ENTRE A FILHA E OS DISPAROS: CARLOS MORREU TENTANDO PROTEGER MÔNICA EM JACAREÍ
O instinto de pai falou mais alto nos segundos mais violentos daquela noite. Quando percebeu que a filha estava diante de uma ameaça armada, Carlos Inácio da Silva, de 62 anos, teria se colocado na frente de Mônica Cristina da Silva, de 38 anos, na tentativa de protegê-la dos disparos. O aposentado acabou atingido e morreu no local. Mônica também foi baleada, mas sobreviveu. O ataque aconteceu na noite de terça-feira, 18 de agosto, em Jacareí, e transformou uma discussão sobre a divisão de um imóvel em uma tragédia familiar marcada por morte, sobrevivência e uma fuga que terminou dois dias depois, com a prisão do investigado em Minas Gerais.
Segundo os relatos registrados no boletim de ocorrência, o autor dos disparos seria Anderson Saldanha Guedes, de 37 anos, mecânico e ex-noivo de Mônica. Os dois mantiveram um relacionamento por aproximadamente seis anos e haviam terminado em 27 de julho. Antes da separação, chegaram a planejar o casamento civil para outubro. Com o fim da relação, surgiu uma disputa em torno de um imóvel comprado pelo casal. A investigação aponta que Mônica pretendia receber metade do valor obtido com a venda da propriedade, enquanto Anderson não concordava com a divisão.
Na noite do crime, familiares estavam reunidos para discutir justamente essa questão. Durante a conversa, conforme os depoimentos colhidos pela polícia, Anderson teria deixado o ambiente e retornado armado. O pai do próprio investigado relatou que Carlos foi um dos primeiros alvos. Ao perceber o início dos disparos, o aposentado teria reagido tentando proteger a filha e se colocado entre ela e o atirador.
Carlos foi atingido e morreu antes que pudesse ser socorrido. O gesto que teria sido sua última tentativa de proteger Mônica, porém, não impediu que o ataque continuasse. De acordo com a investigação, Anderson teria passado a perseguir a ex-noiva dentro da residência enquanto efetuava novos disparos. Mônica tentou escapar, mas acabou baleada.
Mesmo ferida, ela sobreviveu. Mônica foi levada para a Santa Casa de Jacareí, onde permaneceu internada. A atualização mais recente divulgada sobre seu estado de saúde apontava que ela estava consciente, intubada e com quadro clínico estável. Por permanecer sob cuidados médicos, ainda não havia sido ouvida formalmente pela Polícia Civil no momento dos primeiros registros da ocorrência.
A violência da sequência também foi descrita pela mãe de Anderson. Em depoimento, ela afirmou ter ouvido aproximadamente 15 disparos e contou que tentou impedir o filho de pegar a arma. Segundo a mulher, Anderson a empurrou antes de continuar a ação. Ela também relatou que o filho já teria feito ameaças contra Mônica antes daquela noite.
Ainda conforme esse depoimento, Anderson dizia que a ex-noiva não ficaria com o dinheiro relacionado ao imóvel e teria afirmado que mataria Mônica e depois tiraria a própria vida. Essas declarações integram a investigação e deverão ser confrontadas com os demais elementos reunidos pela Polícia Civil.
Depois dos disparos, Anderson fugiu utilizando uma Honda NX-4 Falcon. Antes de desaparecer, segundo consta no boletim de ocorrência, ele enviou uma mensagem ao próprio pai dizendo que “não iria mais envergonhá-lo”. A fuga iniciou uma mobilização policial que atravessou a divisa entre São Paulo e Minas Gerais.
Na manhã de quinta-feira, 20 de agosto, dois dias depois do ataque, Anderson foi localizado e preso em Passa Quatro, no Sul de Minas Gerais. A captura ocorreu após trabalho integrado de inteligência envolvendo forças de segurança de São Paulo e Minas. Com a prisão, a investigação entrou em uma nova fase, agora com o suspeito sob custódia.
O caso foi registrado pela Polícia Civil como homicídio consumado contra Carlos e tentativa de feminicídio contra Mônica. Os investigadores deverão reconstruir toda a sequência, analisar os depoimentos dos familiares presentes, os vestígios recolhidos no imóvel e as circunstâncias da discussão que antecedeu os tiros.
A história, no entanto, não se resume apenas aos termos de um boletim de ocorrência. Para Mônica, sobreviver ao ataque significou também enfrentar a perda do próprio pai. Carlos entrou naquela discussão como familiar e terminou, segundo os relatos reunidos pela investigação, usando o próprio corpo na tentativa de proteger a filha.
Ele não conseguiu impedir que Mônica fosse baleada, mas o gesto revela o que teria acontecido nos segundos em que percebeu que ela estava em risco.
Entre a filha e os disparos, Carlos tentou protegê-la.
Mônica sobreviveu. Carlos morreu no local.
Agora, enquanto ela segue sua recuperação e a Justiça passa a analisar a responsabilidade do homem apontado como autor dos tiros, uma família tenta conviver com uma imagem que dificilmente será esquecida: a de um pai de 62 anos que, diante de uma arma e vendo a filha em perigo, teria escolhido ficar na frente dela.

Carlos Inácio, de chapéu, ao lado da filha Mônica, a quem teria tentado proteger durante o ataque; no detalhe, Anderson Saldanha Guedes, investigado pelos disparos. Foto/reprodução: Sampinet

