Quarta-feira, Outubro 28, 2026
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PRESO EM POTIM, MOTORISTA DO PORSCHE AZUL VAI A JÚRI POR MORTE DE TRABALHADOR; MINISTÉRIO PÚBLICO QUER PENA SUPERIOR A 20 ANOS


Mais de dois anos após o acidente que provocou a morte de um motorista de aplicativo na capital paulista, o empresário Fernando Sastre de Andrade Filho, conhecido como o motorista do Porsche azul, será levado ao Tribunal do Júri nesta quarta-feira (28), em São Paulo. Preso preventivamente desde maio de 2024 e atualmente detido em Potim, no Vale do Paraíba, ele responde pela morte de Ornaldo da Silva Viana, de 52 anos, e pelos graves ferimentos sofridos por um amigo que estava no banco do passageiro do carro esportivo. O Ministério Público pretende pedir uma condenação superior a 20 anos de prisão. Segundo a acusação, Fernando dirigia após consumir bebida alcoólica e atingiu o veículo da vítima a aproximadamente 136 quilômetros por hora, em uma avenida onde o limite permitido era de apenas 50 quilômetros por hora.

O julgamento está previsto para começar às 10h, no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, sob a presidência da juíza Melanie Liesenberg. A expectativa é que a sessão dure dois dias, com possibilidade de encerramento na quinta-feira (29), embora os trabalhos possam se estender. Sete jurados serão escolhidos para formar o Conselho de Sentença, responsável por decidir sobre a responsabilidade criminal do empresário. A programação também prevê a oitiva de testemunhas da acusação e da defesa, além do interrogatório do réu.

O acidente aconteceu na madrugada de domingo, 31 de março de 2024, na Avenida Salim Farah Maluf, na região do Tatuapé, zona leste da capital. Fernando conduzia um Porsche 911 Carrera GTS azul, avaliado em mais de R$ 1 milhão, quando atingiu violentamente a traseira de um Renault Sandero dirigido por Ornaldo, que trabalhava como motorista de aplicativo. O impacto destruiu parte do automóvel da vítima, que chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. A colisão foi registrada por câmeras de monitoramento e se tornou um dos principais elementos da investigação.

Os laudos produzidos pelo Instituto de Criminalística apontaram que o Porsche chegou a atingir aproximadamente 156 quilômetros por hora antes da colisão. No momento do impacto, a velocidade estimada era de 136 quilômetros por hora, quase três vezes superior ao limite de 50 quilômetros por hora estabelecido para o trecho. Esses dados passaram a integrar a acusação apresentada pelo Ministério Público, que sustenta que o empresário assumiu o risco de provocar uma morte ao dirigir em velocidade excessiva e, segundo a Promotoria, após consumir bebidas alcoólicas.

Além da morte de Ornaldo, o acidente deixou gravemente ferido Marcus Vinicius Machado Rocha, estudante de medicina e amigo de Fernando, que ocupava o banco do passageiro do Porsche. Marcus sofreu fraturas em quatro costelas e precisou passar por uma cirurgia para retirada do baço. Ele sobreviveu, mas as consequências físicas do acidente também integram o processo criminal. Por esse motivo, Fernando responde por homicídio qualificado, na modalidade de dolo eventual, e por lesão corporal gravíssima.

A acusação será conduzida pelos promotores Rodolfo Morais e Lucas Schaef. O Ministério Público pretende demonstrar que as circunstâncias da colisão ultrapassaram uma situação de imprudência no trânsito e configuraram a aceitação consciente do risco de matar. Na terça-feira (27), os representantes da Promotoria manifestaram confiança na condenação. Rodolfo Morais afirmou que buscará uma pena superior a 20 anos, enquanto Lucas Schaef mencionou a possibilidade de uma condenação entre 15 e 20 anos, considerando a qualificadora e as consequências do crime.

