SOLEDADE DE MINAS: A PEQUENA CIDADE QUE SE TORNOU REFERÊNCIA NA DISTRIBUIÇÃO DE FILMES NO SUL DE MINAS
Muito antes da popularização da televisão, quando assistir a um filme significava frequentar uma sala de cinema, uma pequena cidade mineira já participava de uma atividade que ultrapassava suas próprias fronteiras. Soledade de Minas, município do Sul de Minas Gerais conhecido por sua tradição ferroviária, também teve participação na história da distribuição cinematográfica. Documentos, relatos biográficos e registros de antigos cinemas revelam que a cidade abrigou agências distribuidoras, recebeu empresários ligados ao setor e foi ponto de retirada de películas destinadas à exibição em outros municípios. Uma trajetória pouco conhecida que coloca Soledade em um capítulo importante da memória do cinema regional.
A relação da cidade com o desenvolvimento dos transportes ajuda a compreender o cenário em que essa atividade surgiu. A estação ferroviária de Soledade foi inaugurada em 14 de junho de 1884, pela Minas and Rio Railway, em uma época na qual as ferrovias representavam um dos principais meios de integração entre municípios. Com a abertura da Linha da Barra e do Ramal de Sapucaí, em 1891, Soledade tornou-se um dos principais entroncamentos ferroviários do Sul de Minas. A estação recebia trens de diferentes procedências e possibilitava conexões para destinos como Cruzeiro, Juréia, Lavras, Sapucaí e Bom Jardim de Minas. Essa estrutura conferia à cidade condições favoráveis à circulação de pessoas e mercadorias, embora a utilização dos trens especificamente para o transporte das películas ainda dependa de comprovação documental.
Uma das primeiras referências à atividade cinematográfica em Soledade aparece na trajetória de Albertina Santos de Paula, personagem cuja história foi preservada em uma publicação biográfica de 2016. Nascida em Passa Quatro, em 9 de agosto de 1912, Albertina mudou-se com a família para Soledade em 1921. Seu pai trabalhava na ferrovia como maquinista, e a família enfrentou dificuldades financeiras após sua morte. Ainda criança, aos dez anos, ela deixou a escola e começou a trabalhar em uma agência distribuidora de filmes que, segundo o relato, havia sido levada à cidade pelo Capitão Antenor Gonçalves. A informação indica que Soledade já possuía atividade ligada à distribuição cinematográfica por volta de 1922, período em que o cinema se consolidava como uma das principais formas de entretenimento.
A mesma biografia informa que a agência de Antenor Gonçalves foi posteriormente vendida a Inocêncio Prince de Souza, empresário cujo nome aparece associado à história cinematográfica de Minas Gerais. Albertina permaneceu trabalhando no estabelecimento até novembro de 1937, quando recebeu um convite de Antônio Biteti para gerenciar uma agência de filmes na cidade de Cruzeiro, no interior paulista. Sua trajetória é especialmente relevante porque registra a existência de uma atividade empresarial ligada ao cinema em Soledade durante parte das décadas de 1920 e 1930. O relato também revela a participação de trabalhadores que, embora estivessem longe das telas e dos holofotes, contribuíam para o funcionamento desse mercado.
Outro documento acrescenta uma pista importante sobre aquele período. Uma edição de 6 de dezembro de 1924 de um periódico preservado na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional apresenta uma relação de agências e filiais vinculadas à organização R. F. Matarazzo. Na referência a Soledade aparece o nome de Antenor Gonçalves Musa. A proximidade entre esse nome e o do Capitão Antenor Gonçalves, mencionado na biografia de Albertina, chama a atenção dos pesquisadores. Entretanto, ainda não há confirmação de que fossem a mesma pessoa ou de que a representação comercial registrada em 1924 tivesse relação direta com a agência distribuidora de filmes. O documento constitui uma pista histórica que merece investigação complementar.
A evidência mais específica sobre a circulação de películas a partir de Soledade está relacionada à Distribuidora Santa Cruz. Um artigo publicado em maio de 2026 pelo portal CinemaEscrito, dedicado à memória dos cinemas de Machado, recupera a história do projecionista Oliveira, ligado ao Cine Glória, que começou suas atividades em 1933. Segundo a publicação, Oliveira, que contava com a ajuda de sua esposa Erycina, também se deslocava até Soledade de Minas para buscar latas de filmes na Distribuidora Santa Cruz. O registro estabelece uma ligação direta entre a cidade e o abastecimento de uma sala cinematográfica localizada em outro município, demonstrando que a atividade de distribuição ultrapassava o público local.
Essa informação é particularmente significativa porque apresenta Soledade não apenas como uma cidade onde o cinema era exibido, mas também como um ponto de onde saíam filmes destinados a outras salas. A referência a Machado permite identificar um município que mantinha ligação com a distribuidora, embora ainda não seja possível determinar quantas outras localidades eram atendidas. Também não foram encontrados registros suficientes para estabelecer a frequência dessas retiradas, os meios de transporte utilizados ou a extensão territorial da atividade. O que se conhece até agora, entretanto, já demonstra que Soledade participava de uma etapa importante do funcionamento do cinema regional: a circulação das películas entre empresas distribuidoras e salas exibidoras.
