“NÃO ESCONDERAM O ROSTO”: POLÍCIA DIZ QUE SUSPEITOS AGIRAM SEM MEDO DE SER IDENTIFICADOS NA EXECUÇÃO DE EVANDRO EM SJC
A maneira como os suspeitos circularam por São José dos Campos antes e depois da execução de Evandro Luiz Prudente, de 33 anos, chamou a atenção dos investigadores. Segundo o delegado responsável pela investigação, os envolvidos não demonstraram preocupação em esconder o rosto, mesmo após um crime cometido em plena tarde, dentro da recepção de uma academia e diante de outras pessoas. O comportamento acabou sendo decisivo para que câmeras de segurança ajudassem a reconstruir a rota de fuga e levassem à prisão de três investigados poucas horas depois do homicídio.
Evandro foi morto na tarde de terça feira, 25 de agosto, dentro de uma academia localizada na Avenida Rui Barbosa, no bairro Santana, zona norte de São José dos Campos. Imagens do estabelecimento mostram a vítima sentada em uma poltrona da recepção, aparentemente utilizando o celular, quando um homem armado entra segurando um capacete e vai diretamente em sua direção.
O atirador dispara diversas vezes contra Evandro e deixa o local rapidamente. Outras quatro pessoas estavam na recepção e presenciaram a execução, mas nenhuma delas foi atingida.
A perícia recolheu 16 estojos de munição no interior da academia. Evandro morreu ainda no local.
Para a Polícia Civil, a dinâmica indica que não se tratou de um encontro casual. As investigações apontam que a vítima teria sido monitorada antes de chegar ao estabelecimento.
Imagens obtidas pelo Centro de Segurança e Inteligência de São José dos Campos registraram o Camaro preto utilizado por Evandro sendo acompanhado por uma motocicleta pelas ruas da zona norte. O veículo aparece seguindo o carro até a região da academia.
Esse monitoramento reforçou para os investigadores a hipótese de que o grupo sabia onde Evandro estava e acompanhava seus movimentos antes do ataque.
Depois dos disparos, os envolvidos utilizaram uma motocicleta preta para deixar a região. O veículo acabou abandonado às margens da Rodovia Monteiro Lobato, a SP 50, ainda na zona norte de São José dos Campos.
Foi justamente nesse momento que o fato de os suspeitos não esconderem o rosto passou a ter peso ainda maior na investigação.
Câmeras instaladas na região registraram os homens depois que a motocicleta foi abandonada. As imagens permitiram acompanhar a movimentação dos suspeitos enquanto eles deixavam o ponto onde a moto havia sido descartada.
Segundo a investigação, dois homens caminharam aproximadamente 300 metros até chegarem a um automóvel branco, onde um terceiro suspeito os aguardava.
O veículo utilizado nessa segunda etapa da fuga foi identificado como um Hyundai HB20 branco.
A partir dali começou uma verdadeira corrida contra o tempo. A Polícia Civil passou a acompanhar o automóvel enquanto ele seguia em direção à Rodovia Presidente Dutra e deixava São José dos Campos rumo ao estado do Rio de Janeiro.
As informações foram compartilhadas com outras forças de segurança e o carro continuou sendo monitorado durante o deslocamento.
Na região de Itatiaia, a Polícia Civil de São José dos Campos pediu apoio ao Grupamento de Ações Táticas do 37º Batalhão da Polícia Militar, com sede em Resende.
O HB20 foi interceptado e três homens acabaram detidos.
Os investigados foram identificados nas informações divulgadas pela polícia como Alex Cruz Fernandes, Gabriel Carvalho da Silva e Lucas de Oliveira. Alex é apontado nas investigações como suspeito de ter efetuado os disparos contra Evandro, enquanto a participação individual dos outros dois ainda é analisada.
Após a abordagem, os três foram encaminhados à Delegacia de Resende. Uma equipe da Delegacia de Homicídios de São José dos Campos seguiu até o Rio de Janeiro para apresentar os elementos reunidos ao longo das primeiras horas da investigação.
A prisão aconteceu poucas horas depois da execução.
A investigação também descobriu que os veículos utilizados na operação tinham origens diferentes. Segundo o delegado, a motocicleta usada no crime havia sido alugada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Já o automóvel utilizado na sequência da fuga teria sido alugado no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro.
A logística chamou a atenção da Polícia Civil, principalmente porque Porto Alegre é a cidade de origem de Evandro. O fato passou a integrar a linha de investigação que tenta descobrir quem planejou o crime, quem financiou a ação e se os três presos receberam ordens de outra pessoa.
