“A FERIDA AINDA ESTÁ ABERTA”: PROFESSORA QUE ENCONTROU LÂMINA DE VIDRO EM COPO D’ÁGUA TEM MEDO DE VOLTAR À SALA DE AULA EM SÃO JOSÉ
O episódio aconteceu dentro de uma sala de aula, mas os efeitos continuam muito além dos muros da escola. A professora Michele Ramos, que denunciou ter encontrado uma lâmina de vidro dentro do copo de água durante uma aula na rede municipal de São José dos Campos, afirma que ainda sente medo de retornar ao trabalho. Desde o caso, registrado no início de julho, ela está afastada e em tratamento psicológico após receber diagnóstico de estresse pós traumático. Para a educadora, o tempo passou, mas a sensação de insegurança permanece.
Michele lecionava na EMEFI Professora Ildete Mendonça Barbosa, no Parque Residencial União, na zona sul de São José dos Campos, quando ocorreu o episódio. Segundo o relato da professora, alunos teriam colocado o pedaço de vidro dentro de seu copo e se exibido diante da turma. O que mais a marcou, segundo contou posteriormente, foi o fato de outros estudantes terem percebido o que estava acontecendo e não terem avisado imediatamente.
A situação ganhou repercussão depois que Michele relatou publicamente o ocorrido. Ela contou que, em determinado momento, ouviu uma frase que mudou completamente sua percepção sobre o que estava acontecendo: “se eu fosse você, não beberia essa água, professora”. Foi então que percebeu que havia algo errado no copo e encontrou o objeto.
Passados cerca de dois meses, a professora afirma que ainda não se sente preparada para retornar normalmente à rotina escolar. O afastamento tem sido utilizado para tratamento e tentativa de recuperação emocional, mas Michele admite que a lembrança do episódio permanece muito presente.
“Estou usufruindo desse afastamento, me cuidando, fazendo tudo que eu posso para melhorar e tentar superar. Mas é uma ferida que ainda continua aberta”, afirmou.
Segundo ela, voltar à escola não significa simplesmente retomar de onde parou. O ambiente permanece associado ao episódio que desencadeou o trauma, e a professora teme reencontrar uma realidade parecida com aquela que viveu antes do afastamento.
“A gente fica insegura porque não é uma página que você vira e pronto: a sala de aula vai ser a mesma, a escola não vai ter mudado tanto”, declarou.
O caso também teve consequências administrativas. Depois da denúncia, três alunos suspeitos de envolvimento foram suspensos, enquanto dois deles posteriormente foram transferidos para outras unidades escolares. A direção comunicou o episódio às autoridades e acompanhou os procedimentos adotados após a ocorrência.
Michele também registrou um boletim de ocorrência. A Polícia Civil classificou inicialmente o caso como tentativa de lesão corporal e encaminhou a apuração para a Delegacia da Infância e da Juventude de São José dos Campos, já que os envolvidos são adolescentes.
A investigação deverá esclarecer detalhadamente a participação de cada estudante, as circunstâncias em que o vidro foi colocado no copo e se houve intenção de causar ferimento. Até o momento, não há divulgação de conclusão definitiva da apuração policial.
Para Michele, entretanto, o impacto mais difícil de medir não está apenas no boletim ou nas providências administrativas, mas na relação de confiança dentro da sala de aula. Ao relembrar o episódio, ela contou que sentiu uma profunda dor ao imaginar que um estudante pudesse colocar o objeto dentro de seu copo e, ao mesmo tempo, outros alunos observassem sem alertá la de imediato.
A professora também demonstrou preocupação com o ambiente escolar e com a segurança emocional de quem trabalha diariamente em contato direto com crianças e adolescentes. O medo relatado por Michele surge em um contexto em que professores de diferentes redes de ensino vêm discutindo cada vez mais situações de violência, ameaça e insegurança dentro das unidades.
Em resposta ao caso, a Prefeitura de São José dos Campos informou que mantém ações voltadas à segurança das escolas municipais. Segundo a administração, as unidades contam com protocolos de segurança, Ronda Escolar da Guarda Civil Municipal e monitoramento 24 horas por câmeras integradas ao Centro de Segurança e Inteligência, o CSI.
A Secretaria Municipal de Educação também afirma disponibilizar suporte de psicólogos e assistentes sociais às escolas. De acordo com a Prefeitura, situações de conflito ou incidentes são acompanhadas pelas equipes gestoras, com escuta das partes, apuração e adoção das providências consideradas necessárias.
Pais, responsáveis, servidores e professores podem procurar diretamente as unidades escolares ou a própria Secretaria de Educação quando houver situações específicas que precisem ser comunicadas ou acompanhadas.
No caso de Michele, porém, o retorno à sala de aula dependerá não apenas da estrutura oferecida pela rede municipal, mas também de sua recuperação emocional. O episódio deixou uma marca que, segundo a própria professora, ainda não cicatrizou.
O copo com água ficou para trás, assim como a lâmina retirada daquele momento. Mas o medo permaneceu. Agora, enquanto segue em tratamento, Michele tenta reconstruir a segurança necessária para voltar justamente ao lugar onde construiu sua profissão e onde passou a conviver com uma lembrança que ainda considera uma “ferida aberta”.

Modelo de lâmina que foi colocada em copo de vidr. Foto: Reprodução/TV Vanguarda

