SONHO INTERROMPIDO: ROMEIRO MORRE A CAMINHO DE APARECIDA SEM CONSEGUIR CONHECER O SANTUÁRIO
Jairo Antônio de Paula, de 47 anos, carregava um sonho simples, mas muito especial: conhecer pela primeira vez o Santuário Nacional de Aparecida. Animado com a viagem, ele embarcou em uma excursão religiosa ao lado de outros moradores de Minas Gerais, mas morreu antes de chegar ao destino.
Jairo estava entre os 48 passageiros do ônibus que saiu de Minas Gerais com destino a Aparecida. O veículo caiu em uma ribanceira de aproximadamente 15 metros na Rodovia Doutor Avelino Júnior (SP-52), em Cruzeiro, na madrugada de domingo (20). Seis pessoas morreram e outras 42 ficaram feridas.
Morador do distrito de Rosário do Rio Grande, em Itumirim, Jairo aguardava com grande expectativa o momento em que finalmente entraria no Santuário. Segundo familiares, ele estava feliz e falava com entusiasmo sobre a oportunidade de realizar a primeira visita ao maior templo dedicado a Nossa Senhora Aparecida no país.
Pouco antes do embarque, ele conversou com a sogra, Ana Amélia Rodrigues, e compartilhou a alegria pela viagem. “Bora, dona Ana, eu estou indo para Aparecida”, disse Jairo. Ela desejou que o genro fosse com Deus, fizesse uma boa viagem e rezasse pela família.
Jairo respondeu que rezaria por ela, pelos familiares e por toda a comunidade de Rosário do Rio Grande. A promessa feita antes da partida se transformou em uma das últimas lembranças deixadas por ele.
A preparação para realizar o sonho também ficou marcada pela fé. Antes do embarque, Jairo vinha a pé da zona rural quando encontrou o padre Nélio José dos Santos, pároco da Matriz de São Sebastião do Macuco. O religioso ofereceu uma carona e levou o romeiro até a praça onde o grupo aguardava a chegada do ônibus.
Enquanto esperavam o veículo, os passageiros participaram de uma missa. Durante a celebração, rezaram pela viagem e pediram proteção para o caminho até Aparecida. Horas depois, a excursão que deveria representar a concretização de um sonho terminou em uma das maiores tragédias já enfrentadas pela comunidade.
O acidente aconteceu por volta das 5h30, próximo à divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Em um trecho de curva, o motorista perdeu o controle do ônibus, que saiu da pista, atingiu uma árvore e caiu na ribanceira.
Jairo morreu sem conseguir ver de perto a imagem de Nossa Senhora Aparecida, entrar na Basílica ou cumprir pessoalmente a promessa de rezar por quem havia ficado em casa. Para familiares e amigos, porém, sua última viagem permanecerá lembrada pelo sonho, pela esperança e pela fé que demonstrou antes de partir.
Além de Jairo, morreram Sebastião Petronilho, de 74 anos; Augusto Antônio de Lima, de 63; Ilza Nazaré Pereira Paulo, de 64; Alice Fátima Alves da Silva, de 14; e Evandro Carlos Garcia, de 46 anos. Ilza ajudava a organizar as excursões religiosas havia mais de 26 anos.
Os corpos de cinco vítimas foram levados para Rosário do Rio Grande, onde aconteceu um velório coletivo na Igreja Nossa Senhora do Rosário. Familiares, amigos e moradores lotaram o templo para prestar as últimas homenagens. O corpo de Alice foi levado para Itutinga, onde ocorreu o sepultamento da adolescente.
Jairo foi sepultado no distrito onde vivia. A comunidade que o viu partir animado para realizar um sonho precisou recebê-lo de volta em um cortejo marcado pelo silêncio, pelas lágrimas e pelas orações.
A Polícia Civil investiga as causas do acidente. A perícia deverá analisar as condições do ônibus, o sistema de freios, os pneus, a velocidade do veículo e a documentação relacionada ao transporte interestadual de passageiros.
O motorista foi preso em flagrante após receber atendimento médico, mas conseguiu liberdade provisória durante audiência de custódia. A defesa afirma que uma falha mecânica teria impedido a frenagem do ônibus. A versão ainda será confrontada com os laudos periciais.