A presença cinematográfica também se manifestava dentro da própria cidade. Um levantamento de antigos cinemas de rua do Brasil, publicado em 2010 pelo projeto Cine Mafalda, registra a existência do Cine Teatro Prince, fundado em 1941. Localizado na Rua Professor Rosino M. Ferreira, o estabelecimento possuía capacidade para 200 espectadores e utilizava equipamento de projeção em 35 milímetros. O levantamento informa funcionamento diário, média anual de 409 sessões e público de 14.595 espectadores. Os números, cuja origem estatística ainda precisa ser identificada em documentação primária, oferecem uma dimensão da atividade cinematográfica registrada no município.
O mesmo levantamento aponta a Distribuidora de Filmes Cruzeiro S.A. como proprietária do Cine Teatro Prince, com a informação de que o estabelecimento estava arrendado à Empresa Henriqueta Ribeiro Conde. Esse dado acrescenta outra empresa à história do cinema em Soledade e amplia as possibilidades de investigação sobre a organização empresarial do setor. Até o momento, não foram encontrados documentos suficientes para afirmar que a Distribuidora de Filmes Cruzeiro S.A., a Distribuidora Santa Cruz e a antiga agência administrada por Antenor Gonçalves e posteriormente por Inocêncio Prince de Souza fossem uma única organização ou que uma tenha sucedido juridicamente à outra.
A Distribuidora de Filmes Cruzeiro S.A. também deixou registros na imprensa especializada. Na edição de 27 de dezembro de 1952 da revista Cine-Reporter, preservada pela Biblioteca Nacional, a empresa aparece em uma mensagem de fim de ano dirigida ao setor cinematográfico, ao lado de outras companhias do ramo. Seu nome volta a aparecer na edição de 18 de maio de 1957, em uma homenagem publicada na mesma revista. Esses documentos confirmam a presença da empresa no ambiente profissional do cinema brasileiro durante a década de 1950, embora não permitam determinar, isoladamente, quais eram suas operações específicas em Soledade naquele período.
A trajetória de Inocêncio Prince de Souza também abre possibilidades para compreender a participação de empresários ligados à cidade no mercado cinematográfico de Minas Gerais. Publicações históricas sobre Varginha registram que ele adquiriu o antigo Theatro Capitólio em 1943, aparecendo associado à Empresa Cinematográfica Prince de Souza Ltda. Outra referência identifica Aristides Prince de Souza, natural de Soledade de Minas, como empresário do setor cinematográfico. Essas informações demonstram que pessoas cujos nomes aparecem na história local também estiveram presentes em empreendimentos de cinema de outros municípios. As relações familiares e empresariais entre esses personagens, entretanto, ainda precisam ser esclarecidas por documentos específicos.
O conjunto dessas descobertas permite observar que Soledade de Minas reuniu diferentes atividades relacionadas ao cinema ao longo do século XX. A cidade aparece associada à instalação de uma agência distribuidora na década de 1920, ao trabalho de uma funcionária que posteriormente passou a atuar em Cruzeiro, à retirada de latas de filmes destinadas a Machado e ao funcionamento de uma sala própria de exibição. A documentação também identifica empresas e empresários ligados à comercialização e à exploração cinematográfica, elementos que tornam a trajetória do município particularmente interessante para a história cultural do Sul de Minas.
Ainda existem perguntas importantes a serem respondidas pela pesquisa histórica. Não foi possível confirmar se as películas chegavam e saíam de Soledade por meio dos trens, embora a estrutura ferroviária oferecesse condições favoráveis para essa modalidade de transporte. Também não há documentos suficientes para estabelecer que a distribuição alcançasse todo o território brasileiro ou que a cidade tivesse recebido oficialmente o título de Capital do Cinema. A localização de contratos comerciais, anúncios antigos, registros de remessas e documentos empresariais poderá esclarecer essas questões e revelar com maior precisão o alcance das atividades cinematográficas desenvolvidas no município.
Mais de um século depois das primeiras referências à agência de filmes instalada em Soledade, a história começa a ganhar novos contornos por meio do cruzamento de relatos biográficos, documentos preservados em arquivos públicos e pesquisas dedicadas aos antigos cinemas de rua. A antiga estação ferroviária continua sendo um dos principais símbolos do município, mas a memória do Cine Teatro Prince, da Distribuidora Santa Cruz e dos trabalhadores e empresários do cinema revela outra dimensão de seu passado. Soledade de Minas foi mais do que um lugar onde as pessoas assistiam a filmes: os registros históricos mostram que a cidade também participou da atividade que fazia as películas chegarem às telas de outros municípios.

SOLEDADE DE MINAS E SUA LIGAÇÃO COM A HISTÓRIA DO CINEMA: Mosaico ilustrativo que reúne elementos da tradição ferroviária e cinematográfica do município, como a antiga estação, locomotivas a vapor, latas de películas, projetores e salas de exibição. Registros históricos apontam que Soledade abrigou distribuidoras de filmes e participou da circulação de produções cinematográficas para outras cidades do Sul de Minas. As imagens são recriações artísticas e não representam fotografias ou documentos originais da época.

