Domingo, Maio 17, 2026
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URNAS ELETRÔNICAS: TECNOLOGIA NASCIDA NO VALE COMPLETA 30 ANOS ENTRE ORGULHO NACIONAL E ATAQUES

A urna eletrônica brasileira completa 30 anos carregando uma história que começou com a força da ciência, da tecnologia e da inteligência produzida no Vale do Paraíba. Criado com participação decisiva de pesquisadores ligados ao Inpe, ao ITA e ao antigo CTA, atual DCTA, todos de São José dos Campos, o equipamento que mudou para sempre a forma de votar no país se consolidou como símbolo da modernização eleitoral brasileira. Ao mesmo tempo, três décadas depois, também se tornou alvo de ataques políticos, suspeitas sem comprovação e campanhas de desinformação que tentam colocar em dúvida a segurança do processo eleitoral.

A ideia de mecanizar o voto no Brasil é antiga e já aparecia no Código Eleitoral de 1932, mas foi apenas no fim dos anos 1980 que o projeto começou a ganhar força, com a informatização do cadastro nacional de eleitores. O passo decisivo ocorreu em 1995, durante a gestão do ministro Carlos Velloso na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, quando especialistas de várias áreas foram convocados para desenvolver o chamado Coletor Eletrônico de Votos, o CEV, considerado o embrião da urna eletrônica utilizada atualmente.

Nesse processo, São José dos Campos teve papel de protagonista. Pesquisadores do Vale do Paraíba participaram diretamente da criação da tecnologia, em um grupo que ficou conhecido nos bastidores como “os ninjas”. Entre eles estavam Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Giuseppe Janino, Oswaldo Catsumi e Antônio Ésio Salgado, o Toné, professor do Departamento de Informática da Unitau e pesquisador ligado ao Inpe. A missão exigia conhecimento técnico, domínio de comunicação de dados, segurança digital e compreensão das necessidades da Justiça Eleitoral.

Toné relembrou que o Inpe já atuava em parceria com o TSE antes mesmo da criação da urna eletrônica, dentro de um projeto voltado à melhoria do sistema informatizado da Justiça Eleitoral. A equipe ajudava na comunicação de dados e na especificação de equipamentos, construindo uma base tecnológica que seria fundamental para a mudança histórica no processo de votação. O trabalho realizado por esses pesquisadores abriu caminho para uma solução brasileira, criada para responder a problemas que há décadas afetavam a confiança nas eleições.

Antes da urna eletrônica, o processo eleitoral era marcado por demora, desorganização e suspeitas constantes. A apuração manual podia levar dias ou até semanas, principalmente em grandes centros urbanos. Cédulas rasuradas, votos desaparecidos, erros na contagem e problemas envolvendo urnas de lona faziam parte de um cenário que alimentava questionamentos e desgastava a credibilidade do sistema. A chegada da urna eletrônica representou uma ruptura com esse passado, reduzindo a interferência humana na totalização dos votos e permitindo resultados em poucas horas.

A primeira eleição com urnas eletrônicas ocorreu em 1996. Naquele ano, cerca de 32 milhões de brasileiros votaram utilizando aproximadamente 70 mil equipamentos distribuídos em 57 cidades do país. A operação foi considerada um grande desafio logístico e contou até com apoio da Força Aérea Brasileira para garantir que os equipamentos chegassem aos locais de votação dentro do prazo. A partir daquele momento, o Brasil começou a construir um novo modelo eleitoral, baseado em rapidez, informatização e maior controle sobre as etapas de votação e apuração.

Ao longo das últimas três décadas, a urna passou por sucessivos processos de modernização. Embora mantenha aparência parecida para o eleitor, o equipamento foi atualizado internamente para acompanhar novas exigências de segurança. O sistema eleitoral brasileiro conta atualmente com cerca de 30 camadas de proteção, incluindo criptografia, assinaturas digitais, rastreabilidade de arquivos e mecanismos físicos e digitais de defesa. A evolução constante é uma das respostas da Justiça Eleitoral aos desafios técnicos e às tentativas de ataque ao sistema.

Mesmo com esse histórico de desenvolvimento, a urna eletrônica passou a ocupar o centro de uma disputa marcada pela desinformação. Pesquisa do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, aponta que mais de 45% dos conteúdos falsos sobre eleições compartilhados nos últimos ciclos eleitorais tinham como alvo o funcionamento das urnas eletrônicas. Para Toné, é preciso diferenciar os questionamentos técnicos feitos por especialistas, que contribuem para o aperfeiçoamento do sistema, dos ataques feitos por pessoas que desconhecem o funcionamento completo do processo eleitoral brasileiro.

Entre os mecanismos de fiscalização estão o Teste Público de Segurança, o Teste de Integridade das Urnas, a cerimônia de lacração dos sistemas e auditorias acompanhadas por partidos políticos, Ministério Público, Polícia Federal, OAB e universidades. Esses procedimentos ajudam a garantir transparência, rastreabilidade e controle sobre as etapas do processo eleitoral, funcionando como barreiras contra fraudes e como instrumentos de verificação pública.

O debate sobre o voto impresso também acompanha a trajetória da urna eletrônica. Toné afirma que o equipamento está preparado para esse tipo de adaptação, mas questiona a utilidade prática da medida. Para ele, contar votos impressos para conferir o resultado eletrônico representaria uma regressão em um país que já digitalizou bancos, serviços públicos, comércio e grande parte das atividades cotidianas. Na avaliação do pesquisador, o caminho mais importante é ampliar o conhecimento da população sobre as formas de fiscalização e auditoria já existentes.

Nas eleições municipais de 2024, mais de 153 milhões de eleitores utilizaram cerca de 570 mil urnas espalhadas pelos 5.569 municípios brasileiros, consolidando o Brasil como responsável pela maior eleição totalmente informatizada do mundo. Ao completar 30 anos, a urna eletrônica segue como uma invenção brasileira com DNA do Vale do Paraíba, criada para enfrentar velhos problemas da votação manual e transformada em referência internacional de rapidez, segurança e auditabilidade. Entre o orgulho tecnológico e a pressão da desinformação, a máquina que nasceu com a participação de São José dos Campos continua sendo uma das principais marcas da democracia brasileira.

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