“CAIXINHA DA ALEGRIA”, PROPINA E CARGAS MILIONÁRIAS: OPERAÇÃO CONTRA POLICIAIS CIVIS CHEGA A SÃO SEBASTIÃO
Uma investigação sobre suspeitas de corrupção dentro da própria estrutura policial chegou a São Sebastião na manhã desta sexta-feira, 28 de agosto. A cidade está entre os municípios alcançados pela Operação Merx, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo, por meio do Gaeco, em conjunto com a Corregedoria da Polícia Civil e outras forças de segurança. A ação mira um esquema em que policiais civis são suspeitos de cobrar propina para liberar cargas de celulares e outros eletrônicos de origem irregular. Segundo a investigação, os valores exigidos chegariam a aproximadamente 70% do valor das mercadorias interceptadas, e o dinheiro pago ilegalmente era chamado, em mensagens analisadas pelos investigadores, de “caixinha da alegria”.
A dimensão da operação chama atenção. A Justiça determinou sete prisões preventivas, sendo quatro contra policiais civis, uma contra um advogado apontado como intermediário das negociações e outras duas contra pessoas suspeitas de realizar o pagamento das vantagens indevidas. Também foram expedidos 18 mandados de busca e apreensão em diferentes cidades de São Paulo, Paraná e Goiás. Além de São Sebastião, há diligências em Barueri, Taboão da Serra, Diadema, Cotia, Santana de Parnaíba, Embu das Artes e na capital paulista. Fora do estado, a operação também alcançou Londrina e Foz do Iguaçu, no Paraná, e São Luís de Montes Belos, em Goiás.
De acordo com o Ministério Público, o esquema teria funcionado desde pelo menos 2024. A investigação aponta que policiais civis interceptavam cargas contendo celulares e outros equipamentos eletrônicos de procedência irregular e, em vez de promover a apreensão integral dos produtos, exigiam dinheiro para devolver parte ou toda a mercadoria aos responsáveis. Em pelo menos quatro episódios já identificados pelos investigadores, as vantagens indevidas teriam alcançado aproximadamente R$ 2,35 milhões.
O percentual cobrado impressiona. Segundo a apuração, em determinadas situações os envolvidos exigiam cerca de 70% do valor da carga para permitir a liberação dos produtos. As negociações, conforme a investigação, não seriam feitas de maneira improvisada. Um advogado aparece como personagem importante no suposto esquema e teria atuado na intermediação entre policiais e empresários, indicando contas bancárias de terceiros para recebimento do dinheiro e participando das tratativas para devolução das mercadorias.
Foi justamente durante a análise de mensagens trocadas entre os investigados que surgiu uma expressão que se transformou em um dos elementos mais marcantes da Operação Merx. Segundo os investigadores, os valores pagos como propina eram chamados de “caixinha da alegria”. As conversas passaram a integrar o conjunto de provas utilizado para embasar os pedidos de prisão, buscas e bloqueio patrimonial apresentados à Justiça.
A suspeita vai além da simples cobrança de dinheiro. A investigação aponta que estruturas e recursos ligados à própria Polícia Civil podem ter sido utilizados para viabilizar o esquema. De acordo com as informações divulgadas, cargas teriam sido acompanhadas ou interceptadas e, em alguns casos, parte das mercadorias seria registrada oficialmente como apreendida enquanto outra parcela acabaria devolvida após os pagamentos clandestinos. A apuração também busca esclarecer se unidades policiais foram utilizadas para armazenar temporariamente os produtos.
Três unidades da Polícia Civil na Grande São Paulo aparecem entre os locais atingidos diretamente pelos mandados: a Delegacia de Santana de Parnaíba, a Delegacia de Embu das Artes e o 2º Distrito Policial de Cotia. Após o cumprimento das ordens judiciais, a Corregedoria deverá realizar fiscalizações extraordinárias nessas unidades para aprofundar a análise sobre possíveis irregularidades administrativas e criminais.
A Justiça também determinou medidas para atingir a estrutura financeira do grupo investigado. Foi autorizado o bloqueio de até R$ 4 milhões em bens dos envolvidos. Outro policial civil, que não teve prisão preventiva decretada, foi afastado de suas funções e teve retiradas as credenciais de acesso aos sistemas policiais. Ele também ficou proibido de manter contato com investigados e testemunhas.
Os crimes investigados incluem corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Como se trata de uma investigação em andamento, todos os envolvidos são considerados suspeitos e a responsabilidade individual de cada um ainda dependerá do avanço das apurações e de eventual julgamento pela Justiça.
A presença de São Sebastião na lista de cidades alcançadas pela Operação Merx coloca o Litoral Norte dentro de uma investigação de repercussão interestadual, mas ainda existem informações importantes a serem esclarecidas. Até o momento, não foi divulgado oficialmente qual endereço foi alvo das diligências no município, quantos mandados foram cumpridos na cidade, se houve prisão ou apreensão e qual seria a ligação específica do alvo localizado em São Sebastião com o esquema investigado.
Também não há confirmação pública de que alguma delegacia de São Sebastião tenha sido alvo da operação ou de que um dos policiais investigados trabalhe atualmente no município. As unidades policiais já identificadas entre os alvos da ação ficam na Grande São Paulo. Dessa forma, qualquer ligação direta entre policiais lotados no Litoral Norte e o suposto esquema depende ainda de confirmação oficial das autoridades responsáveis pela investigação.
A origem das cargas também está no radar dos investigadores. Parte das mercadorias seria composta por celulares e outros eletrônicos de procedência irregular, com movimentação envolvendo diferentes estados. A presença de mandados em Foz do Iguaçu, no Paraná, região de fronteira com o Paraguai e importante corredor de circulação de produtos eletrônicos, amplia a investigação sobre a cadeia responsável pelo transporte e distribuição das mercadorias.
O nome “Merx”, utilizado para batizar a operação, remete ao comércio e à circulação de mercadorias, justamente o ponto central da investigação. A apuração busca esclarecer como as cargas eram interceptadas, quem negociava as liberações, para onde o dinheiro era enviado, de que forma os valores eram divididos e se havia outros agentes públicos ou particulares participando do esquema.
A investigação também deverá aprofundar o rastreamento financeiro. O uso de contas de terceiros e movimentações em dinheiro vivo aparece como uma das estratégias suspeitas para tentar dificultar a identificação do destino dos valores. A análise bancária e patrimonial poderá ajudar a Polícia Civil e o Ministério Público a descobrir se o dinheiro obtido ilegalmente foi utilizado para aquisição de imóveis, veículos ou outros bens.
Com mandados em três estados, policiais entre os investigados, milhões de reais sob suspeita e o bloqueio de patrimônio determinado pela Justiça, a Operação Merx entra agora em uma nova fase. Celulares, documentos, computadores e outros materiais eventualmente recolhidos durante as buscas poderão ampliar o número de investigados ou esclarecer o papel de cada pessoa já identificada.
Em São Sebastião, a principal pergunta permanece sem resposta: quem exatamente era o alvo localizado na cidade e qual era sua participação no suposto esquema da chamada “caixinha da alegria”? O balanço específico da operação no município ainda é aguardado e poderá revelar novos detalhes de uma investigação que já alcança diferentes regiões do país.


