“AQUI DENTRO VOCÊ NÃO VAI FAZER MAL PARA NINGUÉM”: DONO DE SALÃO ENFRENTA AGRESSOR E PROTEGE MULHER E DUAS CRIANÇAS EM CUNHA
Uma tarde de trabalho em um salão de beleza no centro de Cunha se transformou em uma sequência de medo, ameaça e destruição na quarta-feira, 7 de outubro. No meio da confusão, o proprietário do estabelecimento, Paulo Yank, decidiu não recuar e protegeu uma mulher e duas crianças que haviam entrado no local em busca de ajuda.
Segundo as informações apuradas, a mulher chegou ao salão acompanhada das duas filhas pequenas depois de fugir do companheiro. Ela estava abalada e relatou que vinha sofrendo agressões e ameaças. Em determinado momento, entrou no estabelecimento, pediu água e tomou um calmante.
Paulo contou que não conhecia o casal e, inicialmente, não tinha dimensão completa do que estava acontecendo. A situação mudou rapidamente quando o companheiro da mulher apareceu no salão e passou a exigir que ela deixasse o local.
De acordo com o relato do cabeleireiro, o homem chegou aparentemente calmo, mas passou a fazer ameaças e insistir para que a mulher fosse retirada do estabelecimento. Paulo se recusou.
Foi então que ele decidiu se colocar entre o homem e a entrada do salão.
“Eu não posso arrancar a mulher daqui”, relatou Paulo ao explicar a decisão de manter a vítima e as crianças protegidas no interior do estabelecimento.
A tensão aumentou quando o homem perguntou se realmente seria impedido de entrar. Paulo estava com uma tesoura na mão e respondeu que ele não passaria.
“Aqui dentro você não vai fazer mal para ninguém”, afirmou.
A partir desse momento, a situação saiu do campo das ameaças verbais e avançou para uma ação ainda mais grave.
Segundo Paulo e as informações registradas pela Polícia Civil, o homem voltou para o carro e avançou contra a fachada do salão. O primeiro impacto atingiu a estrutura de proteção do estabelecimento.
Como não conseguiu entrar daquela forma, ele teria recuado e avançado novamente com o veículo, atingindo outra parte da fachada e provocando danos ainda maiores.
Dentro do salão, clientes, a mulher e as crianças tentavam se proteger. Paulo orientou as pessoas a correrem para áreas internas, como cozinha e banheiro, enquanto a estrutura externa era atingida pelo carro.
Em meio ao ataque, o proprietário saiu para a rua em busca de ajuda. Segundo ele, pediu apoio a pessoas que estavam nas proximidades para tentar conter o homem, mas ninguém conseguiu intervir naquele momento.
Sem conseguir ajuda imediata, Paulo voltou para dentro do estabelecimento.
Segundo o boletim de ocorrência, após atingir o salão com o veículo, o homem desembarcou e passou a procurar pela companheira. Há informação de que ele portava uma tesoura.
A mulher permaneceu escondida com as filhas enquanto Paulo voltou a se posicionar diante do homem.
Dessa vez, a estratégia foi tentar convencê-lo a deixar o local. Paulo passou a falar sobre a destruição causada e sobre as consequências do que havia acabado de acontecer.
Mesmo assim, segundo o relato, o homem continuava dizendo que queria encontrar a companheira.
Paulo então insistiu para que ele deixasse o estabelecimento. Em determinado momento, chegou a segurá-lo pelo braço e passou a conduzi-lo para fora.
Pouco depois, o homem deixou o salão, entrou no carro e foi embora.
A Polícia Militar foi acionada e realizou buscas pela região, mas, até o momento do registro da ocorrência, ele ainda não havia sido localizado.
O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil como tentativa de feminicídio, violência doméstica, ameaça e dano.
A apuração também considera o histórico relatado pela vítima. Segundo as informações reunidas no boletim, ela mantinha relacionamento de cerca de oito anos com o homem e já teria sofrido episódios de agressão física, violência psicológica e ameaças.
Antes do episódio em Cunha, o grupo havia passado por Paraty, no Rio de Janeiro. Conforme o relato da mulher, o companheiro teria ingerido bebida alcoólica, ficado agressivo e tentado agredi-la.
Já em Cunha, a situação teria se agravado novamente, levando a mulher a fugir com as duas filhas e procurar abrigo no salão.
Apesar da violência do episódio, ninguém que estava dentro do estabelecimento sofreu ferimentos durante o ataque. Duas pessoas precisaram de atendimento médico posteriormente em razão do susto e da alteração da pressão, mas foram liberadas.
O salão ficou bastante danificado. Amigos de Paulo organizaram uma campanha para ajudar nos custos dos reparos e na recuperação do estabelecimento.
O episódio ganhou repercussão não apenas pela violência da ação investigada, mas pela decisão do cabeleireiro de proteger uma mulher e duas crianças que haviam acabado de pedir ajuda.

