Mesa farta? Câmara de Cachoeira Paulista lê hoje projeto que cria vale-alimentação de R$ 1.251 para vereadores
A noite promete ser indigesta em Cachoeira Paulista. A Câmara Municipal de Cachoeira Paulista faz, na noite desta terça-feira, 3 de março, a leitura do Projeto de Lei Ordinária nº 13/2026, que cria um vale-alimentação mensal de R$ 1.251,00 para cada vereador em exercício. A proposta é de autoria do vereador Léo Fênix. Em tempos de aperto para muita gente, o cardápio do Legislativo pode ganhar reforço.
O texto é técnico, polido e cheio de cuidados jurídicos. O Artigo 1º institui o benefício com reajuste anual todo mês de janeiro, seguindo a variação do IPCA, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Se o IPCA subir, o vale sobe junto. Se outro índice oficial o substituir, troca-se o termômetro, mas a febre continua sendo medida. O reajuste será feito por ato da Mesa Administrativa da Câmara, ou seja, a própria Casa regula o próprio benefício.
No Artigo 2º, o projeto deixa claro que o vale não tem natureza salarial nem remuneratória. Não incorpora ao subsídio, não gera reflexo previdenciário. É aquele dinheiro que não é salário, mas também não deixa de cair todo mês no cartão magnético. Tecnicamente correto. Politicamente sensível.
O Artigo 3º delimita que o benefício só vale durante o exercício do mandato. Nada de vale em afastamentos sem remuneração ou em caso de perda ou extinção do mandato. O Artigo 4º informa que as despesas correrão por dotação orçamentária própria, respeitando os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. No papel, tudo dentro das quatro linhas.
Mas a pergunta que ecoa fora do plenário é outra: é prioridade? Enquanto parte da população equilibra o carrinho no supermercado e calcula o feijão por quilo, o Legislativo discute a criação de um auxílio-alimentação de R$ 1.251 para quem já recebe subsídio mensal fixado em lei. Não se trata de ilegalidade, o projeto está estruturado para evitar questionamentos formais. Trata-se de oportunidade política.
O argumento de bastidor costuma ser o mesmo em casos assim: é um direito, outras Câmaras já pagam, não impacta o orçamento de forma significativa. Tudo pode ser verdade. Mas política não vive só de legalidade, vive de legitimidade. E legitimidade passa pela percepção pública.
As próximas sessões tendem a ser um teste de termômetro. Vereadores que votarem a favor precisarão explicar por que consideram o benefício necessário neste momento. Os que votarem contra terão o discurso pronto da contenção e da sensibilidade social. No fim, cada voto terá peso maior do que o valor estampado no projeto.
Se aprovado, o texto segue para promulgação e publicação oficial. E aí não será apenas um cartão magnético que será recarregado. Será também o debate sobre prioridades, exemplo e responsabilidade.
A reportagem acompanha a sessão e trará atualizações. Porque, em política, quando a mesa é farta, a opinião pública costuma cobrar a conta.

