Domingo, Setembro 27, 2026
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SETE MINUTOS, 200 MIL FIÉIS E NENHUMA PISTA: IDOSA SOME EM APARECIDA E DEIXA MISTÉRIO HÁ QUASE 14 ANOS


Uma espera de apenas alguns minutos diante de uma loja de artigos religiosos transformou uma viagem de fé em um dos desaparecimentos mais misteriosos já registrados em Aparecida. Beatriz Joanna Von Hohendorff Winck, então com 77 anos, sumiu em meio a aproximadamente 200 mil peregrinos no Santuário Nacional e nunca mais foi encontrada.

O desaparecimento aconteceu no domingo, 21 de outubro de 2012. Moradora de Portão, no Rio Grande do Sul, Beatriz havia viajado de ônibus até Aparecida acompanhada do marido, Delmar Winck, e de aproximadamente 30 integrantes de uma excursão.

A viagem representava a segunda visita do casal ao maior centro de peregrinação católica do Brasil. Beatriz e Delmar estavam casados havia cerca de 60 anos e tinham quatro filhos.

Naquele domingo, o casal entrou em uma loja de velas e artigos religiosos localizada no complexo do Santuário Nacional. Delmar permaneceu na fila para pagar uma compra, enquanto Beatriz decidiu aguardá-lo na área externa.

Quando o marido terminou o pagamento e deixou o estabelecimento, não encontrou mais a esposa. O intervalo entre o momento em que os dois se separaram e a constatação do desaparecimento teria sido de aproximadamente sete minutos.

Uma companheira da excursão teria sido a última pessoa conhecida a conversar com Beatriz. Conforme o relato apresentado durante as buscas, a idosa disse que havia perdido o marido de vista, demonstrou cansaço e afirmou que pretendia ir embora.

Depois dessa conversa, nenhuma outra pessoa confirmou ter visto ou falado com Beatriz.

O Santuário Nacional enfrentava uma intensa movimentação naquele dia. Aproximadamente 200 mil pessoas circulavam pelo complexo religioso, estacionamentos, lojas, passarelas e ruas próximas.

Ônibus de diferentes partes do país chegavam e partiam durante todo o domingo. A grande concentração de peregrinos dificultou a localização da idosa e a reconstrução dos minutos seguintes ao desaparecimento.

Beatriz já teria apresentado alguns lapsos de memória. Diante disso, uma das possibilidades consideradas pela família era de que ela pudesse ter ficado desorientada, deixado o complexo caminhando e perdido a capacidade de fornecer informações sobre sua identidade ou cidade de origem.

Essa hipótese, porém, nunca foi comprovada. Também não se sabe se Beatriz deixou o Santuário sozinha, entrou em algum veículo, foi acolhida por outra pessoa ou se sofreu algum tipo de crime.

As buscas começaram logo após o desaparecimento. Integrantes da excursão, familiares, voluntários e agentes públicos percorreram diferentes áreas de Aparecida.

Hospitais, unidades de saúde, asilos, albergues e necrotérios foram consultados. Ruas, bairros, pontes e cidades próximas também entraram na rota das equipes, mas nenhuma informação levou ao paradeiro da idosa.

Comerciantes, taxistas, ambulantes, motoristas de ônibus, moradores e pessoas em situação de rua foram abordados na tentativa de encontrar alguém que tivesse visto Beatriz circulando pela cidade.

As câmeras de segurança poderiam ter sido fundamentais para esclarecer a direção seguida pela idosa. Entretanto, parte das gravações consideradas importantes não estava mais disponível quando foi solicitada para análise.

Segundo informações divulgadas sobre o caso, o sistema de monitoramento utilizado na época sobrepunha as imagens depois de determinado período. Com isso, registros que poderiam mostrar Beatriz deixando a loja ou caminhando pelo complexo religioso não foram preservados.

Sem as gravações, os investigadores passaram a depender principalmente de depoimentos, possíveis avistamentos e consultas a bancos de dados de pessoas desaparecidas e não identificadas.

Delmar permaneceu durante 49 dias em Aparecida. Mesmo cansado e abalado, ele não queria retornar ao Rio Grande do Sul sem descobrir o que havia acontecido com a esposa.

