“A GENTE SE ENCONTRA DEPOIS DA VIDA NOVA”: IRMÃ DOA RIM E TRANSFORMA AMOR EM RECOMEÇO
Antes de seguir para o centro cirúrgico, Quênia Paiva olhou para a irmã e deixou uma promessa: “A gente se encontra depois da vida nova”. Horas mais tarde, as duas voltariam a se olhar, agora unidas não apenas pelo sangue, pelas lembranças e pelo amor construído desde a infância, mas também pelo rim que devolveu a Jaqueline Paiva a possibilidade de recomeçar.
Moradoras de Barra do Piraí, no Sul Fluminense, Jaqueline e Quênia sempre foram mais que irmãs. São confidentes, melhores amigas e companheiras nos momentos mais difíceis. Em 6 de fevereiro de 2026, essa relação ganhou um significado ainda mais profundo.
Quênia doou um dos rins para Jaqueline, que enfrentava uma doença renal e dependia de sessões de hemodiálise para continuar o tratamento.
Neste domingo, 27 de setembro, Dia Nacional da Doação de Órgãos, a história das duas mostra como uma decisão de amor pode transformar medo em esperança, sofrimento em gratidão e um diagnóstico difícil em uma segunda oportunidade.
“Agora, a nossa relação é sinônimo de vida, de uma vida nova, que tem como base muito amor e companheirismo”, resumiu Jaqueline.
A caminhada até o transplante começou muito antes da cirurgia. Em 2017, Jaqueline procurou um pronto-socorro por um problema que não tinha relação direta com os rins. Durante o atendimento, os profissionais perceberam que sua pressão arterial estava muito alta.
Como ela não apresentava sintomas que explicassem a alteração, recebeu a orientação de procurar um cardiologista. Começou então uma investigação que se estenderia por meses.
Jaqueline passou por monitoramento da pressão durante 24 horas e realizou diferentes exames de imagem. Os resultados não indicavam alterações no coração, mas a hipertensão continuava.
Diante da ausência de uma explicação, o médico solicitou um exame de urina de 24 horas. O resultado mostrou uma quantidade elevada de proteínas na urina, condição que poderia indicar comprometimento dos rins.
A partir daquele momento, Jaqueline passou a ser acompanhada por um nefrologista. A investigação continuou até 2020, quando uma biópsia renal identificou a glomeruloesclerose segmentar e focal, conhecida pela sigla GESF.
A doença provoca lesões nas estruturas responsáveis pela filtragem do sangue e pode causar perda progressiva da função renal.
Depois do diagnóstico, Jaqueline iniciou o chamado tratamento conservador. Ela passou a utilizar medicamentos, controlar a alimentação e aumentar os cuidados com a rotina para tentar retardar a evolução da doença.
Professora, ela carregava a própria comida para as escolas onde trabalhava. A marmita e a garrafa de água passaram a fazer parte de seus dias, junto com a disciplina necessária para seguir as orientações médicas.
Apesar de todo o esforço, a doença avançou.
Em outubro de 2025, Jaqueline procurou novamente um pronto-socorro depois de sentir dores na região lombar. Os exames mostraram uma queda significativa na função dos rins.
A piora surpreendeu a família. Em julho daquele mesmo ano, Jaqueline havia passado por consulta e os resultados estavam dentro do esperado. Poucos meses depois, enfrentava a primeira internação de sua vida.
No dia 18 de outubro de 2025, começou a hemodiálise.
Durante aproximadamente quatro meses, sua rotina foi marcada por três sessões semanais com cerca de quatro horas de duração. Enquanto Jaqueline permanecia ligada à máquina dentro da clínica, Quênia ficava na recepção esperando.
A irmã não a acompanhou apenas no primeiro dia ou nos momentos considerados mais difíceis. Esteve presente em todas as sessões.
“Eu ficava do lado de dentro fazendo a hemodiálise e ela ficava o tempo todo na recepção me esperando”, recordou Jaqueline.
A presença constante de Quênia tornou-se uma forma silenciosa de dizer que Jaqueline não enfrentaria aquela caminhada sozinha.
Enquanto realizava a hemodiálise, Jaqueline recebeu da equipe médica a orientação para começar a avaliação destinada ao transplante. Existiam duas possibilidades: entrar na fila para receber um órgão de um doador falecido ou encontrar uma pessoa próxima disposta a passar pelos exames para uma doação em vida.
Foi quando Quênia decidiu descobrir se poderia ser a doadora.
Para Jaqueline, a disposição da irmã não foi uma surpresa. Ela conhecia a profundidade da ligação existente entre as duas e acreditava que Quênia faria tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudá-la.
Os primeiros exames confirmaram a compatibilidade. A notícia trouxe alegria e alívio, mas ainda havia um longo caminho antes da cirurgia.
