamentares, sindicatos e integrantes de movimentos sociais. O ato teve plantio de árvores, celebrações religiosas e manifestações por justiça.

Na decisão que marcou o júri, a Justiça determinou a convocação dos jurados, a intimação de dezenas de testemunhas e a adoção de medidas logísticas especiais em razão da complexidade do processo. O tribunal prevê, inclusive, a necessidade de hospedagem dos jurados durante os dias de julgamento, já que a sessão deverá se estender por toda a semana.

O julgamento é considerado um dos mais emblemáticos envolvendo conflitos agrários no estado de São Paulo nos últimos anos. A expectativa é que familiares das vítimas, representantes de movimentos sociais, advogados, autoridades e integrantes do MST acompanhem a sessão, que deverá definir a responsabilidade dos quatro acusados pelo ataque que deixou mortos, feridos e marcas profundas no Assentamento Olga Benário.

Com a ida dos réus ao Tribunal do Júri, o caso entra em uma etapa decisiva. Caberá aos jurados analisar as provas, ouvir testemunhas e decidir se os acusados são responsáveis pela chacina que tirou a vida de Valdirzão e Guegué e feriu outras seis pessoas em Tremembé.

Valdir e Gleison foram assassinados durante ataque de encapuzados em assentamento em Tremembé

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