“FUI ELEITO O ASSASSINO DO ANO”: CORONEL DO VALE NEGA FEMINICÍDIO DE GISELE E QUESTIONA INVESTIGAÇÃO
O processo que apura a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ganhou novo destaque após o interrogatório do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 54 anos. Réu por feminicídio e fraude processual, o oficial voltou a negar que tenha matado a esposa, sustentou a versão de que ela teria tirado a própria vida e criticou a condução da investigação e a repercussão pública do caso.
O interrogatório aconteceu no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, e se estendeu por mais de oito horas. Durante a audiência, Rosa Neto respondeu a questionamentos da Justiça, apresentou sua versão para os fatos e contestou diversos pontos reunidos pela acusação ao longo da investigação.
Em um dos momentos mais marcantes do depoimento, o tenente-coronel afirmou que teria sido transformado no “assassino do ano”. A declaração foi feita ao comentar a exposição pública do caso e a forma como, segundo ele, sua imagem passou a ser associada diretamente à morte da esposa antes de uma decisão definitiva da Justiça.
Rosa Neto também alegou que sua trajetória de mais de 35 anos na Polícia Militar teria sido deixada de lado diante da repercussão das acusações. O oficial é natural de Taubaté e possui histórico de atuação profissional no Vale do Paraíba, incluindo passagem por São José dos Campos, onde também mantém residência.
A morte de Gisele aconteceu depois que ela foi atingida por um disparo na cabeça dentro do apartamento onde morava com o marido, no Brás, região central de São Paulo. A policial foi socorrida em estado grave e encaminhada ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu.
Desde o início do caso, uma das principais divergências entre acusação e defesa está na dinâmica do disparo. Rosa Neto insiste na versão de suicídio. A investigação, no entanto, passou a trabalhar com uma conclusão diferente após os exames periciais.
Um laudo complementar do Instituto de Criminalística manteve o entendimento técnico de que Gisele não poderia ter efetuado o disparo contra a própria cabeça. A conclusão passou a integrar o conjunto de elementos usados pela acusação e confronta diretamente a versão sustentada pelo tenente-coronel.
A defesa questiona a validade e a interpretação de partes da investigação. Durante o interrogatório, Rosa Neto levantou dúvidas sobre a preservação do apartamento, o tratamento dado aos celulares e mensagens trocadas pelo casal e a quantidade de profissionais que participaram dos procedimentos iniciais.
O oficial também fez críticas ao trabalho realizado pela Polícia Civil e pela perícia. A Polícia Civil, por sua vez, já havia defendido publicamente que a investigação foi conduzida de maneira técnica, independente e imparcial.
Durante a audiência, Rosa Neto negou ser ciumento, possessivo ou violento com Gisele. Em sua versão, afirmou que a esposa apresentava episódios de ciúme e agressividade e contestou relatos de familiares que descreviam problemas na relação entre o casal.
A família de Gisele rejeita essa narrativa. A representação jurídica dos familiares sustenta que os depoimentos e demais elementos reunidos no processo não confirmariam a descrição apresentada pelo réu sobre o comportamento da policial.
Ao longo do interrogatório, a juíza responsável pelo processo precisou interromper Rosa Neto em diferentes momentos para que ele respondesse diretamente às perguntas relacionadas à ação. Em uma das intervenções, a magistrada destacou que a audiência tratava das acusações formalizadas no processo e não das críticas divulgadas nas redes sociais.
Rosa Neto permanece preso preventivamente desde março no Presídio Militar Romão Gomes, na capital paulista. Durante o depoimento, relatou dificuldades desde a prisão e afirmou ter perdido peso, além de enfrentar problemas relacionados ao sono e à alimentação.
O tenente-coronel também declarou que recebe acompanhamento psicológico semanal e que participa de atividades religiosas dentro da unidade prisional. Esses relatos fazem parte da versão apresentada pelo próprio acusado durante o interrogatório.
Após a audiência, a defesa voltou a pedir a liberdade do oficial. O pedido, no entanto, não resultou na revogação imediata da prisão preventiva, e Rosa Neto continua detido enquanto o processo segue em andamento.
Além da acusação de feminicídio, o oficial responde por fraude processual. As imputações ainda serão analisadas no curso do processo, e a defesa nega que ele tenha cometido qualquer dos crimes.
O caso permanece em andamento e ainda não há condenação definitiva. Caberá ao Judiciário avaliar os laudos, depoimentos, provas técnicas e argumentos apresentados pelas partes para definir a responsabilidade criminal do tenente-coronel.

Foto Reprodução/UOL

