PIRATAS DO MAR: GRUPO USA JET SKI, FAZ REFÉNS POR 1H30 E EXIGE MAIS DE R$ 50 MIL EM PIX EM ANGRA
Uma lancha cercada em alto mar, criminosos armados chegando em um jet ski, passageiros mantidos sob ameaça durante cerca de uma hora e meia e mais de R$ 50 mil exigidos por meio de transferências bancárias. A sequência, que parece cena de filme, terminou com cinco pessoas presas em Angra dos Reis durante a chamada Operação Pirata, desencadeada pela Polícia Civil para desarticular um grupo suspeito de atacar embarcações de passeio na Baía da Ilha Grande e em pontos da costa da região.
O episódio mais recente aconteceu na quarta-feira (19), nas proximidades da Praia do Laboratório. Segundo a Polícia Civil, homens armados com revólver e pistola se aproximaram de uma lancha utilizando uma moto aquática e renderam os ocupantes.
Dentro da embarcação estava, inclusive, um bebê de apenas seis meses.
Mesmo com a presença da criança, segundo a investigação, as vítimas permaneceram sob ameaça por aproximadamente uma hora e meia enquanto os criminosos recolhiam joias, telefones celulares e obrigavam os ocupantes a realizar transferências via PIX. Somados, os valores ultrapassaram R$ 50 mil.
A ação mobilizou investigadores da 166ª Delegacia de Polícia de Angra dos Reis. Um dos celulares roubados acabou se tornando uma das principais pistas para a identificação do grupo.
Por meio do rastreamento do aparelho, os policiais passaram a acompanhar a movimentação dos suspeitos e cruzaram as informações obtidas com dados relacionados à venda das joias roubadas e aos saques bancários realizados posteriormente no Centro de Angra.
O trabalho de inteligência avançou rapidamente.
Na quinta-feira (20), menos de 24 horas depois do assalto à lancha, a Polícia Civil realizou a Operação Pirata com apoio do 33º Batalhão da Polícia Militar e de agentes municipais de segurança. Cinco pessoas acabaram presas.
Segundo a investigação, dois jovens de 22 anos seriam os responsáveis pela abordagem direta às embarcações.
Um deles, identificado pela polícia como Marcos Vitor dos Santos Avelar, é apontado como executor e possível liderança operacional do grupo. Conforme a Polícia Civil, ele teria participado diretamente da invasão da lancha, ameaçado as vítimas, articulado contas bancárias utilizadas para receber o dinheiro e participado da negociação das joias roubadas.
A prisão não teria ocorrido sem resistência. De acordo com a corporação, Marcos tentou fugir a pé durante uma abordagem no Centro de Angra dos Reis e entrou em luta corporal com um policial civil antes de ser contido.
O segundo suspeito apontado como executor é Kauan Luccas Tavares da Conceição, também de 22 anos. Segundo a 166ª DP, ele seria responsável por pilotar o jet ski utilizado pelos criminosos para chegar até a embarcação e fugir após o roubo.
A Polícia Civil afirma ainda que Kauan teria participado das ameaças contra os ocupantes utilizando uma arma de fogo e atuado na retirada dos pertences e na exigência das transferências bancárias.
A investigação não parou nos homens que teriam entrado diretamente na lancha.
Um terceiro jovem, Gabriel Carreira da Silva, de 21 anos, é apontado pela polícia como responsável por esconder a arma utilizada no crime após a fuga dos executores.
Segundo os investigadores, Gabriel recebeu o revólver usado durante o assalto e o escondeu em um buraco no muro de sua própria residência, supostamente a pedido de Marcos, numa tentativa de ocultar uma das principais provas materiais do crime.
Os agentes localizaram o esconderijo e apreenderam o revólver.
Outro suspeito preso foi Wesley dos Santos Pacheco de Oliveira, de 21 anos. Conforme a Polícia Civil, ele teria disponibilizado sua própria conta bancária para receber parte dos valores transferidos pelas vítimas durante o roubo.
A investigação aponta que Wesley teria feito isso mediante promessa de receber uma compensação financeira. Ele também teria acompanhado Marcos, que segundo a polícia é seu irmão, até um estabelecimento de compra e venda de ouro e posteriormente até uma agência bancária para realização de saques.
A quinta prisão chegou à etapa de comercialização das joias.
