TRAGÉDIA NA ROMARIA: MOTORISTA QUE TRANSPORTAVA 48 PASSAGEIROS É SOLTO
A Justiça concedeu liberdade provisória ao motorista do ônibus que caiu em uma ribanceira e deixou seis romeiros mortos e outras 42 pessoas feridas na Rodovia Doutor Avelino Júnior (SP-52), em Cruzeiro. Lammounier Domingos Botelho Naves, de 38 anos, foi solto nesta segunda-feira (21), após passar por audiência de custódia.
O motorista havia sido preso em flagrante depois do acidente ocorrido na manhã de domingo (20). Ele foi autuado por homicídio culposo e lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, com agravante por exercer profissionalmente o transporte de passageiros.
A decisão estabelece que Lammounier deverá manter atualizado o endereço onde poderá ser encontrado e comparecer a todos os atos do inquérito e de um eventual processo para os quais for intimado.
A liberdade provisória não significa que o motorista foi absolvido, nem representa o encerramento da investigação. Ele continuará sendo apurado e poderá responder criminalmente caso o Ministério Público apresente denúncia e a acusação seja aceita pela Justiça.
Lammounier também seria proprietário da empresa responsável pelo ônibus. Ele conduzia o veículo que transportava 48 romeiros do distrito do Rosário, em Itumirim, no Sul de Minas, para o Santuário Nacional de Aparecida.
O grupo deixou Minas Gerais por volta das 22h de sábado (19). A viagem tinha aproximadamente 200 quilômetros e deveria terminar com a chegada dos passageiros à Basílica de Nossa Senhora Aparecida.
Por volta das 5h30 de domingo, o ônibus saiu da pista em um trecho de curva da SP-52, próximo à divisa entre São Paulo e Minas Gerais. O veículo despencou por uma ribanceira de aproximadamente 15 metros e parou em meio à vegetação.
Cinco pessoas morreram no local. Uma sexta vítima chegou a ser retirada com vida, mas não resistiu aos ferimentos. Outros 42 passageiros foram socorridos e encaminhados para unidades de saúde de Cruzeiro, Lorena e Guaratinguetá.
O motorista também ficou ferido e recebeu atendimento médico em Lorena. Após ser liberado pela equipe de saúde, ele foi levado à delegacia e teve a prisão em flagrante formalizada.
O teste do etilômetro realizado no condutor apresentou resultado negativo para o consumo de álcool. A ausência de embriaguez, entretanto, não encerrou a apuração sobre as condições do veículo e a maneira como o ônibus era conduzido.
Durante a avaliação inicial, a Polícia Civil identificou um pneu careca. O ônibus havia sido fabricado em 1995 e tinha aproximadamente 31 anos.
A idade do veículo, isoladamente, não comprova falta de segurança ou irregularidade. Ônibus antigos podem circular desde que sejam submetidos às inspeções exigidas e apresentem condições adequadas de manutenção e conservação.
A perícia deverá analisar o pneu, o sistema de freios, a transmissão, o tacógrafo e os demais componentes que possam ter contribuído para a perda de controle.
Marcas de frenagem também foram encontradas na pista. Os vestígios deverão ajudar os investigadores a reconstruir os últimos instantes antes da queda e verificar se o motorista tentou reduzir a velocidade ou parar o ônibus.
A Polícia Civil investiga a possibilidade de o veículo estar em velocidade inadequada para o trecho. Até o momento, porém, nenhum laudo pericial foi concluído para comprovar excesso de velocidade ou apontar definitivamente a causa do acidente.
A defesa sustenta que uma falha mecânica provocou a tragédia. Segundo o advogado, uma marcha teria apresentado problema e impedido o motorista de frear durante o trecho de serra.
Ainda conforme a defesa, os equipamentos de fiscalização eletrônica instalados antes do local da queda não registraram o ônibus trafegando acima do limite permitido.
A investigação deverá verificar se a velocidade mantida no momento da curva era compatível com as condições da pista, do veículo e daquele trecho da serra, independentemente dos registros feitos pelos radares anteriores.
Outro ponto apurado envolve a documentação necessária para o transporte interestadual. Segundo a Polícia Civil, o ônibus não possuía autorização válida da Agência Nacional de Transportes Terrestres para realizar a viagem entre Minas Gerais e São Paulo.
A defesa contesta a informação e afirma que o veículo estava regular, tinha autorização para transportar passageiros e atendia às normas da ANTT. Os documentos deverão ser confrontados com os registros oficiais da agência.
As seis pessoas que morreram foram identificadas como Sebastião Petronilho, de 74 anos; Jairo Antônio de Paula, de 47; Augusto Antônio de Lima, de 63; Ilza Nazaré Pereira Paulo, de 64; Evandro Carlos Garcia, de 46; e Alice Fátima Alves da Silva, de 14 anos.
Ilza era uma das responsáveis pela organização da romaria que saiu de Itumirim. Ela ajudava a reunir os participantes e a preparar a viagem até Aparecida.
Alice era a pessoa mais jovem entre os mortos. A identificação da adolescente e a divulgação de sua fotografia provocaram forte comoção entre familiares, amigos e moradores das cidades de origem dos romeiros.
A Polícia Civil deverá ouvir o motorista, sobreviventes e outras testemunhas. Os relatos poderão esclarecer se houve barulhos, dificuldade de frenagem ou sinais de defeito mecânico momentos antes da saída de pista.
Os laudos também deverão responder se o pneu careca influenciou a condução, se existiam falhas nos freios ou na transmissão, se o tacógrafo funcionava corretamente e se a velocidade era adequada.
Enquanto os exames são preparados, Lammounier responderá em liberdade, sujeito às medidas determinadas pela Justiça. Caso descumpra as obrigações impostas, a situação poderá ser reavaliada judicialmente.
A responsabilidade pelo acidente somente poderá ser definida após a conclusão do inquérito, a análise dos laudos e o eventual julgamento do caso.
Para as famílias, permanece a dor de uma viagem de fé que terminou em tragédia. Seis romeiros não chegaram ao destino e dezenas de sobreviventes carregam as marcas de uma manhã que mudou suas vidas.


