Sábado, Agosto 22, 2026
Notícias de Cruzeiro

VOCÊ TERIA CORAGEM DE ENTRAR? TÚNEL DA MANTIQUEIRA GUARDA HISTÓRIA, GUERRA E LENDAS EM CRUZEIRO


Neste sábado (22), Dia do Folclore, personagens como Saci, lobisomem, Corpo Seco, Cobra Grande e Loira do Banheiro voltam a ocupar espaço nas histórias contadas pelo Vale do Paraíba. Em praticamente cada canto da região existe algum causo antigo, uma assombração, personagem misterioso ou história transmitida pelos mais velhos. E em Cruzeiro, poucos lugares reúnem tanto mistério, história e memória popular quanto o Túnel da Mantiqueira, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais.

Escuro, úmido, cercado pelas montanhas e marcado por acontecimentos históricos, o túnel atravessou gerações alimentando relatos de moradores e visitantes. Há quem conte sobre ruídos difíceis de identificar, impressão de passos acompanhando quem caminha pelos antigos trilhos e aquela sensação desconfortável de não estar completamente sozinho no meio da escuridão.

Não existe comprovação de fenômenos sobrenaturais no local. O forte eco, as infiltrações, o vento, a água e as características da própria construção ajudam a explicar muitos dos sons percebidos no interior. Mesmo assim, os relatos acabaram incorporados ao imaginário popular e hoje fazem parte dos causos associados à região da Mantiqueira.

Um relato de caminhada pelo túnel, por exemplo, descreve o ambiente como úmido, frio e repleto de ecos. A visitante chegou a contar que teve a impressão de ouvir passos atrás do grupo durante a travessia, embora tenha atribuído a sensação à acústica do lugar. Ela também registrou que histórias e lendas urbanas envolvendo o túnel são conhecidas na região.

Mas muito antes das histórias de assombração, existe história de verdade.

O Túnel da Mantiqueira foi construído no século XIX como parte da antiga ferrovia que atravessava a serra entre Cruzeiro e Minas Gerais. Décadas mais tarde, a região se transformaria em cenário estratégico durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando a Garganta do Embaú e seus arredores foram palco de intensos confrontos.

A combinação não poderia ser mais propícia para o nascimento de causos. Um túnel antigo, quase um quilômetro de escuridão, montanhas, ferrovia, soldados e a memória de uma guerra. Com o passar do tempo, realidade e imaginação foram se encontrando nas histórias contadas por moradores.

E Cruzeiro não está sozinho.

Seguindo pelo Vale do Paraíba, cada cidade parece guardar alguma história capaz de provocar curiosidade, medo ou nostalgia.

Em Cachoeira Paulista, existe a tradicional história da Fonte da Mão Fria, ligada à memória dos indígenas Puris. A lenda fala de Maná, filha do cacique Taboré, e de seu amor pelo jovem Catu. Segundo a tradição local, a jovem teria sido destinada pelo pajé a uma oferenda a Tupã, dando origem a uma narrativa transmitida durante gerações e associada à fonte que existe no município.

A cidade também guarda versões locais sobre o Corpo Seco, personagem bastante conhecido do folclore do interior. Um dos causos registrados em Cachoeira Paulista localiza a assombração na região onde atualmente fica o Alto da Bela Vista, história que durante muito tempo teria sido usada para assustar crianças.

Seguindo para Guaratinguetá, encontramos talvez uma das histórias mais famosas de todo o Vale.

É lá que a tradição regional situa uma das origens da lendária Loira do Banheiro.

A história está ligada a Maria Augusta de Oliveira Borges, filha do Visconde de Guaratinguetá. Maria Augusta morreu na França em 1891 e seu corpo retornou ao Brasil. O terreno pertencente à família posteriormente passou a abrigar a atual Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves. Com o passar das décadas, alunos começaram a relacionar a figura de Maria Augusta aos relatos de uma aparição feminina que teria circulado pelo prédio e seus banheiros. O próprio Plano de Desenvolvimento Turístico de Guaratinguetá registra a associação entre a escola, Maria Augusta e a famosa lenda.

Quem estudou no Conselheiro Rodrigues Alves provavelmente já ouviu alguma versão.

Mas será que todos contam a mesma história?

Em Pindamonhangaba, os causos também aparecem nos registros históricos do próprio município. Em Moreira César, por exemplo, moradores antigos falavam sobre lobisomens atacando galinheiros, mula sem cabeça e até o vulto de uma mulher loira vestida de branco que teria sido visto perto de um córrego no antigo caminho entre Moreira César e o centro de Pinda.

E Pinda ainda tem uma história particularmente curiosa.

Uma árvore conhecida como “Chico Pires” era cercada de crenças. Segundo os relatos preservados pela Prefeitura, muita gente evitava passar perto dela durante a noite porque acreditava que a árvore seria capaz de abordar os viajantes e castigar quem não respondesse. Havia até a crença de que nenhum machado seria capaz de derrubá-la. A árvore sobreviveu a transformações ocorridas na área e tornou-se parte dos antigos causos de Moreira César.

Em Taubaté, o folclore ganhou uma dimensão nacional pelas mãos de Monteiro Lobato. Saci, Cuca e diversas figuras do imaginário rural brasileiro ganharam espaço em sua literatura e ajudaram a levar para crianças de todo o país histórias que circulavam oralmente pelo interior. A própria Secretaria de Cultura de Taubaté reconhece Lobato como um dos grandes responsáveis pela divulgação das lendas e dos causos regionais.

