Segunda-feira, Junho 8, 2026
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“É UM ASSASSINO”: PAI DE MARCO AURÉLIO ACUSA CHEFE DOS ESCOTEIROS APÓS 41 ANOS DE MISTÉRIO NO PICO DOS MARINS


Depois de 41 anos de dor, silêncio e perguntas sem resposta, o desaparecimento de Marco Aurélio Simon voltou a ganhar força com uma acusação direta e pesada feita por seu pai, Ivo Simon. O escoteiro desapareceu aos 15 anos, em 8 de junho de 1985, durante uma excursão ao Pico dos Marins, em Piquete, e nunca mais foi encontrado. Agora, mais de quatro décadas depois, Ivo acusa publicamente Juan Bernabeu Céspede, então chefe do Grupo Escoteiro Olivetano, de ter responsabilidade pela morte do filho.

A frase dita pelo pai resume a revolta de uma família que atravessou uma vida inteira sem respostas: “É um assassino”. A declaração marca um novo capítulo em um dos casos mais misteriosos do país, que permanece cercado por versões, falhas, suspeitas e ausência de provas conclusivas. Para Ivo, os acontecimentos daquele dia não foram resultado apenas de erros em uma expedição, mas de uma sequência de decisões que, segundo ele, levantam suspeitas graves contra o chefe dos escoteiros.

Marco Aurélio partiu com outros três adolescentes e com Juan para tentar chegar ao cume do Pico dos Marins, a 2.420 metros de altitude. Durante o trajeto, por volta das 14h, um dos garotos torceu o pé quando o grupo estava a aproximadamente 1.700 metros. Foi nesse momento que Marco Aurélio teria sido autorizado a descer sozinho a montanha para pedir ajuda, enquanto os demais permaneceram com o jovem ferido.

O grupo acabou se perdendo e só retornou ao acampamento na madrugada de domingo, por volta das 5h. Ao chegar ao local, encontrou a mochila de Marco Aurélio fora da barraca e revirada. O adolescente, porém, havia desaparecido. Desde então, nenhuma pista concreta sobre seu paradeiro foi encontrada. Nem corpo, nem vestígios, nem uma resposta capaz de encerrar a angústia da família.

Para Ivo Simon, a decisão de permitir que o filho descesse sozinho a montanha foi o primeiro grande erro. Ele afirma que normas básicas de segurança em atividades desse tipo impedem que adolescentes sejam separados do grupo em área de risco. Também sustenta que uma expedição com menores deveria contar com mais de um adulto responsável, justamente para evitar que uma situação de emergência deixasse os jovens sem apoio adequado.

O pai também questiona a conduta adotada após o retorno ao acampamento. Segundo ele, ao encontrar os pertences de Marco Aurélio revirados e perceber que o adolescente não estava no local, o chefe dos escoteiros teria decidido refazer a trilha sozinho em vez de buscar imediatamente auxílio de um guia local experiente, conhecido como seu Afonso, que conhecia a região. Para Ivo, essa sequência de decisões não pode ser vista como simples acidente.

A acusação feita por Ivo vai além da negligência. Ele afirma acreditar que os erros teriam sido premeditados e sustenta a hipótese de que Marco Aurélio teria sido vítima de uma ação criminosa. Segundo o pai, os indícios acumulados ao longo dos anos apontariam para uma responsabilidade direta do chefe dos escoteiros no desaparecimento do filho.

Apesar da força da declaração, Juan Bernabeu Céspede não foi condenado pelo caso. Ele foi investigado à época, mas não foi indiciado. O inquérito foi arquivado em abril de 1990, após anos de investigação sem que qualquer vestígio de Marco Aurélio fosse encontrado. Mais recentemente, o caso foi reaberto pela Polícia Civil, reacendendo a esperança da família por uma resposta oficial.

Juan, que atualmente vive em Manaus, evita falar publicamente sobre o desaparecimento. Ao ser procurado, preferiu não comentar as declarações feitas por Ivo. O espaço segue aberto para manifestação da defesa ou do citado, caso queira se pronunciar sobre as acusações.

Em um manuscrito escrito por ele sobre o episódio, ainda não publicado, o ex-chefe escoteiro nega envolvimento no desaparecimento de Marco Aurélio e sustenta que a expedição havia sido planejada durante cerca de um ano. Ele também afirma que os jovens tinham treinamento compatível com atividades de campo e montanha.

No relato escrito, Juan descreve os preparativos da viagem, a convivência entre os escoteiros e o percurso pela Serra da Mantiqueira. Para ele, o desaparecimento de Marco Aurélio teria ocorrido de forma inexplicável, sem relação com qualquer ação criminosa praticada por sua parte. A versão, no entanto, nunca convenceu Ivo, que passou 41 anos investigando, reunindo informações e buscando qualquer pista sobre o destino do filho.

Ao longo das décadas, o caso Marco Aurélio se transformou em uma das histórias mais enigmáticas do Brasil. Teorias surgiram em diferentes direções: queda em fenda, morte na montanha, saída viva do local, sequestro, ação de terceiros, envolvimento de pessoas da região e até hipóteses fantasiosas. Nenhuma delas, porém, foi capaz de apontar com segurança o que aconteceu com o adolescente.

A dor de Ivo Simon se tornou uma vigília permanente. Aos 87 anos, ele ainda carrega a incerteza como uma ferida aberta. Para o pai, não saber onde está Marco Aurélio é uma tortura que atravessou toda a família. A recente morte da filha Patrícia agravou ainda mais esse sofrimento, somando outra perda a uma história marcada por ausência e espera.

O Pico dos Marins, conhecido pela beleza e pelo desafio de suas trilhas, passou também a carregar o peso desse desaparecimento. Para muitos, é uma montanha. Para a família Simon, tornou-se o lugar onde um filho desapareceu sem deixar rastro e onde uma pergunta segue ecoando há mais de quatro décadas: o que aconteceu com Marco Aurélio?

Com a acusação direta feita por Ivo, o caso ganha novo impacto público. A Polícia Civil deverá seguir com a apuração reaberta, enquanto a família mantém viva a busca por uma resposta. Depois de 41 anos, a declaração do pai recoloca o chefe dos escoteiros no centro das suspeitas, embora não exista condenação judicial contra ele.

A acusação de Ivo Simon contra Juan Bernabeu Céspede foi feita em entrevista ao OVALE. O espaço permanece aberto para manifestação da defesa ou do citado.

Escoteiro Marco Aurélio Simon desapareceu aos 15 anos em 1985 no Pico dos Marins em Piquete (SP) — Foto: Arquivo pessoal

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