João Carlos Winck, o mais velho dos quatro filhos do casal, chegou à cidade no dia seguinte ao desaparecimento e passou a coordenar as buscas realizadas pela família.

Nas primeiras semanas, parentes e voluntários percorreram pelo menos 28 cidades de São Paulo e Minas Gerais. Aproximadamente 8 mil panfletos foram distribuídos inicialmente. Mais tarde, o número chegou a cerca de 14 mil materiais com a fotografia e as características de Beatriz.

O caso ganhou repercussão nacional e foi divulgado em programas de televisão, rádios, jornais e páginas nas redes sociais. Uma campanha chamada “Onde está Dona Beatriz?” foi criada para manter a imagem da idosa em circulação e receber possíveis pistas.

Ao longo dos anos, os familiares viajaram por diferentes regiões do Brasil para verificar informações. Até 2020, João Carlos já havia realizado mais de 30 viagens relacionadas às buscas pela mãe.

Relatos chegaram de cidades de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Goiás. Fotografias de mulheres idosas foram enviadas à família, mas nenhuma delas era Beatriz.

Os parentes também contrataram um investigador particular e acompanharam informações sobre mulheres sem identificação encontradas em hospitais, instituições de acolhimento e outros locais.

Além das pistas equivocadas, a família precisou enfrentar trotes e ligações anônimas. Algumas pessoas afirmavam saber onde Beatriz estava, enquanto outras apresentavam histórias que não puderam ser confirmadas.

A gravidade de parte dessas ligações levou o Ministério Público do Rio Grande do Sul a acompanhar o caso. Em 2013, a Justiça autorizou uma quebra de sigilo telefônico na tentativa de identificar a origem dos contatos feitos aos familiares.

Nenhuma dessas medidas revelou o paradeiro da idosa.

O material genético de familiares também foi cadastrado para permitir comparações com pessoas ou restos mortais não identificados. Até a última atualização, nenhum cruzamento havia esclarecido o desaparecimento.

O caso foi investigado pela Delegacia de Polícia de Aparecida e também passou pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa.

Após consultas a bancos de dados, depoimentos, buscas e diferentes diligências, o inquérito foi encaminhado à Justiça em 27 de novembro de 2018.

Sem o surgimento de provas capazes de indicar o que aconteceu, o procedimento acabou arquivado com a concordância do Ministério Público. O arquivamento, porém, não impede a retomada das investigações caso apareça uma informação relevante.

O desaparecimento de Beatriz e o registro de outro caso envolvendo um idoso naquele período também levaram Aparecida a reforçar medidas de identificação dos visitantes.

Uma legislação municipal passou a prever o fornecimento de pulseiras de identificação para hóspedes, principalmente idosos. A medida permite que peregrinos encontrados desorientados sejam encaminhados ao hotel ou aos responsáveis pelo grupo.

Para a família Winck, entretanto, a mudança não trouxe a resposta esperada.

Delmar voltou para Portão depois de permanecer semanas em Aparecida, mas nunca abandonou a esperança de reencontrar a esposa. O desaparecimento modificou completamente a rotina do aposentado e afetou sua saúde.

Ele morreu no sábado, 22 de novembro de 2025, aos 95 anos, sem descobrir o que aconteceu com Beatriz. O velório e a cremação aconteceram no dia seguinte, em Portão.

Delmar partiu sem saber se a esposa havia se perdido, sofrido um acidente, sido acolhida sem identificação ou se tornado vítima de algum crime.

Neste domingo, 27 de setembro de 2026, os quatro filhos do casal continuam esperando uma resposta. Caso esteja viva, Beatriz tem atualmente 91 anos.

Mais do que alimentar a esperança de reencontrá-la, a família também deseja descobrir a verdade. Depois de quase 14 anos, qualquer informação concreta poderia colocar fim a uma espera marcada por viagens, falsas pistas, trotes e sofrimento.

Beatriz permanece oficialmente desaparecida. O inquérito poderá ser reaberto caso surjam novos elementos. Informações que possam ajudar a esclarecer o caso podem ser comunicadas à Polícia Civil pelo Disque Denúncia, no telefone 181, com garantia de anonimato.

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