TENENTE DE CRUZEIRO BALEADO: POLÍCIA APURA SE TIRO PARTIU DE OUTROS PMs
A ocorrência que deixou gravemente ferido o tenente Lucas Miguel Vieira Ferraz, de 31 anos, morador de Cruzeiro e integrante do 23º Batalhão de Polícia Militar do Interior, ganhou novos contornos e passou a ser investigada sob uma hipótese diferente da apresentada inicialmente. A Polícia Civil apura se o disparo que atingiu o oficial na região do tórax pode ter partido de outros policiais militares que participavam da mesma ação, todos à paisana, na noite de sábado, 15 de agosto, em Potim.
O caso aconteceu na Travessa Irineu Alves e, nas primeiras horas após os disparos, chegou a ser tratado como uma possível troca de tiros durante uma abordagem. Com o avanço da apuração, entretanto, os elementos reunidos no boletim de ocorrência levantaram dúvidas sobre quem efetivamente efetuou os tiros e abriram a possibilidade de que o tenente tenha sido atingido por disparos feitos por outros PMs que estavam com ele.
Lucas Ferraz estava de folga no momento da ocorrência. Segundo as informações apuradas, ele e outros dois policiais militares estavam à paisana e utilizavam um Fiat Uno particular, e não uma viatura oficial. O automóvel pertence à irmã de um dos policiais envolvidos e passou a ter importância na investigação depois de ser identificado nas imagens de câmeras de segurança.
As gravações mostram o Fiat Uno circulando pela Travessa Irineu Alves por volta das 22h14. Em determinado momento, o veículo para e homens desembarcam. Na sequência, são registrados diversos disparos. Toda a movimentação, desde a parada do carro até os tiros e a saída do local, teria ocorrido em aproximadamente 16 segundos.
Durante a ocorrência, o tenente Lucas foi atingido na região do peito. Ele recebeu atendimento e foi encaminhado em estado grave para uma unidade de saúde em Guaratinguetá. Informações iniciais apontaram que o policial estava consciente e orientado durante o primeiro atendimento, mas a gravidade do ferimento exigiu cuidados médicos especializados.
Além do tenente, um homem de 30 anos também foi baleado. Ele sofreu um ferimento no pé e foi levado ao Pronto Socorro da Santa Casa de Aparecida. O homem foi ouvido pelas autoridades e apresentou uma versão diferente daquela que circulou nas primeiras informações sobre o caso.
Em depoimento, ele afirmou que havia saído de casa para comprar um maço de cigarros quando, próximo à saída de um beco, um Fiat Uno ocupado por três homens parou. Segundo sua versão, um dos ocupantes teria descido armado, efetuado disparos e ordenado que ele não corresse.
O homem relatou que decidiu fugir pelo beco e acabou caindo após ser atingido no pé. Ainda de acordo com seu depoimento, ele ouviu os homens gritarem que alguém havia sido baleado. Ele também mencionou a presença de uma motocicleta no local, embora esse veículo não apareça nas imagens de segurança analisadas pela Polícia Civil.
Outro elemento considerado relevante pela investigação é o resultado de um exame residuográfico realizado no homem baleado. Segundo as informações registradas no boletim de ocorrência e reproduzidas pela imprensa, o teste não apontou presença de resíduos de disparo.
O resultado, por si só, não encerra a investigação, mas passou a integrar o conjunto de elementos que estão sendo analisados pela Polícia Civil para esclarecer quem realizou os disparos e em que circunstâncias o tenente de Cruzeiro foi atingido.
O Fiat Uno utilizado pelos policiais também foi localizado posteriormente em Guaratinguetá. A proprietária do veículo foi chamada para prestar esclarecimentos e confirmou que o carro estava na posse do irmão, um dos policiais militares envolvidos na ocorrência.
Segundo o depoimento da mulher, o irmão utilizava o automóvel para se deslocar ao trabalho naquela noite. Depois dos tiros, ele teria entrado em contato e pedido que ela retirasse o carro do local onde estava estacionado, próximo à base da Polícia Militar em Potim.
A justificativa apresentada teria sido o receio de que objetos deixados dentro do veículo fossem furtados. A proprietária afirmou que, naquele momento, ainda não sabia exatamente o que havia acontecido e que posteriormente tomou conhecimento da necessidade de o automóvel passar por perícia.
O veículo deverá ser analisado tecnicamente para verificar se possui vestígios capazes de ajudar na reconstrução da ocorrência. A investigação também deverá confrontar as imagens das câmeras, a posição dos envolvidos, possíveis trajetórias de projéteis, exames periciais e demais elementos recolhidos.
Outro ponto que chamou atenção durante os procedimentos realizados na delegacia foi a decisão de dois dos policiais envolvidos de não prestarem declarações naquele momento. A Polícia Civil deverá continuar buscando esclarecimentos sobre a atuação de cada um deles e sobre a sequência exata dos disparos.
As primeiras informações divulgadas após o caso indicavam que Lucas teria sido baleado durante uma troca de tiros em uma abordagem. Com o avanço da apuração, essa versão deixou de ser tratada como definitiva e a hipótese de que o disparo possa ter partido de outro policial passou a ser analisada.
Até esta segunda feira, 17 de agosto, a Polícia Civil não havia confirmado oficialmente quem efetuou o tiro que atingiu o tenente. Também não havia conclusão pericial que permitisse afirmar que houve fogo amigo.
A ocorrência foi registrada na Delegacia de Guaratinguetá como tentativa de homicídio e lesão corporal. Os investigadores agora tentam esclarecer quem realizou os disparos, qual foi a participação de cada pessoa envolvida e em quais circunstâncias a abordagem ocorreu.
Lucas Miguel Vieira Ferraz, de 31 anos, é morador de Cruzeiro e integra o 23º BPM/I. O fato de o policial ser da cidade aumentou a repercussão do caso na região, enquanto familiares, amigos e colegas acompanham as informações sobre seu estado de saúde e o andamento das investigações.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo também foi procurada por veículos de imprensa para esclarecer a atuação dos policiais militares envolvidos e informar se existe apuração interna paralela. Até as informações públicas disponíveis, ainda não havia manifestação detalhada sobre essa nova linha investigativa.
O caso segue cercado de perguntas. A principal delas é justamente a que agora está no centro da investigação: quem efetuou o disparo que atingiu o tenente de Cruzeiro? A resposta dependerá da perícia, das imagens, dos depoimentos e do cruzamento de todos os vestígios reunidos pela Polícia Civil.
Até que esses procedimentos sejam concluídos, a possibilidade de o tiro ter partido de outro PM permanece apenas como hipótese investigada pelas autoridades.