Maria Aparecida Moreira de Alencar, de 58 anos, funcionária de uma loja especializada na compra e venda de ouro no Centro de Angra, é apontada pela Polícia Civil como a pessoa que teria comprado alianças roubadas das vítimas por aproximadamente R$ 3,1 mil.
Durante o depoimento, segundo a corporação, surgiu uma informação ainda mais importante para a investigação.
A mulher teria admitido que já havia comprado do mesmo grupo, em outra ocasião, joias avaliadas em aproximadamente R$ 16 mil, provenientes de outro roubo.
Esse elemento fortaleceu a suspeita dos investigadores de que o assalto ocorrido na quarta-feira não teria sido uma ação isolada.
A Polícia Civil afirma ter identificado o mesmo modo de atuação em um crime registrado no dia 21 de julho. O grupo estaria utilizando motos aquáticas para se aproximar rapidamente de embarcações na Baía da Ilha Grande, render os passageiros e fugir pelo mar depois de levar objetos de valor e dinheiro.
A partir dessa constatação, os investigadores passaram a trabalhar com a possibilidade de uma estrutura criminosa voltada especificamente para roubos contra barcos, turistas, empresários e trabalhadores que circulam entre o continente e as ilhas da região.
Uma prisão realizada na quinta-feira também contou com o auxílio de ferramentas tecnológicas. Um suspeito ligado à quadrilha foi identificado por meio de sistema de inteligência facial integrado às câmeras de monitoramento de Angra dos Reis. Após o reconhecimento, policiais localizaram o homem nas proximidades de uma agência bancária na Avenida Júlio Maria, no Centro. Segundo a polícia, ele tentou fugir, mas foi alcançado e preso.
O delegado Roberto Ramos, responsável pela investigação, afirmou que a operação conseguiu atingir diferentes partes da suposta estrutura criminosa, desde aqueles apontados como executores dos assaltos até pessoas suspeitas de receber ou negociar os bens roubados.
Com o avanço da apuração, a Polícia Civil passou a individualizar a conduta atribuída a cada preso.
Segundo as informações divulgadas pela corporação, Marcos é investigado por roubo majorado pelo concurso de pessoas, emprego de arma de fogo e restrição da liberdade das vítimas, além de resistência e associação criminosa. Kauan também é apontado como participante do roubo majorado e da associação criminosa.
Gabriel é investigado pela participação relacionada ao crime e à ocultação da arma utilizada no assalto. Wesley é apontado em investigação relacionada à receptação, enquanto Maria Aparecida responde, segundo a Polícia Civil, por receptação qualificada.
As classificações ainda serão submetidas ao andamento da investigação e ao Poder Judiciário. A prisão e o indiciamento não representam condenação definitiva, e todos os investigados têm direito à defesa.
A 166ª DP pediu à Justiça a conversão das prisões em flagrante de Marcos, Kauan e Gabriel em prisões preventivas. Até a atualização mais recente, não havia confirmação pública sobre uma decisão judicial definitiva relacionada a todos esses pedidos.
A operação também deverá tentar responder quantos roubos podem ter sido praticados pelo grupo.
Os investigadores pretendem comparar ocorrências anteriores registradas na Baía da Ilha Grande e em outras áreas costeiras de Angra para verificar se apresentam características semelhantes, principalmente o uso de motos aquáticas, abordagem de embarcações e exigência de transferências bancárias.
A recuperação e análise dos celulares apreendidos, movimentações bancárias, câmeras de monitoramento e registros das negociações envolvendo joias também poderão ajudar a Polícia Civil a identificar outros participantes ou receptadores.
No assalto que desencadeou a resposta mais recente da polícia, as vítimas ficaram cerca de uma hora e meia sob domínio dos criminosos em pleno mar, com armas apontadas e um bebê de seis meses dentro da embarcação. Além dos objetos levados, mais de R$ 50 mil deixaram as contas das vítimas por meio de PIX.
Menos de um dia depois, o rastreamento de um dos celulares roubados começou a revelar o caminho percorrido pelos bens e pelo dinheiro. A investigação chegou a contas bancárias, uma loja de ouro, uma arma escondida em um muro e aos suspeitos apontados como responsáveis pela abordagem de jet ski.
Agora, a Polícia Civil trabalha para descobrir se a chamada Operação Pirata encerrou apenas um capítulo ou se ainda existem outros integrantes e novos ataques ligados ao mesmo grupo na região de Angra dos Reis.