Mas Taubaté também possui uma lenda tipicamente local: a Bica do Bugre.

Segundo material do município dedicado ao folclore, existe uma antiga crença de que quem bebe da água da Bica do Bugre acaba voltando ao lugar. A tradição teria surgido a partir da história de uma fonte abençoada por um pajé guaianá.

Mais adiante, em Jacareí, encontramos uma criatura de proporções gigantescas.

A famosa Cobra Grande viveria nas águas do Rio Paraíba do Sul. Segundo a tradição, a serpente era tão enorme que sua cabeça apareceria em Jacareí enquanto seu corpo se estenderia em direção a Guararema. Faminta, ela teria começado a devorar árvores, plantações e até pedaços das margens, ameaçando a própria Igreja Matriz.

Apavorados, os moradores teriam recorrido à proteção de Nossa Senhora da Conceição para afastar a criatura. A história permanece tão presente na cultura jacareiense que a cidade já promoveu até o Cortejo da Cobra Grande, transformando a antiga lenda em manifestação cultural pelas ruas.

E se existe uma cidade no Vale que decidiu abraçar definitivamente um personagem folclórico, essa cidade é Joanópolis.

Conhecida oficialmente em sua divulgação cultural como “cidade do lobisomem” e também chamada de Capital do Lobisomem em eventos municipais, Joanópolis transformou o personagem em parte de sua identidade turística. A ligação é tão grande que a cidade realizou o Festival da Lua Cheia, com atividades dedicadas justamente às lendas, à criação de histórias folclóricas e ao imaginário relacionado ao personagem.

Por lá, o lobisomem saiu dos causos e chegou até a mesa. A cidade ficou conhecida pela Comida do Lobisomem, prato inspirado na culinária caipira e utilizado como uma das expressões gastronômicas do município.

Em São Luiz do Paraitinga, quem reina é o Saci.

A ligação é tão forte que a cidade realiza há décadas a Festa do Saci e seus Amigos, com brincadeiras, música, contação de histórias, oficinas e atividades voltadas à valorização da cultura popular brasileira. A Sociedade dos Observadores de Saci surgiu no município em 2003 e ajudou a fortalecer a proposta de celebrar o personagem como símbolo do folclore nacional.

Mas São Luiz vai muito além do Saci. A cidade mantém manifestações como Folia do Divino, Congada, Cavalhada e os tradicionais bonecões João Paulino e Maria Angu, personagens que há mais de um século aparecem nas festas locais.

É justamente essa diversidade que faz do Vale do Paraíba um território tão rico em cultura popular.

Algumas histórias estão registradas em documentos, livros e pesquisas. Outras sobrevivem apenas na memória dos moradores.

E talvez seja justamente aí que Cruzeiro tenha muito mais a revelar.

Quantos causos cruzeirenses ainda existem apenas na memória das famílias?

Talvez alguém se lembre de uma história do Túnel da Mantiqueira que nunca foi escrita. Talvez exista uma antiga casa do Centro que todo mundo dizia ser assombrada. Pode haver um causo da Vila Expedicionários, do Itagaçaba, da Vila Batista, do Retiro da Mantiqueira, da zona rural ou de algum outro bairro que somente os moradores mais antigos conheçam.

Pode ser uma história sobre vultos na ferrovia, soldados de 1932, tropeiros, lobisomem, mula sem cabeça, Corpo Seco ou aquela assombração que tinha até nome próprio e fazia as crianças entrarem correndo em casa quando começava a escurecer.

É isso que o Jornal A Notícia quer descobrir com seus leitores.

Cruzeirense, chegou a sua vez de contar a história.

Você conhece alguma lenda de Cruzeiro?

Já entrou no Túnel da Mantiqueira e viveu alguma situação estranha?

Seus pais ou avós contavam histórias sobre assombrações da cidade?

Existe algum bairro, estrada, casarão, fazenda, mata ou trecho da antiga ferrovia conhecido por algum causo?

Conte nos comentários.

E se você é de outra cidade do Vale, participe também.

Guaratinguetá tem a Loira do Banheiro. Jacareí tem a Cobra Grande. Joanópolis tem o Lobisomem. São Luiz do Paraitinga abraçou o Saci. Taubaté tem a Bica do Bugre e a herança de Monteiro Lobato. Pindamonhangaba guarda os causos do Chico Pires e da mulher de branco. Cachoeira Paulista tem a Fonte da Mão Fria. E Cruzeiro, qual é a nossa grande lenda?

Marque aquele amigo, pai, mãe, avô, avó, tio ou vizinho que sempre conta histórias antigas.

Talvez um simples comentário revele um causo conhecido por dezenas de famílias. E, se várias pessoas contarem versões semelhantes, o Jornal A Notícia poderá reunir esses relatos em uma nova reportagem especial para registrar as lendas e mistérios de Cruzeiro contados pelos próprios cruzeirenses.

Neste Dia do Folclore, mais importante do que apenas lembrar Saci, lobisomem ou assombração é impedir que as histórias da nossa própria terra desapareçam junto com aqueles que ainda sabem contá-las.

Agora queremos saber de você: qual história misteriosa de Cruzeiro marcou sua infância?

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