“FIQUE EM SILÊNCIO”: ÁUDIO RECEBIDO NA DELEGACIA LEVA POLÍCIA A PRENDER SUSPEITO EM CASO DE 22 CABEÇAS DE GADO EM QUELUZ
Uma investigação que começou com o desaparecimento de gado ganhou contornos bem mais graves em Queluz e terminou com um homem de 28 anos preso. A Polícia Civil apura um caso que envolve 22 cabeças de gado retiradas de duas propriedades, suspeitas de extorsão, tráfico de drogas, associação para o tráfico e possível participação de outras pessoas. Um dos momentos mais importantes da investigação aconteceu dentro da própria Delegacia de Polícia, quando um administrador de fazenda, de 43 anos, que prestava esclarecimentos, recebeu um áudio do investigado orientando que ele permanecesse em silêncio sobre o caso.
Segundo as informações reunidas pela Polícia Civil, a apuração começou inicialmente após o desaparecimento de 10 cabeças de gado. Durante os depoimentos, porém, o administrador de uma propriedade relatou que também estaria sendo coagido e que vinha sendo pressionado a assumir responsabilidade pelos crimes. A partir desse relato, os investigadores passaram a analisar uma possível relação financeira entre a vítima e o suspeito, o que abriu uma nova linha de investigação.
O administrador contou que enfrentava dificuldades financeiras envolvendo dívidas de IPTU e contas de água e teria procurado o homem de 28 anos para conseguir um empréstimo de R$ 10 mil. Segundo o relato apresentado à polícia, ele recebeu inicialmente apenas R$ 2 mil, ficando os outros R$ 8 mil prometidos para outro momento. Depois disso, conforme a investigação, o suspeito teria passado a pressionar o homem para participar da retirada de animais das propriedades.
A vítima afirmou que teria sido obrigada a identificar o gado e auxiliar na retirada dos animais. O caso, que inicialmente tratava do desaparecimento de 10 cabeças, acabou revelando a possível retirada de outras 12, totalizando 22 animais. Segundo o boletim, dez pertenciam ao proprietário cujo caso deu origem à investigação, enquanto as outras 12 seriam do empregador do administrador. A polícia ainda trabalha para esclarecer a localização do gado e identificar quem teria participado do transporte e do destino dos animais.
As investigações também apontaram referências a pessoas de Passa Quatro, em Minas Gerais, que poderiam ter relação com negociações ou com a movimentação do gado. O administrador afirmou que não tinha contato direto com o responsável pelo transporte dos animais e que essa comunicação seria feita pelo investigado. A Polícia Civil tenta agora identificar todas as pessoas que possam ter participado da retirada, transporte ou eventual receptação do gado.
Foi durante essa apuração que aconteceu um dos episódios mais relevantes do caso. Enquanto estava na Delegacia de Queluz, o administrador teria recebido uma mensagem de áudio do suspeito. Segundo a investigação, o homem queria saber quando a vítima deixaria a unidade policial e teria orientado que ela não falasse sobre seu possível envolvimento nos fatos. A mensagem era temporária e acabou desaparecendo, mas policiais conseguiram fotografar a tela do aparelho antes que o conteúdo fosse apagado.
Diante da situação, a Polícia Civil decidiu avançar nas diligências e foi até a residência do suspeito, localizada no bairro Figueira. Durante as buscas, foram apreendidos dois aparelhos celulares, uma balança de precisão com resquícios de uma substância branca, uma faca com resíduos, uma pequena travessa metálica com vestígios de substância e pedaços de plástico. O material será analisado, já que parte dos objetos levantou suspeitas relacionadas ao possível tráfico de drogas.
Até o momento, não há laudo divulgado confirmando qual seria a substância encontrada nos objetos apreendidos. Por isso, a investigação ainda precisa definir se os resíduos possuem relação efetiva com entorpecentes e qual seria a eventual participação do suspeito em crimes ligados ao tráfico.
Segundo as informações do boletim de ocorrência, durante conversa informal com os investigadores, o homem teria afirmado que teria condições de devolver o gado. Os policiais também teriam solicitado que ele desbloqueasse um dos aparelhos celulares para tentar localizar possíveis contatos relacionados ao transporte ou à receptação dos animais. O investigado, entretanto, não forneceu a senha e informou que prestaria declarações apenas em juízo.
Formalmente, acompanhado por advogados, o homem exerceu o direito de permanecer em silêncio. Ele foi conduzido para os procedimentos policiais e posteriormente encaminhado ao Centro de Triagem de Cruzeiro, onde ficou à disposição da Justiça.
Outro homem também aparece na investigação. Segundo a Polícia Civil, ele teria participado de ameaças contra uma das vítimas e poderia ter utilizado uma arma ligada ao principal investigado. Esse segundo suspeito, porém, não foi preso durante a ocorrência divulgada até o momento.
A investigação possui ainda diferentes enquadramentos jurídicos em análise. O boletim menciona suspeitas de extorsão, tráfico de drogas, associação para o tráfico e outras possíveis infrações. Há também referência à apuração de possível milícia privada, mas a responsabilização definitiva de cada envolvido dependerá do avanço das investigações, das provas reunidas e das decisões judiciais.
A Polícia Civil também pretende analisar os dois celulares apreendidos para tentar recuperar conversas, contatos, registros de localização e informações que possam esclarecer quem participou da retirada das 22 cabeças de gado, qual foi o destino dos animais e se houve pagamento ou negociação envolvendo terceiros. O acesso aos aparelhos dependerá das autorizações judiciais necessárias.
Até o momento, não foram divulgados o valor total dos 22 animais, a localização do gado, a identificação de eventuais receptadores ou se alguma cabeça já foi recuperada. A polícia também não informou se houve apreensão de arma de fogo durante as diligências.
O caso segue em investigação e pode revelar uma estrutura maior do que inicialmente se imaginava. O que começou como uma apuração sobre o desaparecimento de gado passou a envolver relatos de ameaça, coerção, empréstimo de dinheiro, possível tráfico de drogas, contatos interestaduais e um áudio recebido pela vítima enquanto ela estava dentro da delegacia.

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