Entre os elementos reunidos durante a investigação estão depoimentos de testemunhas, registros de câmeras de segurança e informações sobre o comportamento do empresário antes do acidente. Marcus Vinicius relatou à polícia e à Justiça que Fernando havia ingerido bebidas alcoólicas naquela noite. Os investigadores também obtiveram uma comanda que indicaria consumo de álcool pelo grupo e imagens em que o empresário aparece com a fala aparentemente alterada antes de entrar no veículo. Fernando, entretanto, negou ter consumido bebida alcoólica antes de dirigir.

A defesa do empresário sustenta que o acidente não foi provocado intencionalmente e busca a desclassificação da acusação para homicídio culposo, quando não existe intenção de matar. Os advogados contestam o enquadramento por dolo eventual e a qualificadora de perigo comum, argumentando que a conduta deve ser analisada como uma infração de trânsito com resultado morte. Em dezembro de 2025, a defesa apresentou um habeas corpus ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) solicitando a alteração da classificação jurídica, mas o pedido liminar foi negado.

Fernando está preso preventivamente desde 6 de maio de 2024. Durante esse período, a defesa apresentou sucessivos pedidos de liberdade, rejeitados pela Justiça. O empresário permanece custodiado em Potim, no interior paulista, e deverá comparecer presencialmente ao julgamento na capital. A manutenção da prisão preventiva não representa condenação antecipada, uma vez que a decisão sobre os crimes atribuídos a ele caberá ao Tribunal do Júri.

Outro desdobramento importante ocorreu poucos dias antes do julgamento. Na quinta-feira (22), a Justiça Militar recebeu uma denúncia contra os policiais militares Thiago Silva Batista e Daisy Aparecida Cardoso Romão, que participaram do atendimento à colisão. Segundo o Ministério Público, os agentes teriam descumprido procedimentos operacionais ao permitir que Fernando deixasse o local sem realizar o teste do bafômetro, apesar das suspeitas de que havia consumido bebida alcoólica.

A investigação sobre a atuação dos policiais aponta que a liberação do empresário teria prejudicado a coleta de elementos importantes para esclarecer as circunstâncias do acidente. Fernando deixou o local acompanhado da mãe e somente se apresentou à polícia aproximadamente 36 horas depois. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo reconheceu posteriormente que houve falhas no atendimento da ocorrência. Os dois policiais passaram à condição de réus na Justiça Militar, em um processo separado daquele que será julgado pelo Tribunal do Júri.

Uma das policiais envolvidas também tentou obter autorização para não comparecer ao julgamento como testemunha. A solicitação foi questionada pelo Ministério Público, que considerou seu depoimento importante para esclarecer os procedimentos adotados após o acidente. A Justiça determinou sua presença, preservando o direito de permanecer em silêncio diante de perguntas cujas respostas possam produzir provas contra ela no processo militar.

O julgamento deverá reunir depoimentos sobre as horas anteriores à colisão, a velocidade do Porsche, o possível consumo de bebida alcoólica e os procedimentos realizados após o acidente. A acusação buscará demonstrar a existência de dolo eventual, enquanto a defesa tentará convencer os jurados de que o caso deve receber enquadramento jurídico menos grave. Caso seja condenado, a pena será definida pela juíza de acordo com os veredictos e as regras de dosimetria previstas na legislação.

Para a família de Ornaldo da Silva Viana, o julgamento representa uma etapa decisiva do processo iniciado após sua morte, em março de 2024. O motorista de aplicativo perdeu a vida quando seu Renault Sandero foi atingido pelo Porsche conduzido por Fernando. Até as informações disponíveis na manhã desta quarta-feira (28), a sessão estava programada para começar às 10h, sem confirmação de sentença ou decisão dos jurados.

O Jornal A Notícia mantém o espaço aberto para manifestações da defesa de Fernando Sastre de Andrade Filho, bem como para eventuais esclarecimentos sobre os fatos apresentados nesta reportagem, respeitando o direito ao contraditório e à ampla defesa.

O empresário Fernando Sastre, que matou o motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana. — Foto: Reprodução G1

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