‘CARRO VOADOR’ DA EMBRAER ATINGE 81 KM/H EM NOVO TESTE, JÁ SOMA 73 VOOS E TERÁ FÁBRICA EM TAUBATÉ
O futuro da mobilidade aérea está ganhando velocidade no interior de São Paulo. O chamado “carro voador” desenvolvido pela Eve Air Mobility, empresa ligada à Embraer, atingiu aproximadamente 81 km/h durante um novo teste realizado em Gavião Peixoto, no interior paulista. A demonstração, realizada em 17 de outubro e divulgada na quarta-feira (4 de novembro), representa mais um avanço no desenvolvimento da aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical, conhecida pela sigla eVTOL. O projeto já acumula 73 voos experimentais, tem como meta obter certificação em 2028 e contará com uma fábrica em Taubaté, no Vale do Paraíba, para a produção comercial das aeronaves.
Durante o teste, o protótipo alcançou 44 nós, equivalentes a aproximadamente 81,5 km/h, demonstrando estabilidade enquanto aumentava progressivamente sua velocidade de deslocamento horizontal. A avaliação faz parte de uma campanha conduzida pelas equipes de engenharia da Eve nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto. O objetivo é verificar o desempenho dos sistemas e preparar a aeronave para uma das etapas mais importantes de seu desenvolvimento: a transição para o voo sustentado pelas asas.
Diferentemente dos helicópteros convencionais, o eVTOL foi projetado para decolar e pousar verticalmente utilizando oito hélices, enquanto um sistema de propulsão traseira permite seu deslocamento para a frente. À medida que a aeronave ganha velocidade, as asas passam a produzir sustentação aerodinâmica, possibilitando uma operação mais eficiente. O teste realizado em outubro demonstrou avanços nessa direção, mas o equipamento ainda não havia concluído a transição integral para o voo sustentado pelas asas.
O desempenho representa uma evolução em relação aos ensaios anteriores. Em agosto, o protótipo havia alcançado aproximadamente 55 km/h durante uma demonstração na qual percorreu cerca de 1,55 quilômetro, atingiu 27 metros de altura e permaneceu no ar por pouco mais de três minutos. No novo teste, a velocidade registrada foi aproximadamente 48% superior àquela alcançada anteriormente, evidenciando a ampliação gradual dos limites operacionais avaliados pelos engenheiros.
Segundo informações divulgadas pela Eve Air Mobility, a campanha experimental já contabiliza 73 voos, somando pouco mais de três horas de operação no ar. Até o momento, foram validados 170 pontos de avaliação, o equivalente a aproximadamente 91% dos itens previstos para essa fase específica dos testes. As análises envolvem aspectos como desempenho aerodinâmico, confiabilidade dos componentes e funcionamento dos sistemas elétricos e de controle. Esse percentual, entretanto, não corresponde ao avanço total do processo de certificação, que ainda dependerá de novas etapas.
O projeto também possui uma ligação direta com o Vale do Paraíba. A Eve escolheu Taubaté para instalar sua primeira unidade de fabricação em série dos eVTOLs. A planta industrial terá capacidade inicial projetada para produzir até 120 aeronaves por ano, podendo alcançar 480 unidades anuais após as expansões previstas. A implantação contempla ainda a expectativa de aproximadamente 300 trabalhadores na fase inicial, conforme as projeções divulgadas para o empreendimento.
Antes do início da produção comercial, a empresa pretende construir seis protótipos destinados à campanha de certificação nas instalações da Embraer em São José dos Campos. Essas aeronaves serão utilizadas em avaliações mais abrangentes, necessárias para demonstrar o atendimento aos requisitos técnicos e de segurança estabelecidos pelas autoridades aeronáuticas.
A meta atual da Eve é iniciar os voos do primeiro protótipo de certificação no segundo semestre de 2027 e obter a homologação inicial em 2028. O processo será conduzido junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), responsável pela certificação aeronáutica no Brasil. O cronograma depende da conclusão dos testes e das exigências regulatórias, não havendo, até o momento, autorização para o transporte comercial de passageiros.
O modelo desenvolvido pela empresa, denominado Eve-100, foi projetado para transportar quatro passageiros e um piloto, com autonomia estimada de aproximadamente 100 quilômetros. A proposta é utilizar aeronaves elétricas em deslocamentos urbanos e regionais, especialmente em trajetos que atualmente enfrentam congestionamentos ou exigem percursos terrestres mais longos. Apesar do apelido popular de “carro voador”, o equipamento não foi desenvolvido para circular pelas ruas, mas para funcionar como uma aeronave de transporte aéreo.
Enquanto avança nos testes, a Eve também busca ampliar sua presença no mercado brasileiro. Na quarta-feira (4 de novembro), a companhia anunciou um acordo com a FlyBIS Aviation para o fornecimento de até 12 eVTOLs. O contrato contempla duas encomendas firmes e direitos de compra para outras dez aeronaves, ampliando uma parceria iniciada em 2022.
A proposta da FlyBIS é desenvolver operações de mobilidade aérea elétrica na Região Sul do país, especialmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Entre as possíveis ligações estão trajetos envolvendo Navegantes, Balneário Camboriú e Florianópolis, além de destinos turísticos da Serra Gaúcha, como Gramado e Bento Gonçalves. As rotas ainda estão em planejamento e dependem da disponibilidade das aeronaves, da infraestrutura necessária e das autorizações para operação.
Nas próximas etapas, os engenheiros deverão ampliar os testes relacionados à segurança, incluindo simulações de falhas em motores e sistemas de controle. A companhia também vem avaliando recursos de pouso automático e mecanismos alternativos de comando, desenvolvidos para aumentar a confiabilidade operacional. Os resultados dessas avaliações serão fundamentais para a continuidade do processo de certificação.
Com o avanço da campanha experimental em Gavião Peixoto, a preparação dos protótipos em São José dos Campos e os planos de fabricação em Taubaté, o desenvolvimento do eVTOL reúne diferentes unidades da indústria aeronáutica paulista. A previsão de certificação em 2028 permanece como meta da empresa, condicionada à conclusão das etapas técnicas e à aprovação das autoridades competentes.

Foto: Divulgação/Eve Air Mobility