Quênia precisou passar por uma série de avaliações para demonstrar que estava saudável, tinha condições de viver com apenas um rim e não seria exposta a um risco incompatível com a doação.
Depois dos exames, as irmãs ainda aguardaram aproximadamente 30 dias pela autorização do plano de saúde.
A cirurgia foi marcada para 6 de fevereiro de 2026.
Naquele dia, Jaqueline e Quênia chegaram juntas ao hospital e permaneceram por algum tempo no pré-operatório. Jaqueline estava mais nervosa. Mesmo sendo a doadora e sabendo que também seria submetida a uma cirurgia, Quênia tentou tranquilizá-la.
Disse que tudo já havia dado certo e que as duas se encontrariam novamente depois da “vida nova”.
A cirurgia de Quênia foi realizada primeiro. Em seguida, Jaqueline foi levada ao centro cirúrgico para receber o rim da irmã.
Quando acordou da anestesia, a primeira preocupação de Jaqueline não foi com o próprio estado de saúde. Ela queria saber se Quênia estava bem.
O reencontro das duas, depois dos procedimentos, tornou-se o momento mais marcante de todo o processo.
Elas se olharam e perceberam que estavam vivas, conscientes e prontas para iniciar uma nova fase. Para Jaqueline, aquele instante reuniu gratidão, alívio e um amor que parecia ainda maior.
“Meu coração estava cheio de gratidão, cheio de amor. Esse foi o momento mais marcante desse dia, quando a gente se encontrou e conseguiu olhar uma para a outra e viu que estava tudo bem”, contou.
Durante o tratamento, uma médica disse que Quênia estava oferecendo uma nova vida à irmã. Depois do transplante, Jaqueline passou a compreender completamente o significado daquelas palavras.
“Eu ganhei uma segunda vida a partir da generosidade dela”, afirmou.
A doação também transformou a maneira como as duas enxergam a própria relação. Jaqueline acreditava que o amor entre as irmãs já havia alcançado sua maior dimensão, mas descobriu que o sentimento ainda poderia crescer.
Hoje, cada dia vivido sem a necessidade de retornar à hemodiálise reforça a gratidão.
Ao perceber que pode seguir sua rotina, trabalhar e fazer planos sem depender de três sessões semanais, Jaqueline se lembra do gesto da irmã.
“Todo dia que eu vejo que estou bem, estou saudável, que eu não preciso fazer hemodiálise, eu consigo amar ela ainda mais. Eu descobri que era possível”, declarou.
A fé também acompanhou as irmãs durante a doença, as sessões e o transplante. Devotas de Nossa Senhora Aparecida, elas associam uma parte importante dessa caminhada à proteção da Padroeira do Brasil.
A primeira internação de Jaqueline aconteceu em outubro, período marcado pelas celebrações de Nossa Senhora Aparecida. Poucos dias depois, ela começou a hemodiálise.
Durante o tratamento, as duas foram ao Santuário Nacional de Aparecida para agradecer pelas possibilidades de cuidado e pedir forças para enfrentar o que ainda estava por vir.
Depois da cirurgia, retornaram ao Santuário.
Quatro meses após o transplante, Jaqueline e Quênia levaram um quadro com fotografias e a descrição da história para a Sala das Promessas. O objeto passou a representar publicamente a gratidão das duas pelo tratamento, pela compatibilidade e pelo reencontro depois da “vida nova”.
A história das irmãs também reforça a importância da conversa familiar sobre a doação de órgãos. No caso de doadores falecidos, a autorização da família é fundamental para que o procedimento seja realizado.
A recusa familiar ainda impede que muitas doações aconteçam, mesmo quando o potencial doador manifestou em vida o desejo de ajudar outras pessoas. Por isso, profissionais de saúde destacam a necessidade de conversar claramente com os parentes sobre essa decisão.
No caso de Jaqueline e Quênia, a doação aconteceu em vida, depois de exames, avaliações médicas e comprovação de compatibilidade.
O gesto permitiu que Jaqueline deixasse a hemodiálise e iniciasse uma nova etapa. Para Quênia, significou transformar o amor pela irmã em uma parte concreta da vida dela.
Depois de anos de investigação, tratamentos, mudanças na alimentação, uma internação inesperada e quatro meses de hemodiálise, Jaqueline carrega no próprio corpo a generosidade da irmã.
Quênia, por sua vez, segue ao lado dela como sempre esteve: antes, durante e depois da cirurgia.
A relação entre as duas já era marcada por amizade, confiança e companheirismo. Agora, também é uma história de doação, fé e recomeço.
Em fevereiro, elas entraram separadamente no centro cirúrgico. Horas depois, cumpriram a promessa feita no pré-operatório: encontraram-se novamente do outro lado da vida nova.


