ERA R$ 190, MAS A MAQUININHA MARCOU R$ 3.190: SEIS SÃO DENUNCIADOS PELO “GOLPE DA TINTA” CONTRA IDOSO
Uma oferta aparentemente vantajosa de latas de tinta terminou, segundo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, em uma cobrança milhares de reais acima do valor combinado e agora levou seis pessoas à mira da Justiça em Volta Redonda. O MPRJ denunciou o grupo por suspeita de participação no chamado “golpe da tinta”, esquema em que produtos eram oferecidos por preços baixos e, no momento do pagamento, um valor muito maior teria sido lançado na máquina de cartão. Em um dos episódios investigados, um homem de 80 anos e a esposa teriam aceitado comprar tintas por R$ 190, mas a transação foi registrada em R$ 3.190.
O caso aconteceu em novembro de 2021, mas a investigação avançou até resultar na denúncia apresentada agora pela Promotoria de Justiça de Investigação Penal de Volta Redonda. Segundo a acusação, dois dos denunciados teriam abordado o casal e apresentado a oferta das latas de tinta. O preço reduzido teria sido utilizado justamente para despertar o interesse das vítimas e concluir rapidamente a negociação.
O problema apareceu na hora de passar o cartão. Conforme a denúncia, os suspeitos teriam utilizado a máquina e inserido R$ 3.190 sem o conhecimento do casal, apesar de o negócio ter sido acertado por R$ 190. Ou seja, a quantia registrada foi R$ 3 mil superior ao preço apresentado inicialmente. A transação acabou se tornando um dos elementos utilizados para reconstruir a suposta fraude.
A investigação não ficou restrita aos responsáveis pela abordagem. O Ministério Público afirma que outro integrante teria fornecido a estrutura financeira utilizada para receber valores provenientes das supostas fraudes. Essa participação ajuda a explicar por que seis pessoas foram denunciadas mesmo que nem todas tenham aparecido diretamente no contato com o casal de idosos.
Para a Promotoria, o episódio não seria uma ação isolada de vendedores tentando enganar uma única vítima. A acusação sustenta que os seis denunciados mantinham vínculo estável e permanente com o objetivo de praticar crimes patrimoniais de forma reiterada, razão pela qual, além do estelionato envolvendo pessoa idosa, eles também foram denunciados por associação criminosa.
Segundo o MPRJ, o método teria sido reproduzido em diferentes cidades. A estratégia seria oferecer latas de tinta por valores muito abaixo dos preços normalmente encontrados no mercado, utilizar máquinas de cartão durante o pagamento e obter quantias maiores das vítimas. A investigação aponta especialmente para pessoas idosas como alvo das fraudes.
A Promotoria também pediu à Justiça que estabeleça um valor mínimo para reparação dos danos materiais provocados às vítimas. Além disso, requereu medidas cautelares consideradas necessárias para preservar o andamento da investigação e garantir eventual aplicação da lei penal. A denúncia, entretanto, ainda precisa ser analisada pelo Poder Judiciário.
Isso significa que os seis denunciados ainda não podem ser tratados como condenados. Se a Justiça receber a acusação, eles passarão a responder formalmente ao processo e poderão apresentar defesa, contestar as provas reunidas pelo Ministério Público e produzir seus próprios elementos durante a ação penal.
O caso atual chama atenção também porque o chamado “golpe da tinta” já havia provocado uma grande investigação policial na mesma região justamente em novembro de 2021. Na época, a 93ª Delegacia de Polícia de Volta Redonda informou ter identificado seis integrantes de um grupo que sairia de Mogi das Cruzes, em São Paulo, em direção ao Sul Fluminense para aplicar golpes utilizando venda de tintas e máquinas de cartão.
Segundo a Polícia Civil naquela investigação, os suspeitos alugavam veículos em São Paulo e percorriam cidades da região oferecendo latas de tinta de marcas conhecidas por preços muito inferiores aos encontrados normalmente. A apuração policial afirmava que o material oferecido seria falsificado e que, no momento da cobrança, o valor inserido na maquininha era aumentado, fazendo a vítima desembolsar muito mais do que havia combinado.
Aquela investigação resultou na prisão de dois suspeitos no dia 28 de novembro de 2021, durante uma ação conjunta da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal. Eles foram abordados na Via Dutra, na altura do km 287, no posto da PRF de Floriano, em Barra Mansa. Dentro de um Renault Logan, os policiais encontraram cinco latas de tinta de 18 litros.
Um detalhe daquela operação chamou especialmente a atenção dos investigadores. Com um dos suspeitos foi localizado um cartão bancário que, segundo a polícia, era utilizado para movimentar valores provenientes das fraudes. No espaço onde normalmente apareceria o nome do titular havia uma inscrição provocativa: “O Golpe Tá Aí”.
A Polícia Civil informou na ocasião que o grupo investigado era composto por seis integrantes e que parte dos valores obtidos com as fraudes seria utilizada para sustentar uma vida de ostentação no Rio de Janeiro e na Região dos Lagos. A investigação também apontava que os suspeitos escolhiam vítimas ao percorrer residências oferecendo as tintas.
Apesar das semelhanças, é importante fazer uma ressalva: as informações divulgadas atualmente pelo Ministério Público não estabelecem de forma expressa que os seis denunciados agora sejam exatamente os mesmos seis integrantes identificados naquela operação policial de 2021. O período, a região e o método apresentam forte coincidência, mas uma eventual ligação direta entre os dois episódios precisa ser confirmada oficialmente.
No processo atual, o foco está no casal abordado em Volta Redonda e na acusação de que existia uma estrutura organizada para repetir o golpe. O homem tinha 80 anos quando ocorreu a fraude relatada pelo Ministério Público. A idade da esposa não foi divulgada.
O caso também serve de alerta sobre pagamentos feitos em máquinas de cartão. Antes de digitar a senha, é importante conferir no visor o valor efetivamente lançado, especialmente quando a compra é feita fora de estabelecimentos conhecidos. Em situações de dúvida, interromper a transação antes da confirmação pode evitar que valores diferentes dos combinados sejam debitados.
Agora, caberá à Justiça decidir se recebe a denúncia apresentada pelo MPRJ. Até lá, os seis permanecem na condição de denunciados, com direito ao contraditório e à ampla defesa. Se a acusação for recebida, o processo deverá avançar para apurar individualmente a participação atribuída a cada um no esquema.


