O RISO SE DESPEDE: MORRE AOS 60 ANOS CARLOS CESARE, O INESQUECÍVEL PALHAÇO EUGÊNIO DE SÃO JOSÉ
São José dos Campos se despede de um artista que passou mais de quatro décadas transformando teatro, música, objetos, bonecos e a própria expressão corporal em diversão e imaginação. Morreu aos 60 anos Carlos José Cesare, ator que ganhou especialmente o carinho do público como Palhaço Eugênio, também conhecido como Eugênio Garnizé. A notícia da morte provocou manifestações de pesar no meio cultural joseense nesta segunda feira, 17 de agosto.
Carlos Cesare construiu uma trajetória artística que ultrapassou os limites da palhaçaria. Ator, diretor, autor, artista plástico, bonequeiro, professor, cantor e locutor estão entre as atividades associadas a uma carreira de mais de 40 anos. Nos últimos anos, sua presença era especialmente conhecida nos projetos e espaços culturais de São José dos Campos, onde levava o personagem Eugênio para teatros, praças, escolas e apresentações abertas ao público.
A Fundação Cultural Cassiano Ricardo lamentou a morte e destacou a importância da trajetória construída pelo artista. Carlos integrava o projeto Arte nas Ruas, iniciativa que leva diferentes linguagens artísticas para espaços públicos de São José dos Campos. Registros da própria Prefeitura mostram sua participação no projeto ao longo dos anos, inclusive em apresentações de palhaçaria realizadas em programações culturais promovidas pela Fundação.
Para muita gente, porém, falar em Carlos Cesare é lembrar imediatamente do Palhaço Eugênio. O personagem se tornou uma das marcas de sua carreira e misturava humor, pantomima, mágica, dança, música clássica, manipulação de objetos e situações construídas a partir do nonsense. Não era uma palhaçaria baseada apenas na fala. A expressão corporal, os objetos e a participação do público ajudavam a conduzir os espetáculos.
Uma das montagens mais representativas dessa fase era “Armazém do Eugênio”. O espetáculo tinha dramaturgia, atuação e direção musical assinadas pelo próprio Carlos Cesare. A montagem apresentava Eugênio transformando objetos e situações simples em diferentes personagens e cenas, passando por números envolvendo um náufrago, animais, mágicos e brincadeiras visuais. A direção e coreografia originais eram de Bebê de Soares, em 2004, e o trabalho foi remontado por Carlos em 2023.
O personagem também era apresentado no “Show do Eugênio”, espetáculo com aproximadamente uma hora de duração e classificação livre. Em março deste ano, Carlos esteve entre os artistas da programação da Semana do Teatro de São José dos Campos, realizada no Centro de Estudos Teatrais. Na ocasião, a programação oficial descreveu o trabalho como uma apresentação baseada praticamente toda em pantomima, expressão, movimentos, mágica e manipulação de objetos.
Carlos também manteve forte ligação com o Grupo Boneco Vivo. No espetáculo “A Fabulosa Caravana de Seu Malaquias”, participou como ator e brincante e também assinou figurinos. A montagem, inspirada nos antigos circos que percorriam cidades do interior, utilizava teatro de mamulengos, música, humor, mágicas, encantamento de cobras e brincadeiras populares.
Mas a história de Carlos Cesare não ficou restrita à cena cultural do Vale do Paraíba. Décadas antes de o público joseense se acostumar a encontrar o Palhaço Eugênio pelas ruas, praças e teatros, ele viveu uma fase de grande visibilidade na televisão brasileira.
Em 1986, após a saída de Pablo do programa “Qual É a Música?”, do SBT, Silvio Santos escolheu Carlos Cesare para ocupar o espaço deixado pelo artista. Carlos tinha cerca de 20 anos e havia chamado atenção anteriormente ao conquistar um prêmio no “Show de Calouros”. A partir dali, permaneceu aproximadamente quatro anos no programa comandado por Silvio Santos.
Em entrevista publicada anos depois pelo UOL, Carlos recordou que Silvio Santos se divertia com o fato de ambos terem nascido no mesmo dia, 12 de dezembro. Sua passagem pelo programa acabou fazendo com que fosse reconhecido durante muito tempo como um dos artistas ligados à fase clássica do “Qual É a Música?”.
Depois da atração, recebeu convite para participar do júri de outros programas do SBT, mas acabou seguindo novos caminhos profissionais. Carlos passou a dedicar cada vez mais espaço ao teatro e às apresentações para o público infantil. Ao longo dessa trajetória, trabalhou em peças com artistas como Sergio Mamberti e Domingos Montagner e posteriormente também voltou a aparecer na televisão no quadro “Se Vira nos 30”, do “Domingão do Faustão”.
De volta a São José dos Campos, sua cidade natal, consolidou a carreira como professor de teatro, ator e palhaço. Foi nessa fase que Eugênio Garnizé ganhou ainda mais espaço e se tornou presença conhecida na programação cultural da cidade.
A relação de Carlos com a comunidade também ultrapassava os palcos. A Defesa Civil de São José dos Campos publicou homenagem lembrando a participação do artista em ações sociais, principalmente festas e iniciativas de Natal voltadas às crianças. O órgão agradeceu os momentos de carinho e alegria proporcionados pelo palhaço durante essas atividades.
Nas horas que antecederam a notícia de sua morte, as redes sociais do personagem ainda carregavam a rotina de quem seguia trabalhando e divulgando arte. Carlos havia anunciado uma apresentação do “Show do Eugênio”, marcada para as 21h no Centro de Estudos Teatrais, junto ao Parque da Cidade, em São José dos Campos.
A informação sobre a data exata da morte apresenta uma pequena divergência entre as primeiras publicações. OVALE informou que Carlos morreu nesta segunda feira, 17 de agosto, enquanto a CBN Vale publicou que a morte teria ocorrido no domingo, dia 16. O falecimento, entretanto, foi confirmado e as homenagens começaram a se multiplicar nesta segunda.
Até o momento, a causa da morte não foi informada publicamente. Carlos Cesare tinha 60 anos. O velório foi marcado para esta segunda feira, das 11h às 16h, na sala 3 da Urbam, em São José dos Campos. O sepultamento está previsto para as 16h, no Cemitério Municipal Padre Rodolfo Komorek.


