“GRUPO TÁ MOIADO”: POLÍCIA DESCOBRE WHATSAPP USADO PARA ALERTAR TRAFICANTES SOBRE VIATURAS E PRENDE NOVE EM PINDAMONHANGABA
Um grupo de WhatsApp utilizado para monitorar a movimentação de viaturas e alertar pessoas ligadas ao tráfico de drogas acabou se tornando alvo de uma investigação da Polícia Civil em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. A descoberta resultou na deflagração da Operação Watchdog, realizada na quinta-feira (5), que terminou com nove pessoas presas e a apreensão de celulares, drogas e materiais relacionados ao comércio de entorpecentes. Segundo os investigadores, os participantes compartilhavam informações sobre a presença de policiais civis, equipes do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) e viaturas em diferentes pontos da cidade. A situação ganhou um detalhe curioso quando mensagens atribuídas aos próprios integrantes passaram a demonstrar preocupação com a operação. “Grupo tá moiado rapaziada”, escreveu um participante. Em outra mensagem, o alerta foi ainda mais direto: “Resumindo grupo tá sendo monitorado”.
A operação foi conduzida pela Delegacia Especializada de Investigações Criminais (DEIC) de Taubaté, vinculada ao Departamento de Polícia Judiciária do Interior (DEINTER 1), de São José dos Campos. As investigações apontaram a existência de uma rede de comunicação que atuaria principalmente nos bairros Araretama e Residencial Bem Viver, regiões onde a circulação das equipes de segurança era acompanhada e divulgada rapidamente. Segundo a Polícia Civil, o objetivo dos alertas seria permitir que pessoas envolvidas com o tráfico de drogas soubessem antecipadamente da presença policial, dificultando abordagens, fiscalizações e operações destinadas ao combate da criminalidade.
As conversas reunidas pelos investigadores revelaram a dinâmica utilizada pelos participantes. Sempre que uma viatura ou equipe policial era identificada em determinada região, mensagens eram enviadas ao grupo para avisar os demais integrantes. Os alertas mencionavam policiais civis, equipes especializadas e até características de veículos utilizados pelos agentes. A suspeita é de que essas informações permitissem que traficantes e pessoas procuradas pela Justiça deixassem determinados locais antes da chegada das forças de segurança, comprometendo o trabalho policial.
Entre os materiais relacionados à investigação estão áudios nos quais interlocutores comentam a movimentação dos agentes em diferentes bairros de Pindamonhangaba. Em uma das gravações, um homem afirma: “E aí, criminalidade, como é que tá? quadrilha, irmão… Vigia aqui para esse lado aí”. Em outro trecho, um participante menciona a presença de policiais civis e descreve um automóvel que estaria circulando pela região. “Lado do DP2 tá aqui, os caras tá roletando e enquadrando tudo mundo. Baé, mano. Pálio, quatro portas lacrado, irmão. Tem três civil dentro, acabou de sair lá da minha mãe”.
Outras mensagens fazem referência ao Residencial Bem Viver, à região do Morumbi e a diferentes pontos da cidade. Em uma das gravações, um interlocutor alerta: “A da nova esperança hein, vamos se ligar aí… O viver tá molhado hein, tá molhado”. A expressão aparece entre os termos utilizados nas conversas para comunicar situações relacionadas à presença policial. Os áudios também apresentam referências a deslocamentos de viaturas e equipes do BAEP, demonstrando a frequência com que os participantes compartilhavam informações sobre as ações das forças de segurança.
A investigação avançou até a realização da Operação Watchdog, que mobilizou aproximadamente 47 policiais, com apoio da Delegacia Seccional de Taubaté, da Polícia Militar, por meio da Força Tática e do BAEP, além da Guarda Civil Metropolitana de Pindamonhangaba. A Justiça expediu 13 mandados de prisão temporária e 18 mandados de busca e apreensão. Durante o cumprimento das ordens judiciais, nove pessoas foram presas, sendo uma delas em flagrante. As diligências ocorreram em diferentes endereços, principalmente nas regiões do Araretama e do Residencial Bem Viver.
