Domingo, Setembro 27, 2026
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MÃOS QUE REZAM: 400 SURDOS VIVEM DIA DE FÉ E INCLUSÃO NO SANTUÁRIO DE APARECIDA


Centenas de mãos levantadas diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida transformaram o silêncio em oração. Cerca de 400 surdos de diferentes partes do Brasil participaram da 46ª Romaria Nacional dos Surdos, realizada no sábado, 26 de setembro de 2026, no Santuário Nacional de Aparecida.

A romaria aconteceu justamente no Dia Nacional dos Surdos e reuniu fiéis, familiares, agentes pastorais, intérpretes e religiosos em uma celebração marcada pelo acolhimento, pela acessibilidade e pelo reconhecimento do protagonismo das pessoas surdas na Igreja.

Mais do que acompanhar uma programação religiosa, os romeiros ocuparam o espaço que lhes pertence dentro da comunidade cristã. Por meio da Língua Brasileira de Sinais, os participantes rezaram, acompanharam a missa, partilharam experiências e renovaram a devoção a Nossa Senhora Aparecida.

O principal momento da romaria foi a missa celebrada ao meio-dia no Altar Central da Basílica. A cerimônia foi presidida por Dom Adilson Pedro Busin, bispo da Diocese de Tubarão, em Santa Catarina, e referencial da Pastoral dos Surdos na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Concelebraram o padre Vicente Oliveira, assessor da Pastoral dos Surdos do Regional Leste 2; o padre Francisco Bustamante, de Sevilha, na Espanha; e o padre Wilson Czaia, assessor nacional da Pastoral dos Surdos.

Durante a homilia, Dom Adilson dirigiu uma mensagem especial aos surdos presentes. O bispo destacou que, na Casa da Mãe Aparecida, eles são acolhidos com amor e não estão apenas acompanhando a Igreja: eles fazem parte dela.

Para o religioso, as pessoas surdas não devem ser vistas somente como destinatárias de ajuda, mas como batizadas, missionárias e participantes ativas da evangelização.

“Você não é consumidor de fé, você é protagonista de fé”, afirmou Dom Adilson ao convidar os romeiros a colocarem seus dons a serviço das comunidades.

A declaração resumiu o sentido da 46ª Romaria Nacional dos Surdos. O encontro não tratou apenas da necessidade de adaptar celebrações, mas também de reconhecer a capacidade dos surdos de evangelizar, coordenar pastorais, conduzir atividades e contribuir com as decisões da Igreja.

Dom Adilson também recordou as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para o período de 2026 a 2032. O documento apresenta a Igreja como uma tenda aberta, capaz de receber todas as pessoas e garantir condições para uma participação verdadeira.

O bispo ressaltou que o acesso pleno deve ser assegurado às pessoas com deficiência física, visual, auditiva e intelectual, além das pessoas neurodivergentes.

Na prática, esse compromisso envolve a presença de intérpretes, o uso da Libras e a preparação das comunidades para que as pessoas surdas possam participar das missas, da catequese, dos sacramentos, das formações e das demais atividades pastorais.

No Santuário Nacional, a acessibilidade permitiu que os participantes acompanhassem cada momento da celebração com autonomia. Orações, leituras e reflexões foram transmitidas por meio de sinais, dando visibilidade à língua e à cultura da comunidade surda.

Dom Adilson agradeceu especialmente aos agentes da Pastoral dos Surdos e aos intérpretes que atuam na evangelização. O bispo também reconheceu o trabalho daqueles que auxiliam pessoas surdocegas, permitindo que elas acompanhem as celebrações por meio de recursos específicos de comunicação.

A atuação desses voluntários ajuda a romper barreiras que ainda afastam muitos surdos da vida comunitária. Em diversas paróquias, a ausência de intérpretes e de pessoas preparadas para se comunicar em Libras continua sendo um obstáculo para a participação.

A romaria mostrou que a inclusão não deve ser resumida à presença física dentro de um templo. Ela exige comunicação acessível, respeito à identidade da pessoa surda e oportunidades para que cada fiel exerça responsabilidades na comunidade.

Os aproximadamente 400 participantes viajaram de diferentes regiões do país para viver esse momento em Aparecida. Alguns foram agradecer por graças alcançadas, enquanto outros apresentaram pedidos, reencontraram amigos e renovaram a esperança diante da Padroeira do Brasil.

A cada gesto realizado em Libras, a Basílica testemunhou uma maneira de expressar a fé que dispensa o som, mas carrega a mesma força das palavras. Os sinais transformaram-se em louvor, agradecimento e súplica.

A romaria chegou à 46ª edição consolidada como um importante encontro da Pastoral dos Surdos no Brasil. Além da dimensão religiosa, a peregrinação permite que grupos de diferentes dioceses compartilhem experiências e levem novas iniciativas de inclusão para suas comunidades.

Ao retornarem para suas cidades, os romeiros carregam o desafio de fortalecer o uso da Libras nas paróquias, formar novos agentes e ampliar os espaços ocupados pelas pessoas surdas dentro da Igreja.

A realização do encontro em 26 de setembro deu um significado ainda maior à celebração. O Dia Nacional dos Surdos foi instituído pela Lei Federal nº 11.796, de 29 de outubro de 2008.

A data faz referência à criação da primeira escola destinada à educação de surdos no país, em 1857, no Rio de Janeiro. A instituição deu origem ao atual Instituto Nacional de Educação de Surdos, o Ines.

O dia é marcado pela valorização da comunidade surda e pela defesa de direitos como educação, comunicação, acessibilidade, respeito e participação social.

Na Basílica de Aparecida, essas reivindicações encontraram a espiritualidade. A romaria mostrou que a fé também pode ser vivida pelas mãos e que uma Igreja acolhedora precisa aprender a compreender todas as formas de comunicação.

Ao encerrar a reflexão, Dom Adilson destacou que nenhum limite físico é capaz de impedir a alegria do serviço e o compromisso de quem assume uma missão dentro da Igreja.

A 46ª Romaria Nacional dos Surdos terminou com uma mensagem que ultrapassou os limites do Santuário: os surdos não querem apenas ser recebidos, mas participar, servir, evangelizar e ocupar plenamente o lugar que lhes pertence.

Diante da Mãe Aparecida, centenas de mãos falaram ao mesmo tempo. Em cada sinal, havia uma oração. Em cada olhar, uma história de superação. E, no silêncio da Basílica, a fé foi compreendida por todos.

Reprodução A12

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