Quarta-feira, Maio 20, 2026
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MORRE EM UBATUBA WALDIRENE NOGUEIRA, PIONEIRA TRANS QUE FEZ HISTÓRIA NO BRASIL

Morreu nesta terça-feira, dia 19, em Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo, Waldirene Nogueira, aos 80 anos. Natural de Lins, ela ficou marcada na história do país por ter sido a primeira mulher trans do Brasil a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, em um período em que o tema ainda era cercado por preconceito, silêncio, criminalização e profunda falta de reconhecimento. A causa da morte foi insuficiência respiratória aguda, segundo informações confirmadas pela família.

A trajetória de Waldirene ultrapassa a história pessoal e se confunde com a luta por dignidade, identidade e direitos da população trans no Brasil. Nascida em 1945 e registrada ao nascer como Waldir Nogueira, ela iniciou acompanhamento médico em 1969, no Hospital das Clínicas de São Paulo, com a endocrinologista Dorina Epps. Depois de dois anos de avaliações médicas e psicológicas, recebeu o laudo que reconhecia sua transexualidade, algo extremamente raro para a época.

A cirurgia de redesignação sexual foi realizada em dezembro de 1971, no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, pelo cirurgião plástico Roberto Farina. O procedimento é considerado o primeiro do tipo realizado no Brasil. O que poderia ter sido um marco de avanço médico e humano, no entanto, se transformou também em uma longa batalha judicial. Ao tentar alterar seus documentos, Waldirene viu o próprio médico que realizou o procedimento ser condenado a dois anos de reclusão por lesão corporal gravíssima.

Em 1976, Waldirene foi levada de forma coercitiva ao Instituto Médico Legal, onde passou por exames invasivos e foi fotografada nua. Mesmo diante de um processo doloroso e de grande exposição, ela atuou em defesa do cirurgião Roberto Farina, reunindo cartas de apoio de autoridades e familiares. Sua história revela o peso enfrentado por pessoas trans em uma época em que existir de acordo com a própria identidade era tratado como desafio à ordem social e jurídica.

Por décadas, Waldirene permaneceu registrada oficialmente com o nome de nascimento. O pedido de alteração foi negado inicialmente, e a retificação na certidão só ocorreu em 2010, quando ela já tinha 65 anos. O novo RG foi emitido em 2011, encerrando uma espera que atravessou boa parte de sua vida. A conquista tardia simbolizou não apenas uma vitória pessoal, mas também a dimensão da resistência de uma mulher que precisou lutar para ter reconhecido, nos documentos, aquilo que sempre foi em sua existência.

Formada em contabilidade, Waldirene nunca exerceu a profissão por causa da divergência entre sua identidade e os documentos civis. Ao longo da vida, trabalhou como manicure e manteve uma rotina discreta. Nos últimos anos, vivia acamada em Ubatuba, sob os cuidados de um dos irmãos, conforme relatou a sobrinha Alessandra Cotrim.

De acordo com a funerária responsável, o corpo de Waldirene será levado para Lins, sua cidade natal, onde será velado na manhã desta quarta-feira, dia 20, a partir das 7h. O sepultamento está previsto para as 17h, no Cemitério da Saudade.

A morte de Waldirene Nogueira encerra uma vida marcada por coragem, enfrentamento e pioneirismo. Ela partiu em Ubatuba, mas deixa uma história que atravessa gerações e permanece como referência na luta por reconhecimento, respeito e direitos da população trans no Brasil. Seu nome fica ligado a um capítulo decisivo da história brasileira, não apenas por ter sido a primeira, mas por ter resistido quando quase ninguém podia falar, existir e ser reconhecido como realmente era.

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