Domingo, Outubro 11, 2026
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MILHÕES DE PASSOS MOVIDOS PELA FÉ: A HISTÓRIA DAS ROMARIAS QUE TRANSFORMARAM APARECIDA EM DESTINO DE PEREGRINAÇÃO


Todos os anos, milhares de pessoas deixam suas cidades e seguem rumo a Aparecida a pé, de bicicleta, em caravanas ou em grupos organizados. Para muitos, a chegada ao Santuário Nacional é apenas o fim de uma jornada que começa dias antes, entre quilômetros de estrada, cansaço, promessas, orações e agradecimentos. A tradição das romarias, porém, não nasceu de uma única peregrinação. Ela cresceu junto com a própria devoção a Nossa Senhora Aparecida e atravessou mais de três séculos até se transformar em uma das manifestações religiosas mais marcantes do Brasil.

A história começa em 1717, quando pescadores encontraram uma pequena imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá. Segundo a tradição católica, primeiro foi localizado o corpo da imagem e, depois, a cabeça. Após o encontro, os pescadores voltaram a lançar as redes e conseguiram uma pesca abundante, episódio que passou a ser relacionado à intercessão de Nossa Senhora. A partir dali, a devoção começou a crescer e pessoas de diferentes lugares passaram a procurar a imagem para rezar e agradecer graças alcançadas.

Com o aumento do número de devotos, pequenas visitas deram lugar a peregrinações maiores. Grupos de famílias, comunidades religiosas e fiéis começaram a viajar até Aparecida, muitas vezes enfrentando longas distâncias em condições muito diferentes das atuais. A necessidade de receber cada vez mais pessoas levou à ampliação dos espaços destinados à oração e ajudou a transformar o município em referência nacional de peregrinação.

A antiga igreja, hoje conhecida como Basílica Histórica, tornou-se pequena diante da quantidade crescente de visitantes. O aumento das romarias foi um dos fatores que impulsionaram a construção de um novo templo capaz de receber multidões. A pedra fundamental da atual Basílica foi lançada em 1946 e as obras começaram efetivamente em 1955.

Mesmo ainda em construção, o novo templo começou a receber romeiros em 1959. Décadas depois, em 1982, as atividades religiosas foram transferidas definitivamente para a Basílica Nova, com a mudança da imagem de Nossa Senhora Aparecida para o atual Santuário. No ano seguinte, o local foi reconhecido oficialmente como Santuário Nacional.

A expansão das estradas também mudou o perfil das peregrinações. A inauguração da Rodovia Presidente Dutra, em 1951, facilitou o deslocamento entre São Paulo, Rio de Janeiro e o Vale do Paraíba, aproximando ainda mais milhares de devotos de Aparecida. Com o passar dos anos, a própria rodovia passou a fazer parte da experiência religiosa de muitos peregrinos, que decidiram enfrentar o trajeto a pé ou de bicicleta.

A motivação varia de romeiro para romeiro. Há quem caminhe para cumprir promessa, agradecer uma cura, pedir proteção para a família, agradecer por uma conquista ou simplesmente demonstrar devoção. Outros encaram a caminhada como um período de reflexão e superação, no qual o esforço físico se mistura à espiritualidade.

Em muitos casos, a romaria também virou tradição familiar. Pais levam filhos, grupos repetem o percurso ano após ano e histórias de fé são transmitidas entre gerações. Algumas caravanas percorrem centenas de quilômetros até chegar ao Santuário, enquanto outras começam em cidades do próprio Vale do Paraíba e seguem pelas rodovias e caminhos alternativos.

A peregrinação atual não está restrita à Via Dutra. Muitos fiéis utilizam rotas alternativas, estradas secundárias e a chamada Rota da Luz, criada como opção para quem deseja caminhar até Aparecida por um percurso diferente do tráfego intenso da principal rodovia da região.

A devoção ganhou ainda mais projeção nacional em 1930, quando Nossa Senhora Aparecida foi declarada Rainha e Padroeira do Brasil pelo papa Pio XI. Desde então, o dia 12 de outubro se consolidou como uma das datas religiosas de maior importância do calendário brasileiro.

A força dessa tradição aparece também nos números. Em 2025, o Santuário Nacional recebeu aproximadamente 10,5 milhões de visitantes ao longo do ano, mostrando a dimensão da devoção e o alcance das peregrinações que movimentam Aparecida em diferentes períodos, principalmente durante as semanas que antecedem o Dia da Padroeira.

Nos dias próximos a 12 de outubro, o cenário se transforma. Estradas ficam tomadas por peregrinos, pontos de apoio são montados ao longo dos trajetos e voluntários oferecem água, alimentação, atendimento de saúde, massagens e locais para descanso. Para quem está na estrada, cada parada representa uma pequena etapa vencida antes da chegada ao destino final.

A caminhada também exige cuidados. Hidratação, roupas claras, elementos refletivos, calçados adequados e atenção ao trânsito estão entre as principais recomendações para quem pretende percorrer longas distâncias. A concentração de romeiros em rodovias torna necessária uma operação especial de segurança, especialmente durante a noite e nas primeiras horas da manhã.

Em 2026, as celebrações da Padroeira do Brasil têm como tema “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra”. A proposta reforça a ideia de que a peregrinação não termina quando o romeiro chega diante da imagem, mas deve continuar na vida cotidiana por meio da fé, da convivência e das atitudes praticadas após a viagem.

Mais de 300 anos depois do encontro da imagem no Rio Paraíba do Sul, a mesma devoção continua colocando milhares de pessoas na estrada. Para alguns, a chegada ao Santuário representa o cumprimento de uma promessa. Para outros, é agradecimento. Para muitos, porém, o sentido maior está justamente no caminho percorrido, nos encontros feitos ao longo da viagem e na certeza de que cada passo carrega uma história de fé.

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