Apesar de todo o planejamento aparente envolvendo veículos alugados em estados diferentes, acompanhamento da vítima e troca de meio de transporte durante a fuga, um detalhe destoou da operação: os envolvidos, segundo a polícia, não tiveram o mesmo cuidado com a própria identificação.
“Não esconderam o rosto”, afirmou o delegado ao comentar as imagens utilizadas para localizar os suspeitos.
O comportamento permitiu que câmeras de segurança instaladas em diferentes pontos registrassem características dos homens durante a fuga.
A Polícia Civil agora tenta transformar essas imagens e os demais elementos encontrados em provas capazes de individualizar a participação de cada investigado.
Outro ponto fundamental da investigação são os celulares apreendidos. Os aparelhos poderão ajudar a esclarecer quem manteve contato com os suspeitos antes e depois do assassinato e se existe uma quarta pessoa ou até um possível mandante por trás da execução.
Os investigadores também buscam mensagens, ligações e registros que possam indicar como a viagem até São José dos Campos foi organizada e quando o grupo começou a monitorar Evandro.
Durante os primeiros depoimentos, os três homens teriam afirmado que eram pedreiros e estavam trabalhando em São José dos Campos. Segundo o delegado, porém, eles não conseguiram explicar de forma satisfatória qual serviço realizavam ou o que faziam na cidade.
Também não esclareceram qual relação possuíam com Evandro.
Nenhuma arma utilizada no crime foi encontrada durante a abordagem do trio no Rio de Janeiro. O destino do armamento é outra questão que permanece sem resposta.
A Polícia Civil deverá apurar se a arma foi descartada durante a fuga, entregue a outra pessoa ou escondida em algum ponto entre São José dos Campos e Itatiaia.
Enquanto busca respostas sobre a participação dos presos, a investigação também avança sobre a vida da vítima.
Evandro era natural do Rio Grande do Sul e morava em São José dos Campos havia aproximadamente um ano. A polícia investiga informações relacionadas a atividades financeiras e possíveis conflitos anteriores, inclusive a suspeita de atuação com empréstimos de dinheiro.
A esposa informou aos investigadores que Evandro trabalhava com venda de veículos pela internet, não mantinha negócios conhecidos em São José dos Campos e não havia comentado sobre ameaças recentes.
O passado da vítima no Rio Grande do Sul também está sendo analisado, mas até o momento não existe confirmação de que algum processo, investigação ou desavença anterior tenha relação direta com o homicídio ocorrido na academia.
Em um processo relacionado a homicídio no Rio Grande do Sul, Evandro chegou a ser investigado, mas acabou impronunciado por insuficiência de elementos para levá lo a julgamento pelo Tribunal do Júri naquele caso.
A Polícia Civil trabalha ainda com a possibilidade de o assassinato ter sido encomendado. A forma como a vítima teria sido acompanhada, o uso de veículos alugados em estados diferentes e a rapidez da execução são elementos considerados relevantes nessa linha de apuração.
O delegado Neimar Camargo Mendes, da Delegacia de Homicídios, já afirmou que as imagens indicam uma ação direcionada. Para a investigação, os criminosos sabiam onde encontrar a vítima e foram ao estabelecimento com um objetivo definido.
A academia permaneceu fechada na quarta feira, 26, depois do crime. Em nota, o estabelecimento lamentou a morte, afirmou estar colaborando com as autoridades e informou que o episódio foi isolado.
Mesmo com três investigados presos, a execução de Evandro ainda possui perguntas fundamentais sem resposta.
Quem teria ordenado a morte? Qual foi a motivação? Quem forneceu a arma? Como o grupo sabia exatamente onde encontrar Evandro? Quem alugou e pagou pelos veículos? E por que os suspeitos, apesar da aparente preparação, circularam sem esconder os próprios rostos?
São justamente essas perguntas que agora concentram o trabalho da Delegacia de Homicídios.
O crime que durou poucos segundos dentro de uma academia desencadeou uma investigação que percorreu câmeras de toda a zona norte, chegou à SP 50, avançou pela Via Dutra e terminou, naquela tarde, com três homens detidos no estado do Rio de Janeiro.
Agora, enquanto imagens mostram o caminho percorrido pelos suspeitos, os investigadores procuram descobrir o caminho inverso: quem estava por trás da execução de Evandro e o que levou à ordem para matá lo.


