Quarta-feira, Setembro 2, 2026
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DO VÍDEO VIRAL À DELEGACIA: ROTEIRISTA DO VALE DENUNCIA HOMOFOBIA, REGISTRA TRÊS BOs E COBRA APURAÇÃO


Um vídeo que alcançou milhões de visualizações nas redes sociais terminou em uma sequência de ataques homofóbicos, três boletins de ocorrência e uma cobrança por responsabilização. O roteirista, comunicador e profissional de marketing Vitor Boarini, de 29 anos, natural de São José dos Campos e atualmente morador de Taubaté, afirma ter sido alvo de ofensas por causa de sua orientação sexual depois de publicar no Instagram um conteúdo crítico ao escritor e candidato à Presidência Augusto Cury, do Avante.

O episódio ganhou dimensão justamente porque a publicação ultrapassou a rede habitual de seguidores de Vitor. Segundo o relato do comunicador, o vídeo havia sido colocado inicialmente em um modo de teste da plataforma, mas começou a alcançar usuários que não acompanhavam seu perfil e chegou à casa dos milhões de visualizações. A repercussão trouxe comentários políticos sobre o conteúdo, mas também mensagens que deixaram de discutir o vídeo e passaram diretamente para ataques pessoais de cunho homofóbico.

A repercussão ocorreu em um momento de grande exposição nacional de Augusto Cury. O Avante oficializou o escritor como candidato à Presidência no início de agosto e, em levantamento BTG/Nexus divulgado no fim do mês, ele apareceu com 11% das intenções de voto, depois de registrar 2% anteriormente. Esse crescimento também ampliou a circulação de conteúdos relacionados ao candidato nas redes sociais.

Entre as mensagens recebidas por Vitor estava uma ofensa homofóbica atribuída a um perfil identificado como Victor Silveira. Segundo o roteirista, a conta apresentava uma referência à mineradora Vale na biografia. Depois que Vitor questionou publicamente a relação do internauta com a companhia, o homem teria feito novas declarações ofensivas, desta vez envolvendo também o marido do comunicador, o advogado Ademar Rodrigues.

Ainda de acordo com Vitor, o internauta teria afirmado que a Vale não contrataria pessoas gays e que na empresa trabalhariam apenas “homens e mulheres de verdade”. O roteirista afirma que conseguiu registrar a publicação antes que ela fosse apagada. Apesar da referência à companhia existente no perfil, não há, até o momento, confirmação de que o homem seja ou tenha sido funcionário da Vale.

Após o primeiro episódio, Ademar Rodrigues, que também acompanha juridicamente o caso, teria notificado o autor das mensagens pelo próprio Instagram. Vitor então registrou o primeiro boletim de ocorrência na Delegacia Eletrônica de Taubaté, inicialmente classificado como injúria.

Mas a exposição pública do caso trouxe novas mensagens. Depois de publicar um conteúdo relatando o que havia acontecido, Vitor afirma que passou a receber outros ataques. Um internauta teria feito uma manifestação homofóbica associada a medicamentos, enquanto outro usuário teria chamado o comunicador de “lixo” e direcionado ofensas à família dele.

Diante da sequência, outros dois boletins de ocorrência foram registrados na Delegacia Digital de São Paulo, na área destinada a casos envolvendo diversidade e intolerância. Com isso, o episódio passou a envolver três investigados. Segundo o advogado de Vitor, a identificação civil completa das pessoas por trás dos perfis ainda dependerá de medidas policiais direcionadas à Meta, empresa responsável pelo Instagram.

A referência à Vale também levou o roteirista a procurar diretamente a companhia. Segundo ele, a empresa respondeu que repudia qualquer forma de discriminação, preconceito e violência, inclusive homofobia, e informou que a manifestação apresentada seria apurada internamente. Vitor, no entanto, afirmou considerar a primeira resposta genérica e disse querer saber se existe efetivamente algum vínculo profissional entre o autor do comentário e a empresa.

Posteriormente, procurada pela reportagem original, a Vale afirmou que diversidade e inclusão são compromissos institucionais e que discursos de ódio violam seu Código de Conduta. A companhia disse ainda que eventuais casos de descumprimento são submetidos a apuração e podem resultar em medidas disciplinares.

O posicionamento público da empresa é compatível com materiais institucionais nos quais a própria Vale orienta trabalhadores a denunciar situações de LGBTfobia e afirma que preconceito, exclusão e comportamentos discriminatórios contra pessoas LGBTQIA+ não devem ser tolerados no ambiente profissional.

Outro elemento chamou atenção após a repercussão. O perfil atribuído ao primeiro internauta citado por Vitor deixou de ser localizado no Instagram. Segundo o comunicador, ao tentar acessar novamente a conta, o endereço passou a aparecer como usuário não encontrado. A reportagem que revelou o caso também informou que não conseguiu localizar o internauta para ouvir sua versão.

Vitor afirma que preservou prints e registros das mensagens justamente para que o material possa ser apresentado às autoridades. O Governo de São Paulo também orienta vítimas de discriminação por orientação sexual a conservar elementos como imagens, áudios, vídeos, fotografias, boletins de ocorrência e demais provas que possam auxiliar na apuração. Denúncias podem ser formalizadas pela Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado.

O caso pode ultrapassar a esfera de uma simples discussão em redes sociais. Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que práticas de homofobia e transfobia devem ser enquadradas nos tipos previstos na Lei do Racismo enquanto não houver legislação específica aprovada pelo Congresso sobre o tema. A decisão possui eficácia geral e efeito vinculante.

Segundo Ademar Rodrigues, advogado e marido de Vitor, as condutas denunciadas podem configurar, em tese e dependendo da análise policial e judicial, crimes relacionados a racismo e injúria preconceituosa, além de eventual responsabilidade civil por danos morais. Os boletins ainda estão em fase de análise e não há, neste momento, condenação dos autores apontados.

O crescimento das denúncias de crimes praticados no ambiente digital também aparece em levantamentos nacionais. A SaferNet Brasil recebeu 87.689 novas denúncias únicas de crimes cibernéticos em 2025, aumento de 28,4% em relação a 2024. A organização informou que também houve crescimento nas denúncias relacionadas à LGBTfobia naquele período.

Vitor afirma que pretende conduzir o episódio pelas vias legais e que não responderá às mensagens com novas ofensas. Ele defende que eventual responsabilização também seja acompanhada de uma retratação pública dirigida à comunidade LGBTQIA+, caso os fatos sejam confirmados pelas autoridades.

Natural de São José dos Campos, Vitor Boarini vive atualmente em Taubaté, é formado em Marketing e dirige uma agência de criação de conteúdo digital. Segundo as informações divulgadas, ele reúne mais de 22,6 mil seguidores no Instagram e produz conteúdos relacionados a entretenimento, política, comportamento, celebridades e conscientização social.

Os três boletins de ocorrência permanecem sob análise. A identificação completa dos responsáveis pelos perfis e a definição sobre eventual enquadramento criminal dependerão agora do avanço das providências policiais e da análise dos elementos preservados pelo comunicador e por sua defesa.

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