A Prefeitura de Pindamonhangaba informou que uma das frentes da operação começou por volta das 4h da madrugada, no Residencial Bem Viver. Nesse conjunto de diligências, as equipes tinham como objetivo cumprir sete mandados de prisão, dos quais seis resultaram em capturas. A Guarda Civil Metropolitana também participou do cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão, em conjunto com o Setor de Investigações Gerais (SIG) de Pindamonhangaba, equipes da Polícia Civil e policiais do 3º BAEP. As seis prisões informadas pela prefeitura fazem parte do balanço geral de nove detidos divulgado pela Polícia Civil.
Durante as buscas, os agentes apreenderam 12 aparelhos celulares, um tijolo de maconha, 15 porções da mesma droga, balanças de precisão e tubos plásticos vazios, conhecidos como eppendorfs, frequentemente utilizados para acondicionar entorpecentes. Os celulares estão entre os principais materiais de interesse da investigação, pois poderão fornecer informações sobre a estrutura do grupo, a comunicação entre seus participantes e a possível ligação dos alertas com atividades criminosas. A Polícia Civil não informou a atribuição individual de todos os objetos apreendidos, de modo que não é possível relacionar automaticamente cada preso aos materiais encontrados.
Os boletins de ocorrência relacionados à operação descrevem diferentes situações durante o cumprimento dos mandados. Alguns investigados foram encontrados dentro de suas residências, enquanto outro foi abordado quando deixava um imóvel. Houve ainda o caso de um homem localizado enquanto aguardava transporte para ir ao trabalho. Em determinadas buscas, os policiais apreenderam aparelhos celulares, mas não encontraram drogas ou outros materiais ilícitos. As circunstâncias de cada abordagem passaram a integrar os procedimentos policiais.
Uma das partes mais curiosas do caso surgiu justamente depois que os agentes iniciaram as prisões. Mensagens apresentadas como parte do material relacionado à investigação mostram que participantes do grupo começaram a demonstrar preocupação com a possibilidade de estarem sendo monitorados. Às 10h49, um dos integrantes escreveu: “Grupo tá moiado rapaziada”. Pouco depois, outro perguntou: “Na onde”. A sequência de mensagens passou a mencionar a movimentação de policiais e informações sobre pessoas que teriam sido detidas durante a operação.
Em outra mensagem, enviada por volta do meio-dia, um participante escreveu: “Os civil estão com fotos do pessoal do grupo aí levaram o parceiro alemão preso hoje o grupo tá na mão dos cara”. Logo depois, outro integrante resumiu a situação: “Resumindo grupo tá sendo monitorado”. As conversas indicam que os participantes passaram a considerar a possibilidade de que a Polícia Civil tivesse acesso às comunicações e às informações sobre os integrantes da rede.
Mesmo após a operação, outras mensagens apresentadas no material relacionado ao caso continuaram mencionando a presença de equipes policiais em Pindamonhangaba. Entre os alertas aparecem expressões como “Civil no bem viver”, “Slk ta moiado em” e “Negocio tá serio”. As conversas também fazem referências à presença de policiais do BAEP e da Polícia Civil nas regiões do Residencial Bem Viver e do bairro Salgueiro. O conteúdo está entre os elementos que deverão ser analisados para esclarecer o funcionamento da rede de comunicação e a responsabilidade individual dos investigados.
Segundo a Polícia Civil, a atuação do grupo não estaria limitada a comentários sobre a circulação de viaturas. A principal suspeita é de que as mensagens fossem utilizadas para favorecer pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, permitindo que acompanhassem operações policiais e recebessem avisos antes da chegada dos agentes. A participação em um grupo de mensagens, entretanto, não representa por si só comprovação de envolvimento criminoso. A investigação deverá individualizar as condutas e verificar a eventual colaboração de cada suspeito com a atividade ilícita.
A Polícia Civil informou que as investigações terão continuidade, especialmente com a análise dos celulares apreendidos e o cruzamento das informações obtidas nas conversas com outros elementos reunidos durante as diligências. Novas etapas da Operação Watchdog poderão ser realizadas para identificar outros possíveis participantes da rede e esclarecer a extensão do esquema investigado. As nove pessoas presas permanecem sujeitas aos procedimentos judiciais correspondentes, com direito à defesa e à presunção de inocência.

Montagem T7news

