A CADA 44 HORAS, UMA VIDA SE PERDE SOBRE DUAS RODAS: VALE JÁ TEM 116 MOTOCICLISTAS MORTOS EM 2026
Os números desenham um cenário preocupante nas ruas e rodovias do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Entre janeiro e julho de 2026, 116 motociclistas morreram em acidentes de trânsito na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte, o equivalente, em média, a praticamente uma morte a cada 44 horas. Em outras palavras, a região perdeu um motociclista aproximadamente a cada dois dias nos sete primeiros meses do ano.
O levantamento é baseado no Infosiga, sistema utilizado pelo Governo do Estado para acompanhar a violência no trânsito. No período analisado, a RMVale contabilizou 216 mortes em acidentes, e as pessoas que estavam em motocicletas responderam por 53,70% de todos os óbitos. Mais da metade das vidas perdidas no trânsito regional, portanto, estava sobre duas rodas.
O percentual é o maior da série histórica do Infosiga para os sete primeiros meses do ano. Até então, a maior participação dos motociclistas havia sido registrada em 2022, quando 93 das 206 mortes no trânsito, aproximadamente 45%, envolveram pessoas em motos.
Os 116 óbitos de 2026 também representam um recorde absoluto para o período desde o início da série histórica, em 2015. Em nenhum dos anos anteriores o número havia ultrapassado 100 mortes entre janeiro e julho. No mesmo intervalo de 2025 foram 98 vítimas, o que representa crescimento de 18,37% neste ano.
O aumento da mortalidade de motociclistas acontece mesmo em um cenário no qual o total de mortes no trânsito regional apresentou redução. Entre janeiro e julho de 2026 foram contabilizados 216 óbitos por diferentes tipos de acidentes na RMVale, contra 233 no mesmo intervalo de 2025, queda aproximada de 7,3%. A situação das motos, portanto, segue na direção contrária à redução observada no conjunto das ocorrências fatais.
Quando o recorte é ampliado para os últimos 12 meses disponíveis no levantamento, de agosto de 2025 a julho de 2026, a região acumulou 382 mortes no trânsito, média superior a uma vítima por dia considerando todos os modais. Entre janeiro e julho deste ano, depois dos 116 motociclistas, aparecem 38 pedestres mortos, 29 ocupantes ou condutores de automóveis, 20 ciclistas e sete caminhoneiros.
O perfil das vítimas ajuda a dimensionar quem está morrendo nas ruas e estradas. Dados referentes aos primeiros sete meses apontam que 87% dos motociclistas mortos eram homens e 13% mulheres. Além disso, cerca de 83% das vítimas eram os próprios condutores das motocicletas, enquanto os demais casos envolviam passageiros.
A faixa dos 25 aos 29 anos aparece na liderança, com 24 mortes entre janeiro e julho. Em seguida estão motociclistas de 20 a 24 anos, com 18 óbitos, pessoas de 40 a 44 anos, com 15, de 30 a 34 anos, com 13, e de 45 a 49 anos, com 11 mortes. Entre adolescentes e jovens de 15 a 19 anos foram registrados dez óbitos.
É justamente entre os mais jovens que aparece um dos maiores aumentos proporcionais. Na faixa de 15 a 19 anos, as mortes passaram de sete em 2025 para dez em 2026, crescimento de 42,86%.
Outro dado chama atenção pela frequência dos acidentes. A região registrou 3.310 sinistros de trânsito entre janeiro e julho, sendo 203 fatais. As motocicletas aparecem envolvidas em 2.232 ocorrências, enquanto automóveis participaram de 2.198. Entre os acidentes envolvendo motos, as colisões lideraram com 1.677 registros, seguidas pelos choques, com 160 ocorrências.
Curiosamente, o número geral de acidentes foi maior no mesmo período de 2025. Foram 3.663 ocorrências, contra 3.310 neste ano. As motocicletas estiveram envolvidas em 2.494 acidentes no ano passado. Isso reforça que a preocupação de 2026 não está simplesmente no volume de registros, mas principalmente na letalidade envolvendo quem utiliza motocicleta.
Os primeiros meses de 2026 já vinham mostrando sinais do agravamento. Somente entre janeiro e junho, 103 motociclistas morreram na região, 27% a mais que os 81 contabilizados no primeiro semestre de 2025. Maio foi especialmente grave, com 25 mortes sobre motos, maior número mensal registrado na série histórica do Infosiga na RMVale. Março e abril também chegaram a 21 vítimas cada.
Em São José dos Campos, a participação das motos nas mortes é ainda maior que a média regional. A cidade acumulou 42 mortes no trânsito entre janeiro e julho, sendo 24 envolvendo motociclistas, o equivalente a aproximadamente 57% de todas as vítimas fatais do município.
São José lidera o número geral de mortes no trânsito entre os municípios da região, com 42 óbitos. Na sequência aparecem Taubaté, com 35 mortes, Pindamonhangaba, com 17, Jacareí, com 16, Caçapava, com 15, Guaratinguetá, com 12, e Ubatuba, também com 12 entre janeiro e julho.
Os números estatísticos ganharam rostos conhecidos nesta semana em São José dos Campos. Apenas na segunda-feira, 7 de setembro, dois jovens morreram em ocorrências envolvendo motocicletas no município.
Um deles foi o motoboy Kevin Hudson Donizetti Batista, de 20 anos, que morreu após um acidente por volta das 22h50 na Avenida George Eastman, próximo ao Viaduto da Johnson. Relatos iniciais indicaram que ele perdeu o controle da moto, caiu e acabou atingido por um carro que trafegava pelo local.
Na mesma segunda-feira, o adolescente Brayan Willian dos Santos Ferreira da Silva, de 16 anos, que estava na garupa de uma motocicleta, morreu depois de uma perseguição envolvendo uma viatura da Guarda Civil Municipal na região sul de São José. A colisão terminou contra uma área de muro e o adolescente, que estava sem capacete, morreu no local. A Polícia Civil investiga as circunstâncias da ocorrência.
Os dados do primeiro semestre já mostravam que o problema vinha crescendo em ritmo muito superior ao aumento da frota. Entre os primeiros seis meses de 2025 e de 2026, a quantidade de motocicletas na região passou de aproximadamente 351,7 mil para 359,7 mil, crescimento de 2,27%. No mesmo intervalo, as mortes de motociclistas saltaram 27%.
A diferença evidencia que o aumento das vítimas não pode ser explicado apenas pelo crescimento do número de motos circulando.
O próprio planejamento estadual de segurança viária reconhece motociclistas e ciclistas entre os usuários mais vulneráveis do trânsito. O Programa Respeito à Vida orienta municípios a utilizarem os dados do Infosiga para localizar pontos com maior concentração de sinistros fatais e priorizar intervenções em locais onde as vítimas são principalmente motociclistas, ciclistas e pedestres.
O Infosiga reúne registros provenientes de diferentes órgãos públicos, entre eles Polícia Civil, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Polícia Rodoviária Federal, permitindo acompanhar a evolução das mortes e identificar grupos especialmente expostos aos acidentes.
Com 116 vidas perdidas em apenas sete meses, o ano de 2026 já se tornou o mais mortal da série histórica para motociclistas da região quando considerado o período de janeiro a julho. Os dados dos meses seguintes ainda serão incorporados aos levantamentos oficiais e poderão alterar o quadro até o encerramento do ano.


